Animais conscientes: são ou não são?

Foto: Ryan Al Bishri | Unsplash

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01 Agosto 2024

Os pesquisadores a favor da consciência animal argumentam que os seres humanos têm o mesmo tipo de funções que os outros animais. São provas importantes que mostram que, tendo o mesmo cérebro, embora menos complexo, os animais são tão conscientes quanto nós.

O comentário é de Gino Viero, membro da associação italiana Zampa per Birillo em prol da causa animal. O artigo foi publicado em Rewriters, 26-07-2024. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há alguns dias, quando cheguei em casa, encontrei meu cachorro e meus gatos discutindo animadamente. Fizeram-me sentar no sofá e deram-me um pedaço de papel onde tinham escrito em quem votar nas eleições europeias e a quem destinar os 8 por mil [porcentagem do imposto de renda italiano destinado a instituições religiosas] e 2 por mil [porcentagem destinada a partidos políticos]! Ainda bem, porque eu estava indeciso.

Obviamente isso não é verdade. Os humanos não entendem as línguas dos animais e, além disso, não são inteligentes o suficiente para escutá-las.

Entretanto, precisamos compreender se o Q.I. é um parâmetro para avaliar a consciência e a conscientização. Além disso, a consciência e a conscientização são parâmetros para decidir o direito à vida, o respeito ao sofrimento e a felicidade correta? Se viessem alienígenas muito mais evoluídos do que nós, eles teriam em relação a nós o mesmo comportamento que reservamos para porcos, galinhas, gado etc.? Dada a forma como agimos, por que culpá-los se os parâmetros utilizados para ter direitos são os da inteligência, da conscientização ou da consciência?

O ser humano é o último sobrevivente da vasta floresta de raças, tipologias e subespécies da espécie Homo, que mais tarde se tornou sapiens (sabe-se lá por que a chamamos assim... Nem todo mundo é Aristóteles ou Margherita Hack!). Restamos apenas nós unicamente por razões de fitness (em genética, trata-se da idoneidade de um organismo ao ambiente, ou seja, seu valor adaptativo).

Então, o que fazemos? Será que os nossos antepassados ​​também poderiam ter sido eliminados porque eram menos que nós em... etc...? Parece um discurso perigoso, você não acha?

Animais e consciência: o progresso na pesquisa etológica

O progresso da pesquisa etológica e biológica de forma mais geral demonstrou que a consciência e a conscientização são universais no mundo vivo.

Em 7 de julho de 2012, por ocasião da Francis Crick Memorial Conference on Consciousness in Human and non-Human Animals [em tradução livre, Conferência Memorial Francis Crick sobre Consciência em Animais Humanos e Não Humanos], no Churchill College, na Universidade de Cambridge, um grupo internacional de cientistas renomados assinou a “Declaração de Cambridge de Consciência”, em que defendem a ideia de que os animais são conscientes e conscientizados na mesma medida em que os humanos.

A lista de espécies a que eles se referem inclui mamíferos, aves e até o polvo. A declaração foi assinada na presença de Stephen Hawking e inclui nomes como Christof Koch, David Edelman, Edward Boyden, Philip Low, Irene Pepperberg e muitos outros.

Declarou-se o seguinte:

“A ausência de um neocórtex não parece impedir um organismo de experimentar estados afetivos. Evidências convergentes indicam que os animais não humanos têm substratos neuroanatômicos, neuroquímicos e neurofisiológicos de estados da consciência, junto com a capacidade de exibir comportamentos intencionais. Consequentemente, muitas evidências indicam que os humanos não são os únicos que possuem os substratos neurológicos que geram a consciência. Animais não humanos, incluindo todos os mamíferos, aves e muitas outras espécies, incluindo os polvos, também possuem esses substratos neurológicos.”

É muito interessante notar que a declaração reconheceu a consciência em animais muito diferentes do ser humano, incluindo todas aquelas espécies que seguiram caminhos evolutivos distantes, como por exemplo as aves e alguns cefalópodes.

