Em novo disco, Caetano Veloso nos resgata da melancolia e nos lembra da potênca da alegria como resistência. Entrevista especial com Pedro Bustamante Teixeira

Para o professor, “Meu Coco reafirma a importância de Caetano no Brasil e no Mundo” e por isso o álbum vem recebendo elogios no país e no exterior

Foto: Divulgação

Por: João Vitor Santos | 04 Novembro 2021

 

Não é de hoje que Caetano Veloso faz de sua obra um manifesto. Mas, ainda assim, em meio a um Brasil e um mundo melancólicos e inebriados por crises, ele ainda surpreende ao cantar a plenos pulmões: “Não vou deixar / Não vou, não vou deixar você esculachar / Com a nossa história...”. O trecho é da canção “Não Vou Deixar”, de seu novo álbum, Meu Coco. Para o professor Pedro Bustamante Teixeira, o disco prova que o velho Caetano ainda está vivíssimo. “E traz consigo uma legião que ainda afirma um mito Brasil, uma MPB, e a originalidade de um pensamento que se dá para além dos cem por cento negros ou brancos, tão presentes nas sociedades que, diferentemente do Brasil, viveram sob o signo do Apartheid”, analisa.

 

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Pedro mergulha na obra de uma vida de Caetano e situa Meu Coco num momento de extrema conexão do artista não só com sua história, mas com o momento que vivemos. Momento esse que é, especialmente de um “Brasil esse que vai muito além da política de Bolsonaro e da ressurgência fascistóide da extrema direita, e que configura um arco extenso”. Isso faz com que a crítica política avance e pense outras saídas, como provoca Caetano ao dizer que “somos todos chineses”. “Há de se lembrar que Caetano, nos anos sessenta, reagia à utopia das esquerdas do Brasil, também por não conseguir vislumbrar um paralelo possível entre o povo brasileiro e o povo chinês que, desde a revolução maoísta, tornava-se um modelo desejável por uma parte das esquerdas brasileiras”, lembra Pedro.

 

Ao mesmo tempo, Caetano não perde a concretude da dureza de um governo que destrói e destitui os poucos avanços conquistados em anos. “Todo o disco é um manifesto contra o Brasil de Bolsonaro. A simples presença de Caetano já o é. Cantando e compondo, o é ainda muito mais”, resume Pedro. O que também não quer dizer que sua crítica seja apenas mais um grito de “Fora Bolsonaro”. “Caetano segue firme, mesmo com a ascensão da extrema direita e de um Bolsonaro, na utopia de que o Brasil tem a missão de refazer o mundo para torná-lo mais humano, mais ritmado, mais biodiversificado”, acrescenta.

 

No entanto, não pense que esse é um disco pesado e cheio de dor, retratando os nossos tempos. Pelo contrário, Caetano canta a alegria e faz dela o melhor caminho para a superação das crises. Como bem pontua Pedro: “a maior derrota, portanto, seria a sujeição à tristeza e à melancolia. Caetano nos ajuda agora a reafirmar a nossa potência alegre para enfrentar os fascismos, a pulsão de morte, o horror”.

 

Pedro Bustamante Teixeira (Foto: Reprodução Facebook)

 

Pedro Bustamante Teixeira é graduado em Língua Portuguesa e Língua Italiana e suas respectivas literaturas pela Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, instituição na qual é professor e pela qual também obteve os títulos de especialista em Estudos Literários, mestre e doutor em Letras: Estudos Literários. Entre suas publicações destacam-se Do samba à Bossa Nova: inventando um país (Curitiba: Appris, 2015), tema de sua pesquisa de mestrado, depois o livro Transcaetano: Trilogia Cê mais Recanto (São Paulo: Fonte Editorial, 2017) e, ainda, Sonhe com os sonhos ou o ano em que tive 18 anos (Rio de Janeiro: Animula Vagula Blandula, 2000). Parceriro do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, ministrou o curso livre TransCaetanos – tempo, tempo, tempo, tempo.

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Confira a entrevista.

 

IHU – Como você define o álbum Meu Coco, recém lançado por Caetano Veloso? Em termos de melodias e arranjos, o que o disco apresenta?

