Grupo espera que Francisco fale sobre abolição de armas nucleares ao Congresso americano

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04 Setembro 2015

Ira Helfand espera que o Papa Francisco peça pela abolição das armas nucleares quando discursar ao Congresso dos EUA em setembro, e Helfand tem motivos para manter um otimismo cauteloso.

A reportagem é de Thomas C. Fox, publicada por National Catholic Reporter, 28-08-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Helfand, médico da cidade de Springfield, Massachussets, é um dos presidentes da Associação Internacional de Médicos para a Prevenção da Guerra Nuclear. O grupo recebeu o prêmio Nobel da Paz em 1985 “por difundir informações fidedignas e conscientizar as pessoas quanto às consequências catastróficas de uma guerra nuclear”.

Helfand trabalhou durante anos na conscientização sobre o impacto humanitário devastador de uma guerra nuclear. Neste contexto, ele e John Pastore, cardiologista de Boston, se sentaram, em junho passado, com o Cardeal Sean O’Malley, também de Boston, para compartilhar detalhes de estudos recentes que mostram que mesmo uma troca nuclear limitada levaria à fome de cerca de 2 bilhões de pessoas. De longe, o maior impacto de uma tal troca nuclear recairia sobre as regiões mais pobres do planeta.

Helfand e Pastore disseram que O’Malley, emocionado pelos resultados a ele apresentados, afirmou que iria partilhar passar tais informações com o Papa Francisco, com quem ele iria se reunir, em Roma, três dias depois.

Pastore, católico que dedicou toda a sua vida a conscientizar o público para a eliminação das armas nucleares, explicou: “Estamos procurando reintroduzir considerações morais nos debates sobre o armamento nuclear. Este assunto é quase sempre visto como um desafio estritamente militar ou técnico. Porém, as armas nucleares possuem dimensões morais enormes. Nós sabemos disso e o Papa Francisco também sabe”.

Pastore reconhece que Francisco fez das desigualdades econômicas e das mudanças climáticas duas de suas principais preocupações em torno da justiça social. “As armas nucleares têm a ver com ambas as coisas”, disse ele.

Embora a Associação Internacional de Médicos para a Prevenção da Guerra Nuclear – federação não partidária de grupos médicos nacionais presente em 63 países – tenha há muito tentado chamar a atenção para os impactos humanitários de uma guerra nuclear, foi somente em 2012 e 2013 que novos estudos climáticos mostraram que mesmo uma troca nuclear limitada, tal como uma envolvendo 100 dispositivos relativamente pequenos entre a Índia e o Paquistão, teria enormes consequências climáticas. Helfand pegou as conclusões destes estudos e elaborou um relatório, o qual foi difundido pelo mundo afora. Este relatório se chama Fome Nuclear (“Nuclear Famine”, no original).

O texto do documento conta com vários estudos conduzidos pelos cientistas especialistas em atmosfera Alan Robock (da Universidade de Rutgers), Brian Toon (da Universidade do Colorado-Boulder) e Richard Turco (da Universidade da Califórnia, Los Angeles). Eles descobriram que, se a Índia e o Paquistão trocarem cinquenta bombas de 15 quilotons – uma pequena fração do tamanho das ogivas existentes nos arsenais russos e americanos –, criar-se-iam imensas tempestades de fogo que rapidamente envolveriam o planeta com camadas de fumaça estratosférica densa.

Essa fumaça negra continuaria a circular a Terra e permaneceria na estratosfera por uma década ou mais. Ela bloquearia e evitaria que uma grande fração da luz solar alcançasse a superfície da terra. Esta redução acentuada do aquecimento solar iria encurtar safras agrícolas que reduziriam as culturas alimentares, causando, por sua vez, a fome de até 2 bilhões de pessoas, principalmente de regiões que vivem nos países mais pobres.

“O relatório sublinha a necessidade urgente de nos movermos, com toda a velocidade possível, em direção à negociação de um acordo global para proibir e eliminar as armas nucleares e o perigo de uma guerra nuclear”, disse Helfand ao National Catholic Reporter.

Helfand discursou, em dezembro de 2014 em Roma, na Cúpula Mundial de Prêmios Nobel da Paz. Sentado no palco, ao lado do Dalai Lama e outros laureados, Helfand chamou de “catastróficas” as consequências de uma troca nuclear ainda que limitada.

