Papa Ratzinger, Deus, a fé e a luta contra o relativismo. Artigo de Vito Mancuso

Bento XVI | Foto: Vatican News

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06 Janeiro 2023

"Com este artigo eu gostaria de lhe prestar homenagem [ao papa Bento XVI]. Só posso fazê-lo a partir de uma perspectiva crítica, porque nunca me reconheci em sua teologia e porque considero seu pontificado um momento mais negativo do que positivo para a Igreja e a sociedade contemporâneas. No entanto, reconheço que muitas vezes senti que ele tinha o grande mérito de recordar com clareza os temas fundamentais da fé".

A opinião é do teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Universidade San Raffaele de Milão e da Universidade de Pádua, em artigo publicado por La Stampa, 05-01-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Hoje é celebrado o funeral de Joseph Ratzinger e com este artigo eu gostaria de lhe prestar homenagem. Só posso fazê-lo a partir de uma perspectiva crítica, porque nunca me reconheci em sua teologia e porque considero seu pontificado um momento mais negativo do que positivo para a Igreja e a sociedade contemporâneas. No entanto, reconheço que muitas vezes senti que ele tinha o grande mérito de recordar com clareza os temas fundamentais da fé. Quais são eles? Não os migrantes, não a ecologia, não a sexualidade, não a homossexualidade, não a bioética, não o celibato eclesiástico, não o sacerdócio feminino, não todos os temas, por assim dizer, horizontais que dizem respeito ao nosso ser parte do mundo, incluindo aquele pedaço particular do mundo que é a Igreja Católica. Não que esses não sejam importantes, o são, e bastante. Porém não são essenciais, isto é, não representam a essência específica que faz existir a peculiar disposição da mente e do coração que se chama "fé"; aliás, fé em "Deus" como inteligência criativa, causa e finalidade do ser, alfa e ômega.

Ratzinger teve o grande mérito de continuamente chamar a atenção para os temas fundamentais da fé cuja natureza esclareço através de uma página de Agostinho, seu teólogo mais amado (junto com Boaventura e Newman).

Agostinho imagina receber a visita da própria Razão, que lhe pede para resumir seu desejo em poucas palavras.

Ele responde: “Deus e a alma: isso eu desejo conhecer”.

A Razão: “Nada mais?”.

Ele: “Absolutamente nada mais” (Solilóquios 1,2).

Aqui estão os temas fundamentais da fé: Deus e a alma. Tudo o mais depende deles, inclusive Jesus Cristo, a Bíblia, os Sacramentos, a Igreja e os demais elementos do cristianismo, porque esses só têm sentido para o ser humano à luz da existência de Deus, da existência da alma e de sua possível união.

A união de Deus e alma vem a formar o conceito decisivo da teologia de Ratzinger: aquele de verdade. A verdade não é uma doutrina ou uma fórmula ou um estado de coisas; não coincide com a precisão.

A verdade é a união de Deus e da alma: isto é, do sentido objetivo e do sentido subjetivo, da exatidão e da convicção, da lógica e do fervor, da doutrina e da conversão, da ortodoxia e da ortopraxia.

A verdade é como uma partitura musical: tem uma objetividade própria, mas permanece muda para quem não conhece sua linguagem e não sente suas vibrações dentro de si.

O lema que Ratzinger escolheu para o brasão episcopal é Cooperatores veritatis, colaboradores da verdade. Nenhum outro conceito tinha tanta importância para ele. Obviamente outros conceitos também estruturam a sua teologia, sobretudo fé, razão, consciência, amor, mas é o conceito de verdade que faz a diferença porque, dizia, é só a uma razão, a uma fé, a uma consciência, a um amor "verdadeiros" que deve ser atribuído crédito.

Foi isso que o levou a travar sua batalha mais dura, aquela contra o relativismo. Denunciou incessantemente a sua presença invasiva na nossa sociedade, falando a esse respeito até de "ditadura do relativismo", com um conceito bastante curioso porque o relativismo por definição relativiza e, portanto, elimina o absolutismo na raiz da ditadura, de forma que se há relativismo não pode haver ditadura. No entanto, com isso pretendia denunciar um uso persistente da razão orientado a minar sistematicamente o caráter absoluto da verdade: e para ele, se não há caráter absoluto, não há sequer verdade. Não existe aquele encontro existencial tão envolvente e exigente com a alteridade que também pode ser chamado de amor.