Pedro Bustamante Teixeira – Em relação à melodia, não há nada que Caetano já não tivesse experimentado, no entanto, desenvolve-se aquilo que se experimentara outrora tentando-se ir um pouco mais além. Já em relação aos arranjos, tem-se uma seleção de arranjadores que passaram pela história recente de Caetano Veloso, como Jacques Morelembaun, que assina e rege os arranjos de cordas sofisticados de “Ciclâmen do Líbano”, de “Cobre” e de “Noite de Cristal”, o já saudoso Letieres Leite, que assina e rege o arranjo de sopros contagiante de “Pardo”, e a condução marcante de Pedro Sá, líder da Banda Cê, que toca guitarra e baixo em “Anjos Tronchos”. A grande novidade é a inclusão do genial Thiago Amud, que assina o arranjo de sopro da faixa-título que abre o disco.

 

 

Por detrás de tudo isso, há a presença primeira e essencial de Lucas Nunes – contemporâneo e parceiro de Tom Veloso, caçula de Caetano, na banda Dônica –, de uma geração ainda mais jovem que a da Banda Cê, que assina com Caetano a produção musical do disco.

 

 

Em suma, o que se ouve em Meu Coco é a reunião de muitas das faces do artista, inclusive, das mais recentes expostas na “Trilogia Cê”, em Ofertório, e na gravação de “Hey Jude”, presente no filme “Narciso em Férias”, primeira colaboração de Lucas Nunes com Caetano; e um prosseguimento das experiências com os mais variados estilos musicais.

 

 

IHU – O que esse álbum representa na vida e na carreira de Caetano?

Pedro Bustamante Teixeira – Lançado nove anos depois de Abraçaço, álbum que encerra a “Trilogia Cê”, até então seu último discos de inéditas, Meu Coco reafirma a importância de Caetano no Brasil e no Mundo. Não por acaso, o álbum vem ganhando resenhas elogiosas no Brasil e no exterior. Se, com a “Trilogia Cê”, Caetano abandonava a sua condição monumental para, menor, recuperar um chão, um lugar, sua presença na cidade entre os jovens do Rio de Janeiro e, consequentemente, do país, com Meu Coco, o artista vai muito além da Guanabara para mais uma vez, imperialista, tentar refazer o mundo através de um Brasil contemporâneo que se apresenta sobretudo em suas mais diversas manifestações musicais.

Brasil esse que vai muito além da política de Bolsonaro e da ressurgência fascistóide da extrema direita, e que configura um arco extenso que vai de Thiago Amud à Marilia Mendonça, passando por Duda Beat, Baco Exu do Blues, Gabriel do Borel e tantos outros, sem sair do tom e sem se esquecer, graças a Pretinho da Serrinha, do samba.

 

 

IHU – Como analisa a “presença” de João Gilberto no disco? Que mensagem apreende da afirmativa “somos chineses”?

Pedro Bustamante Teixeira – Em sua primeira declaração pública após a morte de João Gilberto, uma jornalista argentina, se não me engano, perguntou a Caetano se ele teria sido uma inspiração para a sua carreira. Ainda muito emocionado, Caetano reagiu à pergunta dizendo que João Gilberto foi muito mais que uma inspiração, ele teria sido uma iluminação.

De fato, de Domingo, seu primeiro disco, lançado em 1967 com a sua parceira Gal Costa, a Abraçaço, que se inicia com a canção “A bossa nova é foda”, a presença de João Gilberto é facilmente palpável. Agora, em seu primeiro discos de inéditas após a passagem de seu mestre-mor, essa presença não poderia ser mais pungente. João Gilberto está presente da primeira à última faixa do disco, na reafirmação da alegria, do Brasil, do samba e da importância do Brasil para salvar o mundo contemporâneo do presente distópico que se apresenta.

 

 

Somos todos chineses

 

Em relação à enigmática proposição que Caetano teria escutado de João Gilberto, talvez possamos cruzá-la com as histórias das navegações chinesas que, muito antes das navegações que conquistaram o Novo Mundo a partir da península ibérica, contavam com embarcações muito maiores e mais capazes que as dos Portugueses ou dos Espanhóis, e que poderiam ter aportado na América muito antes deles.

Todavia, a proposição permanece no coco de Caetano justamente pelo seu caráter enigmático. Há de se lembrar que Caetano, nos anos sessenta, reagia à utopia das esquerdas do Brasil também por não conseguir vislumbrar um paralelo possível entre o povo brasileiro e o povo chinês que, desde a revolução maoísta, tornava-se um modelo desejável por uma parte das esquerdas brasileiras.

 

 

IHU – Que leituras do mundo e da cultura brasileira Meu Coco traz?

