LCWR: trabalho segue normalmente apesar da investigação e das ordens vaticanas

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25 Agosto 2014

Encontrando-se para a sua assembleia anual, a Conferência de Liderança das Religiosas – LCWR [sigla em inglês para Leadership Conference of Women Religious] passou quatro dias realizando os trabalhos exigidos em qualquer grande organização, apesar da presença de uma investigação em curso conduzida pelo Vaticano e de ordens vindas daí para que a organização realize reformas em seus estatutos.

A reportagem é de Dan Stockman e Dawn Cherie Araujo, publicada por National Catholic Reporter, 22-08-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O encontro ocorrido entre os dias 12 a 16 de agosto entre as líderes das congregações femininas religiosas atuantes nos EUA esteve repleto de orações e música. Foi também marcado por referências contundentes às tensões entre o grupo e o Vaticano.

As irmãs que participaram da assembleia disseram que esta experiência renovou o compromisso que elas têm.

“Acho que este é um grupo incrivelmente animado de mulheres, um grupo de mulheres bem firmes naquilo que acreditam”, disse a Irmã Carol Regan (da Sagrada União), diretora associada da Conferência para a Formação Religiosa. “Estou voltando para o trabalho mais confiante em minha própria vocação como religiosa, ávida para ver outras pessoas se juntarem a nós nesta filosofia de vida”.

Em seu discurso, a irmã franciscana Nancy Schreck, ex-presidente da LCWR, disse que as décadas em que estas irmãs vêm vivendo o chamado radical de Cristo levou a uma maturidade que não pode ser ignorada ou negada, mesmo se esta maturidade não for compreendida por aqueles que de fora.

“Estamos entrando nesta noite de mistério e podemos dizer, com Alice Walker: ‘Não somos mais meninas. E continuar a agir como se fôssemos tirará do mundo e das gerações futuras os nossos insights’”, disse Schreck, sendo aplaudida quando acrescentou: “Não somos mais meninas”.

A Irmã Mary Johnstone, vigária das Dominicanas de Sinsinawa, em Wisconsin, disse que as mensagens do encontro são exigentes.

“Com certeza, levarei comigo alguns dos desafios que elas nos apresentaram”, disse. “Destaco o chamado para sermos líderes, para sermos presença junto aos marginalizados”.

A LCWR está sob uma avaliação doutrinal em curso do Vaticano desde 2009. Após uma investigação em 2012, a Congregação para a Doutrina da Fé – CDF ordenou que a organização reformasse os seus estatutos e nomeou Dom J. Peter Sartain, arcebispo de Seattle, para supervisionar as mudanças.

Numa reunião em março, o cardeal Gerhard Müller, prefeito da CDF, repreendeu as líderes da LCWR por demorarem na realização das reformas exigidas e as ordenou terem a aprovação de Sartain em relação aos palestrantes dos eventos promovidos pelo grupo.

A CDF irritou-se particularmente pela escolha da Irmã Elizabeth Johnson (da congregação de São José) para receber o Prêmio Liderança de Destaque. A Comissão Doutrinal dos bispos americanos tinha dito que o livro desta irmã, intitulado “Quest for the Living God: Mapping Frontiers in the Theology of God” [A busca pelo Deus vivo: Mapeando fronteiras na teologia sobre Deus], não está de acordo com a doutrina católica. Johnson, considerada uma das principais autoras na área da teologia feminista, nega a acusação.

Em sua fala ao grupo no dia 15 de agosto, Johnson pôs do lado da crítica ao seu livro a avaliação doutrinal da LCWR, chamando a investigação de “inconcebível”.

Sartain se fez presente na maioria das sessões públicas que a LCWR realizou, mas não participou quando Johnson se dirigiu ao grupo na última noite da assembleia.

Afora as referências que os oradores fizeram à avaliação doutrinal, este assunto apenas foi debatido em sessões fechadas. As sessões públicas se focaram sobre questões como liderança, justiça social e compreensão do chamado de Deus.

Depois da assembleia, as irmãs que participam da coordenação do grupo se reuniram em privado por mais três dias, começando com uma sessão de uma hora junto a Sartain. No dia 18 de agosto, publicaram uma nota sobre a avaliação doutrinal:

“O nosso estudo, o nosso discernimento e a nossa oração nos levaram a reafirmar uma forte crença de que o diálogo contínuo com as lideranças eclesiásticas seja central para a construção de relações eficientes de trabalho que capacitam tanto as religiosas quanto os líderes da Igreja a servir o mundo”, afirmou a coordenação nacional na nota divulgada. “A nossa mais profunda esperança é resolver a situação entre a LCWR e a Congregação para a Doutrina da Fé de uma forma que honre, plenamente, o nosso compromisso em realizar a missão da organização bem como proteger a sua integridade”.