Qualquer troca nuclear envolvendo os principais países que possuem armamentos nucleares, disse ele aos demais laureados, faria com que as temperaturas ao redor do mundo despencassem.

“Não haveria um dia livre de gelo no hemisfério norte”, disse ele. “Estas condições não existem no planeta há 18 mil anos. A produção de alimentos iria parar, e a grande maioria da raça humana morreria de fome. É possível que acabaríamos nos extinguindo como espécie. Não estamos diante de um pesadelo que eu inventei. Trata-se de um perigo que enfrentamos diariamente, posto que estas armas continuam a existir presente em mísseis que podem ser lançados em alguns poucos minutos”.

Ao descrever o impacto de uma troca nuclear limitada, Helfand disse ao National Catholic Reporter: “Não seria o fim da espécie humana, mas o fim da civilização como a conhecemos. Nenhuma civilização resiste a um choque desta magnitude”.

Ele também falou de suas frustrações em despertar os líderes dos EUA para com questões prementes que giram em torno de uma guerra nuclear. Afirmou que o relatório “Fome Nuclear” tem visto praticamente um “apagão” por parte dos meios de comunicação.

“Se a imprensa fala sobre armas nucleares, ela o faz somente no contexto do Irã e da Coreia do Norte. Acho que isso é um enorme desrespeito ao público”.

“O Cardeal O’Malley pareceu muito preocupado”, disse Helfand. “Este religioso disse que iria voltar a Roma três dias depois, e que partilharia imediatamente estas informações com o Papa Francisco”.

É por isso que Helfand e Pastore estão com a esperança de que Francisco diga algo sobre armas nucleares nos dias em que estiver nos Estados Unidos em setembro.

Helfand, Pastore e Robock falaram ao National Catholic Reporter que Francisco pode representar uma diferença decisiva no sentido de despertar o público americano para os perigos nucleares.

Helfand reconhece que os tratados internacionais reduziram o número de armas nucleares nos arsenais mundiais para cerca de 16 mil ogivas. Ao invés de estar seguro com esta redução, ele expressa a preocupação de que os esforços pelo desarmamento tenham sido paralisados e que os países que possuem armas nucleares estejam avançando na direção de modernizar as suas armas e seus sistemas de lançamento.

“Isso não faz sentido”, disse ele. “Estas armas jamais podem ser utilizadas. Usá-las significaria uma autodestruição certeira”.

Robock, professor no Departamento de Ciências Ambientais, disse ao National Catholic Reporter que a sua pesquisa reafirmou a crença que ele tinha de que as armas nucleares representam a “maior e mais imediata ameaça à humanidade”.

“Na medida em que temos essas armas, elas podem ser usadas por um alguém irracional, por algum terrorista, por um erro de cálculo, ou ainda por acidente”, disse ele. “A ameaça é real. Somente abolindo-as podemos nos livrar dessa ameaça”.

Há tempos o Vaticano se opõe ao armamento nuclear, porém Francisco fez de sua abolição um elemento-chave em entre as preocupações sociais globais de seu pontificado.

Em dezembro de 2014, o Vaticano submeteu um texto a um congresso em Viena em que pedia pelo desarmamento nuclear total.

Em janeiro, dirigindo-se ao corpo diplomático do Vaticano, Francisco falou que o desarmamento nuclear e a luta contra as mudanças climáticas estão no topo de sua agenda diplomática. Ele tem rezado para que o acordo em torno das armas nucleares iranianas constitua um “passo definitivo em direção a um mundo mais seguro e fraterno”.

Em agosto, falando na Praça de São Pedro, Francisco recordou os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, ocorridos há 70 anos. Disse que esses eventos ainda despertam “horror e repulsa” em todo o mundo, acrescentando que eles servem como um “aviso duradouro para que a humanidade rejeite, para sempre, a guerra e proíba as armas nucleares”.

Pastore classificou a presença do Papa Francisco diante do Congresso americano, no dia 24 de setembro próximo, como uma “grande oportunidade”, dizendo que o pontífice pode conduzir a questão das armas nucleares tirando-a do nível de um argumento “meramente acadêmico” e colocando-a no nível da “preocupação moral imediata e premente. Quando os católicos nas paróquias e os demais despertarem para este problema, daí então poderemos ver uma mudança de rumo nas políticas públicas”.

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