Pedro Bustamante Teixeira – Caetano segue firme, mesmo com a ascensão da extrema direita e de um Bolsonaro, na utopia de que o Brasil tem a missão de refazer o mundo para torná-lo mais humano, mais ritmado, mais biodiversificado, mais híbrido: melhor e maior na conjunção de todas as culturas, a partir de uma nova e negra Roma: Salvador; na assunção de todas as diásporas, na paz quente contra a Guerra Fria, no retorno do Índio, da Índia, filha do sol, da ascensão da Musa Híbrida do disco e dos milhares de musos híbridos recém nascidos no Brasil chamados de Enzo Gabriel, que surpreendentemente, foi o nome com maior número de registros no Brasil nos anos de 2018 e 2019.

O mundo humano que já foi África, Arábia, Grécia, Roma, Europa, Estados Unidos, e que parece que caminha para ser Chinês, ainda há – na visão de Caetano, que se constrói a partir do triunfo insofismável do samba no mundo com a bossa nova – de ser Brasil. Caetano diz que faz, muitas vezes, papel de ridículo ao insistir nisso, no entanto, desistir desse sonho significaria a própria morte deste autor que, como ele mesmo diz em uma outra canção, “Zera a Reza”, do disco Noites do Norte: “não morre nunca”.

Como Caetano cantou em “Um Comunista”, canção escrita em homenagem ao líder Marighella, em um verso que era aplaudido espontaneamente pelos jovens frequentadores do Circo Voador, na Lapa: “Vida sem utopia, não entendo que exista”. Assim, se Caetano está vivo, e a sua voz e seu corpo ainda lhe permitem, mesmo aos 79 anos, cantar bonito e muito bem, e seu coco ainda é o mesmo: aquele sonho ainda tem cor.

 

 

IHU – A faixa “Não Vou Deixar” tem sido tomada como principal manifesto contra os desmontes do governo de Jair Bolsonaro. Você concorda? Que leitura faz dessa canção para além do “Fora Bolsonaro”?

Pedro Bustamante Teixeira – Todo o disco é um manifesto contra o Brasil de Bolsonaro. A simples presença de Caetano já o é. Cantando e compondo, o é ainda muito mais. Caetano apresenta no disco um outro Brasil que, apesar de não deter o poder político agora, é muito mais potente, na real acepção da palavra, plural e maior do que o de Bolsonaro, de suas madames e de seus ridículos marmanjos.

 

 

Quando a seleção Brasileira perdeu de 7 a 1 para Alemanha em casa, na Copa de 2014, no primeiro mandato de Dilma, após dois mandatos de Lula, Caetano nos deu a mais interessante interpretação do ocorrido quando dissera que a goleada nos serviu para nos lembrar que era muito cedo para comemorar. Com a iminência da vitória de um pária assumido em eleições diretas, Caetano mais uma vez diagnosticava a questão como uma neurose da qual o Brasil só poderia se libertar se a colocasse para fora, abrindo-se enfim essa caixa de pandora. Mas, ainda assim, o triunfo do mal não se daria por completo porque ele, e ele aqui representa toda uma outra nação não representada no atual governo, não permitiria que o Brasil se rebaixe a essa reles condição.

Ouço, nessa canção, a reafirmação do canto como agente de transformação, tal qual é compreendida em Odara, em que num crescente: primeiro se dança, transformando primeiro a cara, depois a cuca, para depois, enfim, cantar e transformar o mundo, tornado-o Odara. No funk-maculelê “Não vou deixar”, mais uma vez se afirma a importância desse canto que é precedido pelo envolvimento corpóreo através da dança e que vira o jogo contra o fascismo que quer regular mentes e corpos em sua pulsão de morte.

 

 

Século da Canção

 

Por fim, é importante lembrar que Caetano Veloso, aquele que, segundo Tatit, foi capaz de trazer consigo todas as dicções do “Século da Canção” no Brasil, vem há tempos tentando incorporar em seu diccionário o Funk Carioca. Essa história se inicia quando cita, nos shows de Noites do Norte, o funk “Um tapinha não dói”, e prossegue com o achado “Miami-Maculelê”, presente no disco Recanto, da Gal Costa, e que se observa ainda em “Funk Melódico”, no disco Abraçaço, e em “Alexandrino”, de Ofertório.

Todas essas tentativas trazem alguns achados, mas não são totalmente exitosas. Lembro-me que, logo após essa inserção de “Um tapinha não dói” num de seus shows, a saudosa pesquisadora Santuza Cambraia Naves dizia à Hermano Vianna, numa conversa publicada em livro lançado pela editora da UFMG, que Caetano trazia para o seu universo o funk carioca, mas sem se comprometer tanto com o gênero, já que gravava um sucesso, ainda que fosse de outra galera, de um outro compositor, repetindo o que já fizera nos tempos da Tropicália, ao gravar “Coração Materno”, de Vicente Celestino, ou quando gravava Peninha e outros compositores tidos como bregas.

