Lutero, o arauto da liberdade? Artigo de Andrea Sarri

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31 Outubro 2017

“Seria errado inserir Lutero entre os promotores da plena autonomia individual: no século XVI, esta era defendida por ‘poucos e corajosos indivíduos’, perseguidos tanto pelos católicos, quanto pelos protestantes.”

O comentário é do historiador italiano Andrea Sarri, publicado por Trentino, 30-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Na noite de 31 de outubro de 1517, véspera de Todos os Santos, Martinho Lutero provavelmente não afixou com martelo e pregos as suas 95 Teses teológicas na porta da igreja do Castelo de Wittenberg: as fontes da época não falam disso.

No entanto, a escolha do monge agostiniano alemão, que há exatamente 500 anos, começou a expor o seu pensamento em uma carta privada ao príncipe bispo Alberto de Brandenburgo, foi radical e marcou uma ruptura irreversível entre a idade que chamamos de medieval e aquela que costumamos chamar de moderna.

A radicalidade da sua decisão está ligada, em primeiro lugar, à data: de fato, no dia 1º de novembro, como relata o historiador Adriano Prosperi no seu recente livro Lutero. Gli anni della fede e della libertà (Ed. Mondadori), “multidões de peregrinos teriam se acotovelado em Wittenberg para visitar as famosas relíquias de Frederico, o Sábio”, príncipe da Saxônia. O culto das relíquias dos santos, junto com o sistema das indulgências, estava na base das práticas de piedade da Igreja, codificadas pelo papado nos séculos medievais.

De que se tratava? Na época, a vida dos cristãos era marcada pela angústia do pecado, como o historiador francês Jean-Delumeau mostrou magistralmente anos atrás. O maior terror, que dizia respeito também ao próprio Lutero, era o de morrer repentinamente, sem ter confessado as próprias culpas ao sacerdote. Então, saber que, graças a uma decisão do papa, seria possível obter a indulgência (o perdão) dos pecados e das penas para si e para os falecidos no Purgatório, talvez fazendo uma boa obra sob a forma de esmola ou de oferta em dinheiro a uma igreja, era motivo de grande conforto para a espiritualidade dos cristãos.

Porém, o problema, segundo Lutero, era que o papado, ao longo do tempo, tinha se apropriado de uma tarefa que não lhe cabia. Na opinião de Lutero, fortemente influenciado pelo pessimismo de Santo Agostinho sobre a natureza humana corrompida pelo pecado original, não é possível conceber o alcance da salvação eterna através de “boas obras”. Só com a fé, estudando a palavra bíblica sem qualquer mediação eclesiástica e, enfim, encontrando refúgio “sob os braços de Cristo abertos na cruz, como os pintinhos sob as asas da galinha” – assim dissera ele em uma pregação de 1515 – os cristãos podem, de fato, encontrar a salvação.

Mas como um pensamento dessa natureza, do qual hoje custamos a compreender a complexidade, poder ter marcado irreversivelmente a história moderna e contemporânea? Talvez a “modernidade” de Lutero, em tantos aspectos ainda profundamente medieval, esteja no valor atribuído à consciência.

Excomungado pelo Papa Leão X entre 1520 e 1521, ele apareceu depois na Dieta Imperial de Worms: aqui, ele se recusou a se retratar, argumentando que “não é justo nem salutar ir contra a consciência”. Ora, o risco de transformar Lutero em um arauto da liberdade em sentido laico existe. Indubitavelmente, Lutero, como nos lembra Guido Dall’Olio no seu Martin Lutero (Ed. Carocci, 2017), “libertou a consciência das leis do papa e do direito canônico”, mas continuou pensando que ela só encontrava legitimação a partir da fé cristã. Em suma, seria errado inserir Lutero entre os promotores da plena autonomia individual: no século XVI, esta era defendida por “poucos e corajosos indivíduos”, perseguidos tanto pelos católicos, quanto pelos protestantes.

O fato é que as controvérsias teológicas tornaram-se duras e desembocaram também em cruéis guerras religiosas. A própria figura de Lutero, por muito tempo, foi desacreditada: ainda no início do século XX, um culto jesuíta alemão, Hartmann Grisar, conectava a doutrina de Lutero à sua “alma doente” e ao seu “caráter anormal”.

A partir do Concílio Vaticano II (1962-1965), as relações entre católicos e protestantes começaram a se dirigir ao respeito recíproco. E o primeiro papa jesuíta, abrindo, em março passado, o congresso do Pontifício Comitê de Ciências Históricas, encorajou os estudos científicos sobre a Reforma. “O estudo atento e rigoroso, livre de preconceitos e polêmicas ideológicas”, disse o Papa Francisco, “permite que as Igrejas discirnam e assumam aquilo que houve de positivo e legítimo na Reforma e distanciem-se de erros, exageros e falhas, reconhecendo os pecados que levaram à divisão”.

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