Críticas a Trump, lobby fóssil e falta de ambição climática marcam Cúpula de Líderes

Foto: Hermes Caruzo/COP30/Fotos Públicas

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07 Novembro 2025

Presidente colombiano denunciou ausência dos EUA e gastos militares da Europa; secretário-geral da ONU falou em falta de vontade política e cobrou implementação.

A informação é publicada por Observatório do Clima, 06-11-2025. 

Trump está 100% errado”. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, fez um dos discursos mais contundentes da abertura da Cúpula de Líderes da conferência do clima de Belém, nesta quinta-feira (6/11), e criticou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por seu negacionismo climático e ausência nas negociações.

Trump, que atua pessoalmente para negar a ciência, não está aqui. Estamos vendo o colapso climático que pode acontecer e os EUA não descarbonizam a sua economia”, disse o colombiano.

A ausência do maior poluidor climático (em emissões históricas acumuladas) na conferência foi citada também no discurso de Gabriel Boric, presidente do Chile, que lembrou a fala negacionista de Trump na Assembleia Geral da ONU: “O presidente dos EUA disse na última assembleia da ONU que a crise do clima não existe – e isso é uma mentira”.

Em seu discurso, Gustavo Petro nomeou ainda aqueles que considera os maiores responsáveis pelo fracasso coletivo em conter o aquecimento global. “Depois de 29 COPs e muitos discursos, temos um fracasso. Ele pode ser medido pela ciência em termos de temperatura (…). E esse fracasso é, antes de tudo, por causa do lobby que representa o interesse dos fósseis nesta assembleia”, disse.

“Em todas as COPs, o interesse pelos lucros atua contra a vida. Isso é imoral e não é humano”, completou Petro. O colombiano criticou ainda o aumento de gastos militares, que têm consumido percentuais crescentes dos PIBs de diversos países. “Isso é um problema da Europa. Não é uma questão de defesa ou de segurança. O inimigo não é a Rússia, é a crise do clima”, declarou.

Transição, ação climática e cooperação

Ding Xuexiang, vice-presidente da China, líder global de emissões, usou seu discurso para lembrar o recente anúncio da nova meta climática do país e destacar que o último plano quinquenal chinês está comprometido com o objetivo de atingir o pico de emissões e a neutralidade de carbono.

“A China atuará para cortar emissões, reduzir a poluição, atingir o desenvolvimento verde e reforçar o crescimento econômico”, declarou, destacando que o país “honra seus compromissos”.

Enfatizando que a defesa do multilateralismo é “imperativa”, o representante da China apresentou três propostas: que os países se atenham à “direção certa”, assegurando a transição para economias de baixo carbono que garantam proteção ambiental, desenvolvimento econômico, criação de empregos e erradicação da pobreza; que se traduza os compromissos climáticos em ação climática, seguindo o princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas, com liderança dos países desenvolvidos; e que se aprofunde a cooperação, fortalecendo a colaboração internacional para desenvolvimento e acesso às tecnologias de baixo carbono e a derrubada de barreiras tarifárias para tecnologias sustentáveis.

“Implementação, implementação, implementação”

O secretário-geral da ONU, António Guterres, enfatizou os relatórios recém publicados pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e disse que é necessário reconhecer o fracasso em controlar o aquecimento global em 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais.

No entanto, destacou que a ciência mostra ser possível e necessário reverter o chamado “overshoot”, a ultrapassagem momentânea do limite de 1,5ºC, e recolocar o planeta no caminho para atingir a meta do Acordo de Paris até o final deste século.

“A ciência nos diz que um overshoot temporário acima de 1,5ºC começando nos início da década de 2030, se tão tarde, é inevitável. Precisamos de uma mudança de paradigma para limitar a magnitude e a duração do overshoot e rapidamente controlá-lo”, disse.

“Sejamos claros: o limite de 1,5ºC é uma linha vermelha para a humanidade. Precisamos mantê-lo, e os cientistas também nos dizem que ainda é possível. Se agirmos agora e acelerarmos a escala, podemos fazer o overshoot o menor e mais breve possível, e reduzir a temperatura novamente abaixo de 1,5ºC até o final deste século”, afirmou, declarando que “a ONU não vai desistir da meta de 1,5ºC”.

Para isso, destacou, é preciso que as emissões de gases-estufa atinjam seu pico imediatamente e que iniciem um trajetória de “reduções drásticas” nesta década, acelerando a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, a redução das emissões de metano e a proteção de florestas e oceanos.

Guterres enfatizou ainda que os países precisam cumprir suas metas de zerar emissões líquidas até 2050 e iniciar a partir daí o caminho para as emissões negativas, ou seja, começar a capturar mais carbono do que emitem. Além disso, destacou que é preciso aumentar drasticamente o financiamento para adaptação e resiliência, garantindo que, com o overshoot, os desastres climáticos gerem o mínimo de dano possível.

Lembrando que a humanidade nunca esteve tão “bem equipada” para enfrentar a crise climática, criticou a falta de vontade política dos líderes.

“O que ainda falta é coragem política. Os combustíveis fósseis ainda recebem vastos subsídios, financiados pelos contribuintes. Muitas corporações estão lucrando com a destruição climática e milhões são gastos em lobby”, afirmou, denunciando que muitos líderes se mantém “cativos desses interesses”.

Cobrando uma resposta política à insuficiência das metas climáticas dos países, o secretário-geral encerrou seu discurso fazendo um chamado para que o compromisso com a transição para longe dos fósseis assumido na COP28 seja transformado em ação. “Não é mais tempo de negociações. É tempo de implementação, implementação, implementação”, afirmou.

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