"Inflamar o Golfo é um bumerangue. Agora Putin e Xi terão carta branca". Entrevista com Andrea Riccardi

Foto: Kremlin.ru/Wikimedia Commons

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02 Março 2026

"Faz sentido impedir que o Irã tenha a arma atômica, mas inflamar o Oriente Médio é um trágico bumerangue", afirma Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, promotor de corredores humanitários (África, Oriente Médio), ex-ministro da Cooperação Internacional e mediador de paz em Moçambique, Guatemala e Costa do Marfim.

A entrevista é de Giacomo Galeazzi, publicada por La Stampa, 01-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Qual o objetivo do ataque?

Não estou surpreso; o ataque já estava no ar devido à ameaça que representa uma arma nuclear nas mãos dos aiatolás para a segurança de Israel e a estabilidade do Oriente Médio. Agora, porém, os efeitos precisam ser interpretados: as negociações serão aceleradas ou a queda do regime se aproxima? Não há resposta, porque estamos na era da força. O instrumento diplomático e de negociação entrou em crise, mas nem mesmo o plano estratégico-militar é claro. Às vezes se bombardeia, mas para quê?

Qual é o perigo agora?

Atiçam-se as chamas no Oriente Médio e o conflito que começou entre Irã e Israel corre o risco de se alastrar para os países do Golfo e para o próprio Irã. Ao mesmo tempo, eclodiu a guerra entre Afeganistão e Paquistão, com um grande país com armas nucleares atacando a ditadura talibã vizinha, alegando que, na fronteira porosa, desde sempre sob controle tribal, os movimentos terroristas encontram refúgio no regime de Cabul.

São episódios da "terceira guerra mundial em pedaços"?

Esses casos são diferentes em sua natureza, mas compartilham o relançamento do papel internacional da Rússia, que acusa os EUA de serem insinceros nas negociações sobre o programa nuclear iraniano e que se apresenta como mediador entre o Paquistão e o Afeganistão. Precisamos entender se o ataque israelense-estadunidense é meramente um uso imprudente da força ou uma etapa no processo de negociação. Enquanto isso, no Ocidente, esquecemos rapidamente os horrores dos aiatolás: os 30.000 manifestantes mortos, as 800 execuções, a onda de prisões de opositores. O regime é prisioneiro do dogma de que as demandas do povo nunca devem ser atendidas, porque quando o as atendeu, seu fim começou.

Um regime sitiado?

Os iranianos querem liberdade, mas o regime, embora frágil e paranoico, é uma grande construção com uma base de apoio muito ampla. Além de minar a segurança de Israel e as relações com os países do Golfo, um Irã nuclear significa trancar a chave toda uma população. Uma autocracia com armas nucleares é a pior coisa do mundo. O restante do espectro xiita rejeita a tutela teocrática; o Iraque de al-Sistani e Najaf é diferente da ditadura clerical de Khomeini, que se baseia na violência e nos colossais interesses econômicos dos Pasdaran.

Por que Putin está ganhando mais espaço de manobra?

É uma das contradições da era da força. O agressor russo se depara com os ucranianos privados do apoio dos EUA, mais dispostos a negociar devido ao enorme sofrimento dos civis. Enquanto isso, torna-se mediador no conflito afegão-paquistanês e observa, com os olhos de potência pacificadora, os excessos bélicos israelense-estadunidenses no Irã. Um mundo em caos, no qual os países já não sabem mais como dialogar e não existe uma organização mundial onde discutir os problemas.

Seria, portanto, um fracasso da diplomacia?

A mediação não opera com o instrumento diplomático. Para serem verdadeiras, as negociações não precisam obrigatoriamente serem instantâneas; podem durar até dois anos, mas precisam ter uma força própria. Em vez disso, estamos em plena desordem mundial, e o recurso sistemático à força acende incêndios que podem sair do controle daqueles que os iniciaram e se tornar algo muito maior. Se os ataques iranianos causarem danos sérios e gerarem uma forte reação, será difícil voltar atrás. Uma mediação internacional deveria ter sido tentada antes de se passar para a guerra, mesmo entre o Afeganistão e o Paquistão, que é uma potência nuclear com exército e serviços de inteligência de bom nível e uma forte coesão interna, apesar da complexidade.

E a geopolítica muda?

Sim. Alianças variáveis, relações com os EUA, armamentos chineses. O modelo de lealdade ao bloco já não existe mais. Isso é demonstrado pela Turquia, que faz parte da OTAN, mas segue sua própria política, tem boas relações com a Rússia, mantém relações com a Ucrânia, patrocina o novo governo sírio, tem seu procônsul Haftar na Líbia e leva vantagem sobre os curdos. Com a liderança estadunidense inicialmente isolacionista, saindo do Iraque, mas em meio a dezenas de outros focos de conflito. Trump deveria levar a paz à Ucrânia da noite para o dia, mas, em vez disso, não está claro quem está realmente fazendo o quê na crise. Um mundo em chamas que lembra o 'grande jogo' do colonialismo britânico do século XIX. Episódios sem um plano e com possíveis sequências inesperadas. Começa-se sem saber como isso vai continuar.

Agora prevê um efeito dominó no Oriente Médio?

Estamos lidando com a fragilidade do Iraque e de uma Síria que busca uma nova coesão, mas que abriga os drusos apoiados por Israel, não resolveu a questão dos alauítas e não sabe como assimilar os curdos. Na hipersensibilidade do Líbano, os conflitos na região têm repercussões dramáticas. Líbano, Iraque e Síria são três Estados distintos com histórias políticas diferentes. Suas origens remontam aos Acordos Sykes-Picot (do nome dos negociadores) de 1916, entre a França e a Grã-Bretanha. Esses acordos criaram uma nova arquitetura estatal no vasto domínio do Império Otomano, que se estendia da Europa à Arábia, incorporando o Oriente Médio. A população do Império, dominada pelos turcos, era variada: além dos árabes sunitas, havia os cristãos (ortodoxos, armênios, maronitas, siríacos), os judeus, os curdos e os yazidis. Havia também outras comunidades muçulmanas: os xiitas, como no sul do Iraque ou no Líbano, os alauítas e os drusos. Um mosaico complexo que se desintegrou em mil pedaços.

Novos atores em campo?

Putin e Xi estão de olho, enquanto é cada vez mais difícil na região fazer com que mundos religiosos e étnicos tão diferentes possam conviver. O ataque ao regime dos aiatolás não é visto com maus olhos no restante do espectro xiita. Os iranianos são um povo antigo com uma cultura profunda, há refugiados por toda parte, mas o poder do Estado iraniano repousa sobre bases sólidas, e o risco é que agora o regime saia fortalecido por um ataque impensado e míope.

Por que a região poderia sair desestabilizada do Irã?

Durante anos, esse mundo foi devastado por guerras e violências fanáticas: será difícil reconstruí-lo. Por exemplo, no Iraque, em 2003, os Estados Unidos travaram guerra contra Saddam Hussein, apoiado pelos sunitas. Assim, o Iraque, sob o domínio do terrorismo, se desagregou: os curdos, oprimidos por Saddam, conquistaram a autonomia, enquanto os xiitas se tornaram determinantes. As consequências geopolíticas emergem a longo prazo, muitas vezes quando já é tarde demais.

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