O imperialismo está nu: era Trump retrata não a força do gigante do norte, mas sua decadência. Entrevista especial com Juliane Furno

​A estética grotesca dos EUA, seja do ponto de vista discursivo ou do belicismo tacanho, mostra um imperialismo que abandona qualquer subterfúgio retórico e revela ao mundo mais fragilidades do que forças

Foto: Casa Branca

14 Março 2026

Muito resumidamente, poderíamos pensar o surgimento do imperialismo, a partir do que descreveu Lenin, como a fase do monopólio capitalista, que passou a ocorrer na virada do século XIX para o XX. “Estamos falando, portanto, de nações imperialistas que sistematicamente e sob diferentes formas, drenam os recursos da periferia, lançando mão de mecanismos econômicos e extraeconômicos, como as guerras, as ocupações coloniais e anexações territoriais”, pontua a professora e pesquisadora Juliane Furno, autora do livro Imperialismo: uma introdução econômica (Da Vinci Livros, 2022)

“O trumpismo reconfigura o estilo da hegemonia norte-americana, deslocando a ênfase da liderança liberal-multilateral para um modelo de dominação transacional e coercitiva, com maior centralidade de tarifas, sanções, recuperação da pungência econômica, militarização e contenção tecnológica. Não se trata de retorno simples ao protecionismo clássico, mas de um uso geoeconômico de instrumentos de Estado em um capitalismo já profundamente globalizado, financeirizado e tecnologicamente monopolista”, explica em entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

A ascensão de Donald Trump após a invasão do Capitólio e após a Suprema Corte reverter sua inelegibilidade, apesar das provas contra ele, transformou a força (ao menos retórica) da democracia estadunidense em signo de sua própria ruína. “Por isso, a ascensão de Donald Trump não é apenas um desvio acidental, mas uma expressão política do esgotamento da hegemonia americana, caracterizado por um modelo que já não consegue mais produzir o que produziu no seu período de ouro: estabilidade, previsibilidade e legitimidade”, descreve Juliane.

Apesar de todos esses sinais, o imperialismo não está morto. Filho legítimo do capitalismo, o imperialismo ainda é eficiente no desejo de produzir subordinação econômica, política e militar. “O anti-imperialismo é uma luta por autonomia e autodeterminação dos povos, ou seja, sobre a capacidade dos povos decidirem sobre o uso do seu território, sobre o excedente do trabalho social, sobre o emprego de tecnologias e de formas de vida”, acrescenta.

Juliane Furno (Foto: Frame do vídeo da TV Brasil)

Juliane Furno é professora da economia na Universidade Federal Fluminense – UFF, é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, mestre em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutora em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Unicamp. É autora de Imperialismo: uma introdução econômica (Da Vinci Livros, 2022) e, com Pedro Rossi, de Economia para transformação social: pequeno manual para mudar o mundo (Autonomia Literária, 2023).

Confira a entrevista.

IHU – O que é o “imperialismo” e até que ponto ele continua como uma categoria válida para  a compreensão do mundo contemporâneo?

Juliane Furno – O imperialismo foi definido pelos clássicos do marxismo, em especial por Lenin como uma fase, a fase própria do capitalismo quando este tornou-se monopolista, na virada para o século XX. Portanto, não estamos tratando de uma política ou de uma opção, mas dá própria natureza do capitalismo com base no desenvolvimento das leis tendenciais e gerais e desenvolvimento, tal como Marx teorizou.

O imperialismo, portanto, é um processo histórico na qual os capitais das nações mais desenvolvidas precisam, para se reproduzir em escala ampliada, da subjugação da periferia. Estamos falando de nações imperialistas que, sistematicamente e sob diferentes formas, drenam os recursos da periferia, lançando mão de mecanismos econômicos e extraeconômicos, como as guerras, as ocupações coloniais e anexações territoriais.

Sendo o imperialismo a fase própria do capitalismo atual, é impossível analisá-lo prescindindo dessa categoria. Embora a forma de atuação do imperialismo hoje seja distinta daquela que o formou, o imperialismo não perdeu força nem primazia explicativa da dinâmica global, apenas melhor se adaptou ao momento histórico.