Em sua resposta, Hermano Vianna, autor de um livro pioneiro sobre o Funk Carioca, quebrando as expectativas da pesquisadora, disse que Caetano ainda não tinha se comprometido totalmente com o gênero a ponto de compor um Funk, porque ele ainda não estaria pronto para isso. O que pudemos acompanhar desde então foi esse percurso para a incorporação dessa dicção ainda ausente em sua “máquina performática”, e que se realiza plenamente em “Não vou deixar”. Não por acaso, nas últimas declarações sobre o novo disco, Caetano tem dito que essa já é a sua preferida.

 

IHU – Ao lançar o disco, o artista também fez um manifesto em carta aberta e nas entrevistas sobre o álbum e tem falado sobre a esquerda, Lula e sua preferência por Ciro Gomes. O que a carta e essas posições revelam sobre a faceta política de Caetano?

Pedro Bustamante Teixeira – Acho que a premissa dessa questão não se confirma, já que Caetano tem condenado o posicionamento de Ciro diante de Lula, considerando-o deveras desrespeitoso com uma figura muito importante para o Brasil, e por já se declarar favorável à candidatura de Lula em 2022.

 

IHU – Apesar de visto como um álbum-manifesto, para muitos inclusive político, Meu Coco traz também três canções românticas (Ciclâmen do Líbano, Pardo e Cobre). Como as analisa?

Pedro Bustamante Teixeira – Meu coco é um álbum-manifesto, político-existencial, inclusive, e não menos, nessas canções mais românticas. Ciclâmen do Líbano é um achado de beleza ímpar que me faz lembrar “Um sonho”, do disco , e que tem um tempero árabe que confere ainda mais força à canção.

 

 

O pretume sensual e homoerótico de “Pardo” faz do amor um ato libertário, e é talvez a primeira canção a ressaltar explicitamente o orgulho de ser “pardo” e, portanto, é também um ato político. Há de se lembrar que as políticas afirmativas que tentam dirimir injustiças históricas tendem a contemplar negros e pardos e que, apesar de o número de negros autodeclarados começar a aumentar no Brasil, o de pardos ainda titubeia diante da indefinição do termo e do peso enorme do preconceito racial no Brasil.

 

 

Cobre mais uma vez insiste em nosso hibridismo, algo entre o branco, o vermelho e o preto, nem um nem outro, sendo um e outro junto, e também não faz por menos ao ressaltar a nobreza dos tons dessa tez. E ainda traz esses versos que só a “mansidão” da alta maturidade é capaz de conformar: “Ter te visto tão de perto/ E talvez voltar a ver/ Prova que está tudo certo/ Vale ter vivido/ Vale estar vivendo aqui/ Vale viver”.

 

 

IHU – Uma outra novidade desse álbum é que foi lançado em diversas plataformas digitais, acessível gratuitamente a muitas pessoas. O que esse fato revela sobre os tempos que temos vivido e sobre o próprio Caetano?

Pedro Bustamante Teixeira – Revela que Caetano, em seu acordo com o Tempo, explicitado em “Oração ao Tempo”, continua a aceitar os termos do tempo presente para, por sua vez, fazer efeito e transformar o mesmo por “dentro da barriga da baleia”.



IHU – Sobre a música “Anjos Tronchos”, Caetano traz na canção uma reflexão acerca dos fenômenos tecnológicos, chegando a reconhecer a influência de Gilberto Gil. Que leitura fazes dessa reflexão proposta e que paralelos podemos trazer com “Pela Internet”, canção de Gil lançada em 1996 num pioneiro show transmitido pela internet?

Pedro Bustamante Teixeira – Em “Pela Internet”, de Gilberto Gil, há a pré-história da história narrada em “Anjos Tronchos”.

 

 

No início as perspectivas eram as melhores, e Gil, sempre mais pós-moderno do que o moderno Caetano, está ali a louvar o mundo novo que se anuncia e ao qual se entrega sem o mínimo pudor.

