James Foley é um mártir? Morte brutal provoca debate de fé

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28 Agosto 2014

A partir do momento da divulgação da notícia de que o jornalista americano James Foley (foto) tinha sido decapitado por extremistas do Estado islâmico no Oriente Médio, muitos cristãos, especialmente outros católicos como Foley, começaram a chamá-lo de mártir, alguns até mesmo dizendo que ele deveria ser considerado um santo.

A reportagem é de David Gibson, publicada no sítio do Religion News Service, 26-08-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.foley

No entanto, essa caracterização deixou outros inquietos, e a discussão está levantando questões mais abrangentes sobre o que constitui o martírio.

Os pais de Foley parecem validar o rótulo de martírio quando seu pai, John, falou em uma emotiva coletiva de imprensa do lado de fora da casa da família em New Hampshire que ele e sua esposa "acreditam que ele foi um mártir". A mãe de Foley, Diane, acrescentou que seu filho "nos faz lembrar de Jesus. Jesus era a bondade, o amor - Jim foi se tornando mais e mais isso".

Dois dias depois, em uma entrevista com Katie Couric, o irmão mais novo de Foley, Michael, contou que o Papa Francisco tinha telefonado para a família para consolá-los e em sua conversa "referiu-se ao ato de Jim como, realmente, um martírio".

Inúmeros comentaristas já tinham pego essa idéia, considerando Foley não apenas como um testemunho da fé cristã, mas também como um incentivo para os crentes no Ocidente a levar mais a sério a situação dos cristãos no Iraque e em outros lugares no Oriente Médio que estão sendo perseguidos em um grau, que alguns dizem, comparável a um genocídio.

Mas na Igreja Católica, determinar se alguém é um mártir não é tão fácil. Historicamente, duas condições devem ser satisfeitas.

Em primeiro lugar, mesmo se os mártires não tenham sido cristãos santos e piedosos ao longo de suas vidas, deve haver evidência de que eles foram fiéis à sua fé em seus momentos finais, e que esse testemunho pode servir de exemplo para os outros.

Foley certamente parecia obter consolo de sua fé ainda que sob coação.

Em um artigo de 2011 que ele escreveu para a revista dos ex-alunos da Marquette University, sua alma mater jesuíta, Foley falou com emoção de sua crença na oração, e especialmente de recorrer ao terço para sustentá-lo quando estava preso na Líbia no início daquele ano, enquanto fazia a cobertura da queda de Muamar Kadafi.

Esse também foi o coração da mensagem que Foley conseguiu enviar de seu cativeiro nas mãos do Estado Islâmico; após o episódio na Líbia, Foley, que era um fotojornalista, foi cobrir a guerra civil na Síria e lá foi sequestrado no dia de Ação de Graças em 2012. Ele ficou detido com outros 17 prisioneiros e pediu a um preso, seu companheiro, que mais tarde foi libertado, memorizar uma carta na qual falava de como a oração e a fé estavam mantendo-o próximo de sua família.

"Sinto a presença de todos vocês, especialmente quando eu rezo", disse Foley. "Eu rezo para que vocês possam ser fortes e acreditar. Quando eu rezo, realmente sinto que posso tocá-los, mesmo nessa escuridão".

O segundo fator para determinar se alguém é um mártir é que essa pessoa deve ser morta explicitamente pelo fato de ser cristã, ou "in odium fidei," por ódio à fé. É aí que os argumentos de martírio ficam complicados e confusos.

Por exemplo, o arcebispo salvadorenho Oscar Romero, que viveu sob ameaça constante por sua defesa em favor dos pobres e dos direitos humanos, foi imediatamente saudado como um mártir em 1980, quando foi assassinado por forças paramilitares enquanto celebrava a missa.

Mas, sob os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, a causa de canonização de Romero foi repetidamente bloqueada porque os conservadores no Vaticano argumentavam que Romero tinha se tornado um ícone da teologia da libertação e foi morto por razões políticas, e não religiosas.

Somente este mês, na verdade, o Papa Francisco - que há muito reverencia Romero - anunciou que o processo de canonização do arcebispo tinha sido "desbloqueado".

Francisco também indicou que ele queria que a Igreja considere como mártires aqueles que são mortos "por realizar as obras que Jesus nos manda fazer para com o nosso próximo", assim como aqueles que são mortos por professar o credo. Se isso acontecer, isso poderia marcar uma mudança significativa na compreensão do martírio por parte da Igreja.

No entanto, alguns também temem que Foley esteja sendo promovido a mártir em parte porque ele pode servir como um grito de guerra cristã contra o extremismo islâmico, ou como uma forma de criar uma dinâmica para uma intervenção ocidental mais forte no Iraque.

Portanto, no final das contas, a questão se resume em analisar a lógica dos assassinos de Foley: será que eles o mataram porque ele era um cristão ou porque ele era um norte-americano? Será que eles o mataram porque ele não iria se converter, ou eles o mataram para provocar o Ocidente? Ele foi um mártir da fé, ou, como o pai de Foley acrescentou, "um mártir pela liberdade"?

Saberemos algum dia? Deveríamos tentar saber?

"Seria banal entrar em uma ficção especulativa que afirma que James Foley estava rezando durante o que agora são seus famosos últimos momentos na Terra", escreveu Alana Massey em uma coluna no sítio Religion Dispaches onde tratou a questão da imediata canonização de Foley.

Massey disse que achou "desagradável" ler outros descreverem Foley como um mártir "não só porque ele foi morto explicitamente por causa de sua nacionalidade e não por causa de sua religião, mas também porque a perspectiva de ver o inferno do campo de batalha do ISIS [Estado Islâmico] se tornar um destino para o martírio competitivo não faz bem a ninguém".

Muitos outros parecem discordar desse ponto de vista e acham que, mesmo com os riscos de chamar Foley um mártir, ao final, ele se qualifica como um - e, sendo assim, sua morte, e vida, apontam para um exemplo moderno de martírio que tocou milhões de pessoas.

"Nós não queremos diminuir o significado da palavra 'mártir'", escreveu a blogueira católica Pia de Solenni em uma meditação detalhada sobre a morte de Foley. "Mas isso é real. Está acontecendo em todos os lugares. Está transformando pessoas comuns em testemunhos extraordinários. Nós não devemos diminuir o seu testemunho ao ignorar a realidade do seu sacrifício, o seu martírio".

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