IHU – Pensando em uma espécie de genealogia do imperialismo, muito embora o conceito tenha ficado mais conhecido na segunda metade do século XX, quais as características que marcam as diferentes fases do imperialismo, digamos assim, do clássico ao contemporâneo?

Juliane Furno – O imperialismo passou por, basicamente, três grandes fases. A primeira delas foi muito bem compreendida pelos autores clássicos do marxismo, tais como Lenin, Rosa Luxemburgo, Rudolf Hilferding e Nikolai Bukharin. Nessa fase, que vai da virada do século XIX para o século XX, as principais características que marcaram a ação imperialista das potências centrais foram a reatualização das políticas coloniais; a partilha do mundo – em um mundo já partilhado, por isso acirrando o conflito global que levará à primeira guerra mundial –; os monopólios e exclusivismos metropolitanos; as conquistas territoriais e anexações coloniais; e o advento da primazia da exportação de capitais em detrimento da exportação de mercadorias, selando o papel central que vai adquirir o sistema financeiro e a dependência financeira na periferia.

Isso tudo era exercido, prioritariamente, por mecanismos que Marx denominaria de “acumulação primitiva” ou originária de capitais. Ou seja, as nações centrais vão fortalecer o nascente capitalismo lançando mão de práticas não exatamente “capitalistas” ou não exatamente de “mercado”. Ou seja, os instrumentos recorrentes vão ser a coerção, a violência, as anexações territoriais, a pilhagem.

Pós-guerra

No pós-Segunda Guerra, o imperialismo vai se reorganizar menos como colonialismo direto e mais como uma ordem internacional. Surge o que o franco-egípcio Samir Amin chamaria de imperialismo coletivo, em uma alusão ao caráter subordinado que as potências imperialistas da Europa ocidental e do Japão tinham em relação aos EUA. Portanto, um imperialismo coletivo, mas hierarquizado. Para Amin, o imperialismo coletivo se caracteriza pela existência de cinco grandes monopólios: o monopólio da tecnologia, do controle dos fluxos financeiros/mercados globais, do acesso aos recursos naturais, da comunicação e das armas de destruição em massa (poder militar).

Portanto, nesse período o imperialismo vai se expressar, sobretudo, pelo poder do dólar como nova moeda-chave e das instituições multilateriais (Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial) e como poder militar e alianças, selado na construção da Organização do Tratado do Atlântico Norte – Otan e no espraiamento das bases militares americanas.

Em uma frase: no pós-1945, o imperialismo é a expressão externa da necessidade interna do capital monopolista de encontrar saídas para o excedente, combinado com hegemonia político-militar – especialmente dos EUA – e a expansão das corporações e do capital para a periferia. Na caracterização de Paul Baran e Paul Sweezy, o imperialismo do pós-Segunda Guerra é a forma internacional assumida pelo capitalismo monopolista sob hegemonia dos EUA, e ele deve ser entendido a partir de um problema estrutural do próprio centro, que é a tendência à estagnação. Para contornar essa tendência de um crescimento acelerado do capitalismo que gera muito mais “excedente” do que capacidade interna de absorvê-los, o imperialismo irá funcionar como uma válvula externa de absorção desse excedente, principalmente via exportações de capitais (sobretudo investimento direto e financeiro para a periferia), expansão das grandes corporações e pela apropriação do excedente da periferia, que se dá, em especial, por lucros repatriados, controle de setores estratégicos e pela troca desigual.

Imperialismo contemporâneo

Por fim, há a fase contemporânea do imperialismo, que vem se desenvolvendo dos anos 1970 para cá. O primeiro ponto, mais uma vez, foi o poder do imperialismo estadunidense através do controle do dólar. O aumento da taxa de juros dos títulos americanos, em 1979, e a valorização subsequente do dólar levou a um movimento de enquadramento dos aliados dos EUA e de penalização da periferia, através do que ficou conhecido como crise da dívida externa.

O imperialismo contemporâneo também vai se estruturar a partir da reestruturação produtiva e da emergência das cadeias globais de valor, ou, na expressão de Itan Suwandi, nas “cadeias de valor trabalho”, que tem como objetivo a arbitragem do valor da força de trabalho e o aumento da superexploração. Parto da análise feita por Ellen Wood, para quem o imperialismo não terminou nem se enfraqueceu pela sua nova conformação “sem colônias”. De acordo com a autora, a ausência relativa de ocupações territoriais, que se mantém atualmente, não significa o fim do imperialismo, mas – justamente – a emergência da forma mais avançada de imperialismo especificamente capitalista.