 

 

Passados quinze anos, para além das novidades bem-vindas, mesmo o menos entusiasta dessas novas tecnologias e, portanto, o bem menos integrado a esse mundo novo, também se vê capturado pela rede e seus algoritmos; mas, para além do otimismo primeiro de Gil, por sua vez, reafirmado em “Pela Internet 2", lançada em 2017, disserta sobre a distopia instaurada pela nova lógica, ainda que consiga, no fim da canção, depois da descrição precisa do novo horror instaurado pela rede, ver a flor de Billie Eilish crescer no concreto graças a esse asfalto plantado pelo Vale do Silício.

 

 

IHU – Há eternas disputas entre historiadores sobre a transformação da princesa Isabel em heroína da abolição da escravidão, enquanto Zumbi dos Palmares ascende naturalmente como ícone da luta negra. Há quem diga que, em Meu Coco, Caetano traz uma visão integradora sobre os dois personagens. Você concorda?

Pedro Bustamante Teixeira – Não é de hoje que Caetano tenta unir o culto a Zumbi dos Palmares ao da princesa Isabel, essa premissa está explícita em “13 de Maio”, dia em que os pretos celebravam, segundo a sua canção, o fim da escravidão e saudavam Isabel, que por suas bocas tornava-se Zabel, e depois Zabé. No disco Eu não peço desculpa, com Jorge Mautner, mais precisamente em “Feitiço”, canção de Caetano Veloso, os dois personagens já estão lá reunidos antropofagicamente nos versos: “Zabé come zumbi/ Zumbi come Zabé”.

 

 

E é justamente essa intenção de justapor pares que a princípio seriam opostos, o grande achado da Tropicália – já presente nos manifestos modernistas de Oswald de Andrade –, que sustenta toda a reflexão de Caetano ao longo de todos esses anos. No entanto, algo que hoje seria duramente condenado pela intelligentsia, que já não mais opera a partir das premissas modernistas de Gilberto Freyre e de Sérgio Buarque de Holanda, mas se construindo ensaisticamente a partir deles, e não simplesmente contra eles, com muito engenho, ritmo, beleza e arte, numa elaboração cada vez mais complexa, que faz com que o argumento - que se fosse simplificado seria simplesmente alvo de cancelamento - tenha ainda a atenção dos mais diversos setores da intelligentsia brasileira, mesmo aquela que rejeita integralmente essa ideia que por tanto tempo sustentou o nosso conceito de brasilidade e que serviu de base para os modernismos, entre eles o que se apresentou em toda a história da música popular brasileira, particularmente sob a sigla MPB que, como constatou bem Acauam Oliveira em sua página do Facebook, ressurge agora surpreendendo a todos.

 

 

IHU – Para você, qual é a maior mensagem de Meu Coco? E que faixa destacas como sua preferida?

Pedro Bustamante Teixeira – Para mim, a maior mensagem de Meu Coco é que Caetano está vivíssimo e traz consigo uma legião que ainda afirma um mito Brasil, uma MPB, e a originalidade de um pensamento que se dá para além dos cem por cento negros ou brancos, tão presentes nas sociedades que, diferentemente do Brasil, viveram sob o signo do Apartheid. Pelas razões já ressaltadas anteriormente, e pelo minimalismo do arranjo que incorpora o que há de mais interessante no funk atual, tornando-a ótima, por exemplo, para o passinho do romano, a minha preferida agora é “Não vou deixar”. Mas também gosto muito de “Enzo Gabriel”, que junta enfim o brilhante acordeonista Mestrinho a Caetano, e tem uma passagem em Ijexá de bambear as pernas.

 

 

E também gosto de “Você-Você”, que traz a maravilhosa fadista portuguesa Carminho, e refaz a ponte entre a Brasil e Portugal sob uma perspectiva não mais colonialista, fazendo ainda com que o português de Portugal de Carminho, na citação a um verso de Noel Rosa, se renda novamente ao modo gerúndio que já não é mais tão comum por lá.

 

 

IHU – Como a poesia e a afirmação de um Brasil em Meu Coco pode inspirar as pessoas de um país mergulhado num estado de crises?

Pedro Bustamante Teixeira – Como escreveu Oswald em um de seus manifestos modernistas: “a alegria é a prova dos nove”. A maior derrota, portanto, seria a sujeição à tristeza e à melancolia. Caetano nos ajuda agora a reafirmar a nossa potência alegre para enfrentar os fascismos, a pulsão de morte, o horror.

 

 

IHU – Deseja acrescentar algo?

Pedro Bustamante Teixeira – Ouçam o disco, com o coco e com o corpo, porque sem Caetano não dá.

 

Ouça o disco completo Meu Coco:

 

 

 

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