Há uma “homofobia desequilibrada” por trás dos ataques contra o Pe. James Martin, diz jornal católico

Foto: hollywata | Flickr CC

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

03 Março 2020

Um importante jornal católico publicou um editorial sobre a recente controvérsia em torno do papa, dos bispos dos EUA e do ministério LGBT do Pe. James Martin, SJ, sugerindo uma “homofobia desequilibrada” por parte de algumas pessoas que levantaram rumores e críticas contra o padre jesuíta.

O comentário é de Robert Shine, publicado em New Ways Ministry, 02-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Intitulado “Papa NÃO está incomodado com o Pe. James Martin”, o editorial do National Catholic Reporter começava fortemente:

“Uma sequência de eventos se desenrolou nos últimos dias – a intriga ‘O que o papa realmente disse?’ – que pode ter a qualidade de uma comédia de Molière, exceto que, no fim, a campanha de sussurros ocultos deturpou o que o papa disse e tinha como objetivo destruir a reputação de um bom padre. Pior, ela alimentou ainda mais a ala mais extrema da direita católica e a sua insana fixação na homossexualidade.”

A polêmica começou quando a Catholic News Agency, uma agência de notícias de direita, relatou, com base em bispos anônimos, que durante a reunião ad limina dos bispos do sudoeste dos EUA com o Papa Francisco, o papa demonstrou desagrado com o modo como Martin agiu após um encontro de setembro de 2019 entre o pontífice e sacerdote jesuíta.

Ela também informou que Martin havia recebido uma “reprimenda” sobre como a história do encontro foi noticiado na imprensa. Mas o editorial da NCR expôs a verdade sobre esses bastidores daquela publicação de direita:

“Não confunda a Catholic News Agency (CNA) com o Catholic News Service (CNS). A primeira, que publicou a fonte anônima que criticava de Martin, é afiliada à EWTN, que apresentamos anteriormente em nossa série sobre o dinheiro e as entidades da extrema direita católica que tentam moldar uma narrativa católica estreita para a cultura em geral. É uma narrativa que não consegue imaginar uma Igreja que abraça e celebra seus membros LGBT com o mesmo calor e entusiasmo que acolhe a outros.”

O NCR observou ainda que o editor-chefe da CNA, J. D. Flynn, publicou recentemente um ataque contra Martin em outra publicação da direita, e que Flynn tem laços estreitos com alguns dos críticos mais severos do Papa Francisco nos EUA.

Antes de seu editorial contra as reportagens de má reputação da CNA, o NCR publicou um artigo do arcebispo de Santa Fe, John Wester, que, tendo participado da mesma reunião ad limina, refutou as alegações de que o papa havia criticado Martin. Ele publicou um artigo posterior em que o bispo de Cheyenne, Steven Biegler, também presente na reunião, respaldou o relato de Wester.

O editorial do NCR concluiu com palavras afiadas para os agressores de direita de Martin:

“É suficiente dizer aqui que sites que se autodenominam como católicos tem se engajado em gestos de homofobia absolutamente desequilibrados e fizeram de Martin o alvo principal. O fato de bispos – que, ousamos salientar, são padres companheiros – darem mesmo que a menor legitimidade a esse pensamento perigoso é horrível. No clima atual, e dados os padrões tradicionais de sigilo e de silêncio na cultura episcopal, a Igreja deve uma profunda gratidão a Wester e a Biegler pela sua coragem em apoiar um bom padre e por esclarecerem as suas conversas com Francisco.”

Também escrevendo sobre esse tema no National Catholic Reporter, o colunista Michael Sean Winters comentou:

“É chocante que um bispo tente difamar a reputação de um padre de uma forma tão pública. É mais do que chocante que os meios para alcançar esse fim incluam o fato de colocar palavras na boca do papa durante uma reunião privada. Como isso fortalece a unidade da Igreja? Como isso aumenta a comunhão dos bispos com o sucessor de Pedro? E por que esses bispos saem de uma reunião privada e tagarelam sobre o que o papa disse ou não? Essa última pergunta é a mais assustadora. Talvez eles estivessem apenas tentando fazer aquilo de que acusam Martin de fazer, manipulando uma reunião com o papa para obter uma vantagem tática. Agora é lugar-comum observar que, na Igreja Católica dos EUA, a nossa vida e teologia eclesiais foram reduzidas a categorias e análises políticas. Agora, pior ainda, empregam-se táticas políticas. Tudo segue em frente, desde que você possa promover a sua causa.”

Winters também sugeriu que, se as agendas políticas dos bispos impedirem seu senso de apostolicidade ou de unidade com o papa, então talvez se deva sugerir aposentadorias precoces para eles.

O editorial do National Catholic Reporter, assim como as refutações de Wester e Biegler que ele publicou, são muito bem-vindas e uma reação necessária. Não é apenas o Pe. Martin que é ferido por essa retórica e falsidades cruéis, mas mais ainda as pessoas LGBTQ que são fundamentalmente desumanizadas.

Pelo bem delas, do Pe. Martin e da Igreja, os católicos devem não apenas pregar dignidade e inclusão, mas também denunciar o preconceito e a ignorância quando estes se manifestam.

Leia mais