A nota não diz claramente que a LCWR irá consentir com a exigência vaticana segundo a qual Sartain precisa aprovar os oradores e oradoras que participarão nos eventos do grupo. Porta-voz da LCWR, a Irmã Annmarie Sanders (do Imaculado Coração de Maria) disse que o grupo não iria se manifestar além daquilo que fora escrito. Tanto Sartain quanto a LCWR afirmaram que ambas as partes chegaram a um acordo para falarem somente entre si sobre este assunto.

“Vamos continuar com o diálogo junto a Dom J. Peter Sartain como uma expressão de esperança de que novas formas possam ser criadas dentro da Igreja para um debate sadio sobre as diferenças”, lê-se na nota. “Acreditamos que os diálogos contínuos entre a Congregação e a LCWR podem modelar uma forma de relação que aprofunde e fortaleça a nossa capacidade de servir um mundo que precisa, desesperadamente, de nosso cuidado e serviço”.

O padre jesuíta Bruce Morrill contou ao National Catholic Reporter que esta nota é uma rejeição para com as demandas da CDF.

Professor de estudos católicos no curso de Teologia da Universidade de Vanderbilt, a pesquisa e produção de Morrill dizem respeito a questões de poder exercido em práticas rituais da Igreja. Disse que o estilo de liderança das irmãs é bastante diferente daquele do Vaticano, em que as irmãs usam equipes de lideranças e eleições contra uma cadeia rígida e hierárquica de comando do Vaticano.

“A meu ver, este é um exemplo excelente de quão diferente são as culturas que a LCWR e a hierarquia católica romana praticam”, disse ele. “A LCWR declara, assim, o seu desejo de continuar a ‘trabalhar com’ Dom J. Peter Sartain, mas não apresentam nenhuma disposição para fazer acontecer a exigência da CDF e do arcebispo, segundo a qual elas, doravante, precisam submeter a programação de seus eventos e os palestrantes escolhidos para uma aprovação do religioso nomeado [Sartain]”.

Ann Carey, jornalista católica e autora de um livro publicado em 1997, chamado “Sisters in Crisis: The Tragic Unraveling of Women's Religious Communities” [Irmãs em crise: O trágico desvendar das comunidades religiosas femininas], reeditado em 2013, sob o título “Sisters in Crisis, Revisited: From Unraveling to Reform and Renewal” [Irmãs em crise, revisitado: Do desvendar à reforma e renovação], disse que a assembleia deste ano não pareceu produzir algo que fosse diferente das edições anteriores.

Carey, crítica ferrenha da LCWR, não esteve presente na assembleia deste ano, mas a acompanhou a partir de reportagens e informes da própria LCWR.

Carey disse que a LCWR quer “determinar a sua própria direção e destino enquanto continua conversando com Dom J. Peter Sartain sobre as questões conflituosas. Então, eu diria que não houve nada de novo”.

A irmã Helen Marie Burns disse que ficou “desapontada” ao ler a nota da LCWR, “mas – acrescentou – talvez esta seja a sabedoria e o brilho do que nele se diz”.

“Num mundo onde tantos se recusam a dialogar, se recusam a tentar escutar e partilhar, onde muitos se negam a sentar para conversar durante um tempo suficiente no intuito de aprender e compreender, ler que ‘nós vamos continuar com o diálogo’ é uma notícia boa”, contou Burns ao NCR por email.

“Este ato simples de diálogo tem poder e promete: algum dia talvez haja uma troca mútua e substantiva”, acrescentou a religiosa, que presidiu a LCWR em 1989.

Na fala que fez, a Irmã Nancy Schreck disse que a tensão junto às autoridades eclesiásticas ocorreu porque as religiosas ouviram o chamado pela reforma feito no Concílio Vaticano II.
“O Concílio pediu para que nos tornássemos mais cientes das preocupações sociais, e assim fizemos”, disse.

As religiosas aprenderam que “o nosso verdadeiro papel histórico é responder às necessidades não sanadas do nosso mundo e da nossa Igreja”.

Esta resposta levou a um aprofundamento da fé, falou às aproximadamente 800 irmãs presentes na assembleia.

“Estamos num processo de maturação desde o chamado do Concílio para a renovação, e eu me atrevo a dizer que através deste processo nos tornamos mais, e não menos, fiéis; temos maior, e não menor, clareza de quem somos; e mais, e não menos, liberdade para darmos expressão ao nosso chamado”, declarou Schreck.

Carey disse que afirmações como estas são “desnecessariamente provocativas”.

“A LCWR insiste querer estar travar um diálogo respeitoso com o delegado [da CDF], Dom J. Peter Sartain”, segundo Carey. “O diálogo respeitoso é uma via de mão dupla”.