Enquanto no período ainda de desenvolvimento do capitalismo o imperialismo comportava-se com uma faceta correlata a explorações de tipo extra econômica, no período atual – de maturidade do capitalismo – os mecanismos próprios de mercados são muito mais proeminentes que a exploração extraeconômica, o que não limita nem enfraquece o imperialismo, só o que ressignifica em um contexto de maturidade capitalista.

A revisão aos clássicos sugere que a forma prioritária de recorrência a formas de extração de mais valor extraeconômicas estava em consonância com um tempo histórico no qual o capitalismo ainda não tinha adquirido sua maturidade, no que diz respeito às operações das suas leis gerais em escala global.

IHU – Um conceito correlato é o de “globalização”. Qual a relação entre as categorias de imperialismo e globalização e como elas têm explicado as relações entre os países no mundo contemporâneo?

Juliane Furno – Essa questão me lembra que uma vez li um texto que o economista marxista indiano Prabhat Patnaik, escreveu no fim da década de 1990. Ele formulou críticas contundentes a setores da esquerda pelo relativo abandono e/ou pela substituição da categoria “imperialismo” pela de “globalização”.

Concordo que a questão não é meramente semântica. O esvaziamento dessa categoria – que mobilizou gerações de revolucionários desde o fim do século XIX – significou, em grande medida, a legitimação de um projeto de dominação cujo êxito se amplia precisamente quando seus mecanismos permanecem obscurecidos. Globalização pode ser até compreendida como uma das subfases do imperialismo contemporâneo, ou mesmo um dos seus mecanismos, sobretudo no aspecto financeiro, mas jamais substituirá a noção de imperialismo, que transcende a era da globalização, que por sinal está em xeque exatamente por força do novo imperialismo estadunidense.

IHU – Donald Trump e Marco Rubio têm discursos contundentes contra países fora o eixo EUA-Europa. Que tipo de imperialismo temos testemunhado no governo Trump?

Juliane Furno – A era Trump – entendida aqui como o ciclo político inaugurado em 2016 e radicalizado a partir do segundo mandato, assim como o conjunto de práticas e coalizões sociais e ideológicas que o sustentam – evidencia uma inflexão do paradigma anterior de exercício da hegemonia imperialista que foi erigida no pós-Segunda Guerra Mundial e a aceleração de uma ofensiva restauradora global.

O trumpismo reconfigura o estilo da hegemonia norte-americana, deslocando a ênfase da liderança liberal-multilateral para um modelo de dominação transacional e coercitiva, com maior centralidade de tarifas, sanções, recuperação da pungência econômica, militarização e contenção tecnológica. Não se trata de retorno simples ao protecionismo clássico, mas de um uso geoeconômico de instrumentos de Estado em um capitalismo já profundamente globalizado, financeirizado e tecnologicamente monopolista.

Quando nascem os monstros

As características centrais da atual fase do capitalismo global podem ser definidas, em termos gramscianos, como um período de “interregno”, que pode ser lido como um momento de prolongada crise política e crise de hegemonia, no qual o antigo equilíbrio vai se desfazendo enquanto o novo ainda não tomou forma. Na era Trump nós estamos sendo testemunhas oculares dos estertores da hegemonia dos EUA e dos últimos espasmos de um poder que já não sabe mais persuadir, apenas punir.

Por isso, a ascensão de Donald Trump não é apenas um desvio acidental, mas uma expressão política do esgotamento da hegemonia americana, caracterizado por um modelo que já não consegue mais produzir o que produziu no seu período dourado: estabilidade, previsibilidade e legitimidade. Quando a potência hegemônica não consegue mais organizar o sistema, falamos em “império em declínio”, com toda a ressalva de que tal afirmação não significa a anunciação de um colapso. Significa, entretanto, o reconhecimento de uma perda de capacidade de estabilizar, organizar e legitimar a ordem internacional. O uso desmedido de instrumentos econômicos e, sobretudo, militares, tais como as ações recentes envolvendo Venezuela, Irã e as possíveis ofensivas já anunciadas sob Cuba, Groenlândia, México e Colômbia, são o prenúncio de uma inflexão imperialista que busca retomar, pela força, o que anteriormente se organizava em bases mais consensuais.