Esses discursos podem parecer abstratos, mas têm um impacto político bastante concreto que afeta a todos, crentes e não crentes. Digo também não-crentes, porque alguns deles entre os pensadores e políticos justamente durante o pontificado de Ratzinger começaram a se definir como “ateus devotos”.

Em que sentido? No sentido que, mesmo sem fé pessoal, aderem às tradicionais orientações católicas sobre bioética, sexualidade, demografia, família, educação, "raízes cristãs" ou "judaico-cristãs" da Europa, atribuindo ao renascimento do cristianismo a própria sobrevivência da civilização ocidental e das identidades nacionais. Deus pode até não existir, afirmam, mas é preciso agir como se existisse e com base nisso defender a pátria e a família tradicional.

Ratzinger sintetizava a perspectiva falando de “princípios não negociáveis”, que identificava concretamente na tríade “vida, família, escola”. Dessa forma, o conceito de verdade, de uma união íntima da alma com Deus se transforma numa bandeira da militância política e de práxis legislativa.

A meu ver, porém, há algo de errado nessa formulação: refiro-me ao curto-circuito provocado por uma ausência decisiva, aquela do conceito de laicidade. O que quero dizer com laicidade? Refiro-me ao método que rege a relação entre a dimensão interior e a dimensão exterior da vida humana.

A dimensão interior é expressa pela espiritualidade e pela ética, a dimensão exterior pelo direito e pela política. Cada um de nós tem sua própria espiritualidade e ética pessoal que, no entanto, não podem ser transferidas assim como são para a dimensão pública da existência representada pelo direito e pela política, mas devem ser mediadas com as outras diferentes espiritualidades e éticas existentes, e essa mediação necessária se chama laicidade. A laicidade indica o método que sabe encontrar o ponto de equilíbrio entre as múltiplas esferas interiores dos indivíduos e a necessariamente única esfera exterior do direito, e que o faz por meio da política.

Ter presente essa distinção é essencial para compreender como agir face aos “princípios não negociáveis” de que falava Ratzinger. Essa não-negociabilidade dos princípios é legítima e necessária ao nível de foro interno, no sentido de que cada um nunca deve trair suas convicções quando age na primeira pessoa, mas não pode traduzir-se como tal na esfera pública tão rica de diferenças: o foro interior da primeira pessoa singular nunca é perfeitamente traduzível para o foro exterior da primeira pessoa plural.

Disso resulta que no plano político não há nada que não seja negociável, pois a negociação, longe de ser relativismo, é a própria alma da política democrática e da sua práxis legislativa. Portanto, não tem sentido falar de "princípios não negociáveis" no âmbito político, e continuar a fazê-lo comporta o grave risco de tornar "horizontal" a verticalidade constitutiva do cristianismo, tornando-o uma ideologia politicamente dispensável, um instrumentum regni muito apreciado por aquelas forças políticas que hoje se definem "soberanistas" (e certamente não é por acaso que hoje esteja em seu funeral o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, símbolo do soberanismo europeu).

Na consideração insuficiente do princípio de laicidade, a orientação de Ratzinger, não por acaso tão apreciada pelo fundamentalismo católico, mostra suas maiores deficiências. E estas são lacunas "teologicamente" perigosas, porque se é verdade que os temas fundamentais da fé não são os migrantes e a ecologia, é igualmente verdade que também não o são a pátria, a família, a vida física, de forma que vincular a essas instâncias o cristianismo significa fazer com que perca a sua essência específica, o seu "sal", como diria Jesus.

Contudo, eu gostaria de concluir recordando o amor de Joseph Ratzinger por Deus. Parece que as suas últimas palavras, proferidas em italiano, foram “Signore ti amo” e por isso volto a passar a palavra ao seu Agostinho cuja obra acima referida termina com esta mensagem de esperança da personificação da Razão: “Coragem: Deus estará perto de nós que buscamos, já o sentimos. Ele promete a maior felicidade e a plenitude da verdade, sem mais mentiras, depois desta vida."

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