A Declaração de Nova York sobre a Consciência Animal

Já a "Declaração de Nova York sobre a Consciência Animal" foi assinada no dia 19 de abril passado, na Universidade de Nova York. O documento afirma o seguinte:

“Quais animais têm a capacidade de experiência consciente? Embora permaneça muita incerteza, surgiram alguns pontos de amplo consenso.

“Em primeiro lugar, existe um forte apoio científico para atribuir a experiência consciente a outros mamíferos e aves.

“Em segundo lugar, a evidência empírica indica pelo menos uma possibilidade realista de experiência consciente em todos os vertebrados (incluindo répteis, anfíbios e peixes) e em muitos invertebrados (incluindo, no mínimo, moluscos cefalópodes, crustáceos decápodes e insetos).

“Em terceiro lugar, quando existe uma possibilidade realista de experiência consciente em um animal, é irresponsável ignorar essa possibilidade em decisões que afetam esse animal. Devemos considerar os riscos para o bem-estar e usar as evidências para moldar as nossas respostas a esses riscos.”

Assinada por inúmeros cientistas, filósofos e psicólogos de renome internacional, com inúmeras publicações nas revistas científicas mais credenciadas, é um documento revolucionário que visa a sensibilizar a opinião pública – e outros estudiosos – sobre o tema da experiência consciente e subjetiva dos outros organismos vivos que povoam a Terra.

Hoje, há cada vez mais provas de que todos os seres que pertencem ao mundo animal – portanto não apenas os sapiens – podem experimentar alegria, dor, curiosidade, luto e outras emoções/experiências que geralmente associamos ao ser humano.

A consciência já não é, portanto, apenas uma questão que diz respeito aos animais pertencentes às classes superiores, como os mamíferos e as aves, mas surgem cada vez mais sinais nos outros vertebrados (anfíbios, répteis e peixes) e também nos invertebrados, particularmente nos crustáceos, moluscos e insetos.

Como afirmam os signatários do documento, “a evidência empírica indica pelo menos uma possibilidade realista de experiência consciente em todos os vertebrados (incluindo répteis, anfíbios e peixes) e em muitos invertebrados (incluindo, no mínimo, moluscos cefalópodes, crustáceos decápodes e insetos)”.

Os cientistas também examinaram as bases biológicas. A declaração de Cambridge afirma que “os humanos não são os únicos que possuem os substratos neurológicos que geram a consciência. Animais não humanos, incluindo todos os mamíferos, aves e muitas outras espécies, incluindo os polvos, também possuem esses substratos neurológicos”. Por exemplo, eles sabem aprender, usar utensílios (como cascas de coco para fazer abrigos) e brincam. Os pesquisadores a favor da consciência animal argumentam que os seres humanos têm o mesmo tipo de funções que os outros animais. São provas importantes que mostram que, tendo o mesmo cérebro, embora menos complexo, os animais são tão conscientes quanto nós.

Portanto, temos o mesmo tipo de cérebro para processar sinais e comandar comportamentos, mesmo que ele tenha evoluído a um estágio diferente, assim como temos os mesmos olhos ou os mesmos receptores da dor. É o que se chama de continuidade evolutiva, ligada ao que já defendia Charles Darwin: entre animais e seres humanos, a diferença é de quantidade e não de qualidade.

Animais também têm personalidades diferentes

Existem evidências para várias espécies. Falaremos sobre isso com mais profundidade nos próximos artigos. Entretanto, apenas para dar um exemplo, podemos citar o que emergiu entre os estudos mais recentes: um teste do Instituto de Ciências e Tecnologias da Cognição do Conselho Nacional de Pesquisas da Itália (CNR, na sigla em italiano) detectou 21 traços de personalidade entre os macacos-prego.

Além disso, vale a pena ler o livro de Giorgio Vallortigara intitulado “La mente che scodinzola. Storie di animali e di cervelli” [em tradução livre, A mente que abana o rabo. Histórias de animais e cérebros], da Ed. Mondadori Università (2011).

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