Focadas em dar continuidade ao seu trabalho normalmente, as religiosas da LCWR aprovaram uma resolução que compromete as congregações membros a usarem e apoiarem o uso de fontes de energia renováveis, o que esteve de acordo com outra questão aprovada pela assembleia: opor-se ao fraturamento hidráulico em busca de petróleo e gás natural. As religiosas também pediram o fim da remoção de minérios de carvão do topo de montanhas.

As participantes igualmente aprovaram uma resolução que pede que o Papa Francisco repudie a Doutrina da Descoberta – uma política do século XV que justificava a violência contra os povos indígenas.

Morrill disse que isto, também, está em contrariedade com aquilo que os líderes eclesiásticos pensam.

“Sabe-se bem das preocupações quase que exclusivas dos bispos americanos sobre a ‘liberdade religiosa’ no país, além da questão do aborto, de métodos contraceptivos e de manter vivos os doentes terminais o maior tempo possível via novas tecnologias”, disse. “Aparentemente, isso apenas irá aumentar a tensão junto dos bispos”.

Morrill disse que a LCWR está definindo a sua própria agenda, segundo suas próprias crenças.

“De novo, na visão dos bispos, eles são os que, na cadeia hierárquica, definem a agenda; as irmãs deveriam recebê-la e, em seguida, apoiá-la com vigor e publicamente”, falou Morril. “A perspectiva presente na nota da LCWR, pelo contrário, é aquela em que elas se sentam junto de Dom J. Peter Satain para um debate a partir do qual ele poderia receber alguma sabedoria também”.

Johnson, em sua fala após aceitar o prêmio da LCWR, também disse que as autoridades eclesiásticas precisam trabalhar junto às religiosas, em vez de apenas lhes dar ordens.

“Seria uma bênção para a Igreja se [Müller] pudesse encontrar uma forma criativa de dar um fim a esta investigação de maneira produtiva”, falou. “Quando as necessidades deste mundo sofrido são tão grandes; quando a autoridade moral da hierarquia está tendo hemorragia devido aos escândalos financeiros e aos muitos abandonos horríveis dos bispos para com os deveres no acobertamento dos abusos sexuais de crianças, um acobertamento que continua em alguns locais ainda hoje; quando milhares estão se retirando da Igreja; quando o evangelho libertador da bondade imensa de Deus precisa ser ouvido e praticado em todos os lugares, a perda de tempo e energia envolvida nesta investigação é inconcebível. Não seria ótimo se pudéssemos ser parceiros, em vez de adversários, pelo bem da Igreja e do mundo?”

Na fala presidencial, parte central de todas as assembleias porque define o palco para o resto do encontro em grande parte, a Irmã Carol Zinn (da congregação de São José e presidente da LCWR), disse que a música no coração de Deus pede para servirmos a nossos irmãos e irmãs, em especial os pobres e marginalizados.

“Estamos cantando bem alto os caminhos em que a criação divina e o corpo de Cristo clamam por justiça, inclusão e compaixão?”, perguntou-se.

“É provável que estejamos apenas sussurrando aquela abertura de dentro e além do mundo natural às relações mais significativas e sagradas, independentemente de raça, gênero, orientação sexual, status econômico ou sistema de crenças”.

A Irmã Joan Mumaw, do Imaculado Coração de Maria, disse que as falas das irmãs Zinn e Schreck estiveram entre os destaques da assembleia. Falou que a deixaram animada e esperançosa. “Acho que estamos unidas como religiosas”, disse, “e penso que isso seja inspirador”.

A Irmã Kathleen Phelan, dominicana de Sinsinawa, falou que a assembleia, como um todo, aproximou ainda mais as irmãs.

“Para mim, o mais animador foi estar com minhas irmãs”, disse Phelan. “O sentimento de que estamos num mesmo ministério, que possuímos um profundo amor uma pelas outras... é a música, é a energia de estarmos entre irmãs”.

Carey disse que a insistência da LCWR em continuar sendo assim acontece por sua própria conta e risco.

“A LCWR tem três escolhas: ela pode implementar a reforma exigida pela Santa Sé e continuar sendo uma conferência canônica de superioras gerais; ela pode seguir o seu próprio caminho como uma organização profissional sem qualquer status canônico; ou pode se dissolver”, falou Carey.

“A LCWR parece estar procurando uma quarta opção que a permitiria se manter com o status canônico enquanto segue o seu próprio caminho relativo às questões doutrinais. O tempo necessário para encontrarem esta quarta opção pode se acabar, no entanto, pois a reforma deve estar completada até abril de 2017”.

Carey acrescentou que o teste verdadeiro para o caminho da LCWR virá em breve.
“Penso que teremos melhores condições de saber o que irá acontecer quando chegar o momento de a LCWR escolher os futuros palestrantes: elas irão defini-los ao lado de Sartain ou não?”

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