O que a campanha para prefeito de Zohran Mamdani pode ensinar à Igreja Católica sobre como alcançar a Geração Z. Artigo de Grace Copps

Foto: Wikimedia Commons

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01 Julho 2025

"Na noite de terça-feira, Mamdani conseguiu uma virada surpreendente e terminou em primeiro lugar na contagem inicial de votos das primárias democratas para prefeito, à frente com folga do ex-governador Andrew Cuomo. O que a campanha dele pode ensinar à Igreja Católica sobre como energizar a 'Geração Z'? Aqui vão três lições".

O artigo é de Grace Copps, estudante da Universidade de Georgetownpublicada por America, 26-06-2025. 

Eis o artigo. 

Na manhã de sábado, eu já estava acordado, vestido e tomando café da manhã às 8h30 — um acontecimento que deve ter feito meus pais acharem que o mundo estava acabando ao me ouvirem andando pelo apartamento. Mas o Armagedom teria que esperar um pouco mais, pois eu estava apenas me preparando para um turno de três horas ligando para eleitores em apoio ao candidato à prefeitura de Nova York, Zohran Mamdani.

Embora isso provavelmente se deva ao círculo em que convivo — sou membro dos Democratas Universitários, faço graduação em governo e tenho uma habilitação secundária em estudos de justiça e paz —, não consegui escapar da campanha de Mamdani nas redes sociais. Ele fez com que meus amigos e eu voltássemos a sentir empolgação e esperança com a política depois da derrota de Kamala Harris na eleição presidencial de 2024.

Na noite de terça-feira, Mamdani conseguiu uma virada surpreendente e terminou em primeiro lugar na contagem inicial de votos das primárias democratas para prefeito, à frente com folga do ex-governador Andrew Cuomo. O que a campanha dele pode ensinar à Igreja Católica sobre como energizar a “Geração Z”? Aqui vão três lições.

Primeiro: vá até as comunidades. A campanha de rua teve um papel fundamental para levar Mamdani de 1% de reconhecimento de nome a se tornar o provável candidato democrata. Até 4 de junho, cerca de 30 mil pessoas haviam batido em mais de 750 mil portas por sua campanha, segundo seus organizadores. Nas semanas que antecederam a eleição primária, houve ações de panfletagem todos os dias, em bairros como Sunnyside, Bay Ridge e Upper East Side.

Esse esforço começou em dezembro. Depois das eleições presidenciais de novembro, Mamdani foi aos bairros Jamaica e Fordham, no Queens e no Bronx, para conversar pessoalmente com trabalhadores e perguntar por que votaram em Donald J. Trump — ou por que não votaram. Estar presente e “fazer o caminho” importa. Encontrar as pessoas literalmente onde elas estão importa. Se a Igreja quer atrair mais jovens, então as paróquias devem ir até eles. Ser presenças visíveis em suas comunidades e nos campi universitários. Acolhê-los de braços abertos, exatamente onde e como eles são.

Segundo: seja legal (mesmo que um pouco brega). Outro fator do sucesso de Mamdani é sua presença nas redes sociais. Ele postou vídeos conversando com nova-iorquinos na porta de jogos dos Knicks e discutindo seu plano de ônibus gratuitos enquanto usava o (já gratuito) ferry de Staten Island. No dia de Ano-Novo, fez um “mergulho polar” em Coney Island vestindo um terno para promover sua proposta de congelamento do aluguel dos imóveis com aluguel estabilizado. Participou de um bate-papo virtual com a atriz Cynthia Nixon, de Sex and the City (que disputou contra Cuomo nas primárias para governador em 2018). Criou os “ZetroCards” para os voluntários da campanha, inspirados no MetroCard — e quem fizesse oito turnos em oito semanas ganhava um pôster da campanha. Sim, a dedicação pode parecer exagerada. Mas é autêntica, honesta e mostra que Mamdani entende o que ressoa com os jovens eleitores.

Adaptar-se às redes sociais mostra aos jovens adultos que o catolicismo também pode ser “legal”. Pense no padre Simon Teller, que usa sua conta no Instagram para fazer vídeos engraçados, mas informativos, sobre o catolicismo e o sacerdócio.

“Já tive muitas experiências de pessoas que vieram até mim dizendo: ‘Isso me aproximou da fé e me levou a esse evento’, ou ‘Isso me fez pensar de forma diferente sobre esse assunto. Nunca tinha pensado assim antes’”, contou o padre Teller, capelão e frade dominicano do Providence College, em entrevista ao The Dispatch.

No século XXI, as redes sociais são uma força de evangelização. Se você construir (uma presença espirituosa e cativante nas redes), eles (os jovens) virão.

Terceiro: seja alguém do povo com o povo. Embora haja muito o que debater sobre a viabilidade prática da agenda de Mamdani, não é difícil entender por que sua mensagem central — tornar Nova York acessível para as pessoas comuns — ressoou com os eleitores. Segundo o Escritório do Controlador do Estado de Nova York, o custo dos alimentos na região metropolitana subiu 56,2% entre 2012-2013 e 2022-2023 (acima do aumento nacional de 46,4%). No início de 2024, o preço médio de venda de uma casa em Nova York era de 785 mil dólares.

À medida que a Geração Z entra na vida adulta (e em um mercado de trabalho difícil), essas questões começam a impactar diretamente suas vidas. Isso oferece à Igreja a chance de se mostrar como uma Igreja do povo comum. Paróquias que aumentarem sua atuação comunitária e programas de justiça social — como cozinhas comunitárias, campanhas de roupas, distribuição de lanches para pessoas em situação de rua — podem atrair jovens progressistas que querem melhorar suas vidas e as de suas comunidades diante da alta no custo de vida.

Talvez fosse oportuno que a Igreja dos EUA tornasse Dorothy Day, cofundadora do movimento Catholic Worker, um nome conhecido (inclusive nos dormitórios universitários). Se isso parecer um passo radical demais, pergunte a si mesmo quem — o Papa Leão XIV ou Mamdani — disse o seguinte a um grupo de legisladores:

"[É sua] responsabilidade promover e proteger, independentemente de qualquer interesse especial, o bem da comunidade, o bem comum, especialmente defendendo os vulneráveis e marginalizados. Isso significaria, por exemplo, trabalhar para superar a inaceitável desproporção entre a imensa riqueza concentrada nas mãos de poucos e a pobreza no mundo".

A Igreja Católica não deveria ter medo de buscar nas campanhas políticas lições sobre como capturar com eficácia os corações e a imaginação dos jovens adultos. Os jovens são o futuro — da Igreja à prefeitura.

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