O Partido dos Bilionários e o paradoxo da democracia. Artigo de Luís Nassif

Foto: White House/Fotos Públicas

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Setembro 2025

O desafio é reconstruir um pacto social de uma justiça econômica e justiça social — sem que uma seja usada para sabotar a outra.

O artigo é de Luís Nassif, publicado por Jornal GGN, 21-09-2025.

Luis Nassif é jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Eis o artigo.

A ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos não pode ser explicada apenas por variáveis econômicas superficiais, como o aumento da inflação. Em entrevista ao jornalista Luiz Guilherme Gerbelli, do Estadão (“Governo Trump será ‘absolutamente terrível’ para a economia dos EUA, afirma vencedor do Nobel”), o cientista político James Robinson, autor de “Por que as Nações Fracassam”, oferece uma leitura mais profunda: o fenômeno Trump é resultado de uma reação cultural e estrutural à degradação das condições de vida da classe média americana. Este artigo parte dessa análise para explorar o paradoxo da democracia contemporânea, marcada pela concentração de renda, polarização ideológica e manipulação das pautas sociais por um poder econômico invisível — o chamado Partido dos Bilionários.

A falsa objetividade econômica

Durante o período eleitoral, analistas econômicos apressaram-se em atribuir a queda de popularidade de Joe Biden à inflação. Essa leitura, baseada em planilhas e indicadores, ignora o mal-estar social mais profundo que se alastra entre os cidadãos comuns. Robinson aponta que a ascensão de Trump está ligada à figura do “hommus bobus” — o homem comum, desorientado, que reage emocionalmente à perda de status e oportunidades. A crise não é apenas econômica, mas simbólica: é a sensação de que o mundo está mudando rápido demais, e não necessariamente a favor dele.

O ultraliberalismo e o empobrecimento da classe média

A financeirização da economia americana, impulsionada por políticas ultraliberais, aprofundou a concentração de renda e empobreceu a classe média. A promessa de prosperidade foi substituída por empregos precários, insegurança habitacional e endividamento crônico. Esse processo não apenas deteriora as condições materiais de vida, como também mina a confiança nas instituições democráticas. O cidadão comum, sem acesso a oportunidades reais, vê sua frustração crescer — e busca culpados.

As pautas humanistas como bode expiatório

Em vez de direcionar sua indignação à elite financeira que concentra riqueza e poder, parte da população volta-se contra as minorias beneficiadas por políticas compensatórias. Direitos LGBTQIA+, igualdade de gênero, justiça climática — conquistas civilizatórias passam a ser vistas como privilégios indevidos. Essa inversão de causalidade é perigosa: o que deveria ser entendido como reparação histórica é tratado como ameaça à ordem social. A pauta progressista vira alvo, não por seus méritos, mas por sua instrumentalização política.

O Partido dos Bilionários

A ideia de que os Estados Unidos são governados por um único partido — o Partido dos Bilionários — dividido entre Democratas e Republicanos, ajuda a entender a lógica por trás da polarização. Ambos os lados servem aos interesses do capital, mas com estratégias distintas:

  • Os Democratas apostam em ONGs, influenciadores e redes sociais para promover pautas progressistas e manter a aparência de inclusão sem questionamentos ao modelo econômico.

  • Os Republicanos recorrem à desinformação, à ultra-direita, à NRA e a grupos conservadores para canalizar o ressentimento social.

A eleição de Barack Obama marcou o início da politização das redes sociais. Desde então, ambos os partidos passaram a disputar corações e mentes no ambiente digital, com algoritmos e narrativas cuidadosamente construídas.

As “Primaveras” e a geopolítica da desestabilização

A influência política das redes sociais não se limitou ao território americano. Movimentos como as “Primaveras Árabes” e iniciativas como Viva Rio e Vem Pra Rua no Brasil foram impulsionados por interesses geopolíticos disfarçados de ativismo democrático.

Em um caso, a retórica da ampliação de direitos foi usada como ferramenta de desestabilização de regimes e governos. A democracia, nesse contexto, torna-se um instrumento de poder, não um fim em si mesma.

Em outro, os direitos passaram a ser utilizados como álibi para o investimento político da direita na política do ressentimento.

O paradoxo da democracia contemporânea

Vivemos um paradoxo: enquanto a democracia é celebrada como valor universal, ela é corroída por dentro por interesses econômicos que moldam o debate público.

A vertente “progressista” do Partido dos Bilionários estimula pautas identitárias sem enfrentar as causas estruturais da desigualdade. Já a vertente conservadora manipula o ressentimento popular para atacar essas mesmas pautas. O resultado é uma sociedade polarizada, onde o verdadeiro inimigo — a concentração de renda e poder — permanece intocado.

Por outro lado, os próprios setores progressistas se dividem, responsabilizando a cultura “woke” pelo aumento da direita.

O grau de ignorância institucionalizada é tão grande que, hoje em dia, ministros do Supremo, verdadeiros baluartes da democracia, são os mesmos que investiram no desmonte de pautas sociais, sem a menor consciência sobre seus efeitos na radicalização do país.

Conclusão

A crise da democracia não se resolve com mais polarização, nem com a superficialidade das análises econômicas. É preciso reconectar o debate político às causas reais da degradação social: a financeirização da economia, a precarização do trabalho, a captura das instituições pelo capital. Ao mesmo tempo, é necessário defender os avanços civilizatórios sem cair na armadilha da instrumentalização. O desafio é reconstruir um pacto social com uma justiça econômica e justiça social — sem que uma seja usada para sabotar a outra.

Leia mais