IHU – Qual é a “cara” do imperialismo hoje?

Juliane Furno – A “cara” do imperialismo hoje, como já mencionei, é menos a ocupação colonial direta e as ações militares, embora ela ainda exista e tenha ganhado proeminência na atualidade, e mais um sistema de comando e de captura do excedente global que combina cadeias produtivas transnacionais, mecanismos de transferência de valor da periferia ao centro, monopólios tecnológicos e de propriedade intelectual, poder financeiro-dólar e coerção geoeconômica/militar.

O núcleo “produtivo” e “econômico” aparece como um processo de arbitragem global do trabalho, que ocorre no processo de deslocamento da força de trabalho para os locais onde ela é mais barata e vulnerável, enquanto o valor (lucro) é apropriado onde estão as grandes marcas, o design, as finanças e propriedade intelectual. É um processo em que a produção é feita na periferia, mas o valor vai ser contabilizado no PIB dos países em que estão localizadas as grandes empresas. É a tese do John Smith sobre “global labor arbitrage”, “superexploração” e “ilusão do PIB” como relação predominante no imperialismo contemporâneo.

Monopólios

Outra dimensão contemporânea, já parcialmente explicitada acima, é a fase de fortalecimento dos monopólios que geram, por sua vez, rendas de monopólios e reforçam hierarquias, como o domínio tecnológico (incluindo patentes), o controle financeiro, o acesso a recursos naturais, o controle da comunicação e superioridade militar.

Isso ajuda a explicar por que ter indústria ou mesmo sem um país industrializado não basta, já que sem controle dos nós estratégicos, como tecnologia/finanças/padrões, o país pode produzir muito e capturar pouco.

Há também, a partir da leitura do autor Michael Hudson, uma faceta financeira que fortalece e redefine o imperialismo contemporâneo. Podemos caracterizar como um imperialismo de endividamento e de manutenção de uma arquitetura financeira coercitiva. Portanto, há uma forma do imperialismo que está centrada na capacidade dos EUA de financiar seus déficits gêmeos (na conta corrente e no resultado primário), via sistema dólar, convertendo a arquitetura monetária atual em um mecanismo de transferência de valor e de disciplinamento sob os países periféricos.

Na prática contemporânea, isso se soma ao uso de sanções, compliance, leis anticorrupção e extraterritorialidade, que transformam as finanças em instrumento geopolítico de coerção e extração de valor.

Por fim, há um tema bastante novo, mas com potencial de desenvolvimento que é o da disputa por tecnologias críticas, tais como chips, IA, dados, plataformas e outras tecnologias que já viraram parte do comando imperial. Portanto, quem controla a infraestrutura digital e a propriedade intelectual também controla os termos de inserção, assim como a vigilância, impõe dependência tecnológica e captura o valor.

IHU – Em que medida, no contexto latino-americano, o anti-imperialismo continua sendo uma luta das esquerdas nacionais e a partir de que ponto essa luta deixou de ser travada?

Juliane Furno – Dentro de uma tradição teórica que vem dos movimentos de libertação nacional latino-americanos, o anti-imperialismo na América Latina continua sendo uma pauta estrutural porque a própria luta de classes não se esgota no interior do Estado-nação dependente, incluindo, necessariamente, a disputa contra os mecanismos externos que bloqueiam o pleno exercício da soberania e do desenvolvimento. O imperialismo molda uma estrutura desigual entre centro e periferia, por isso a luta de classes nos países dependentes passa, necessariamente, pela centralidade da questão nacional, articulando dimensões anti-imperialistas e anticapitalistas.

O nacionalismo na periferia do capitalismo não é uma pauta conservadora, muito menos abstrata. É a disputa concreta por margem de decisão sobre moeda, finanças, política industrial, tecnologia, energia, recursos naturais e integração regional, ou seja, é ampliar a soberania sobre como se organiza a reprodução social e a acumulação num país dependente. A questão nacional, especialmente latino-americana, não nega o caráter classista da luta política, é exatamente a afirmação da luta classe por conectar dominação interna e externa. Todas as revoluções latino-americanas (mexicana, cubana, salvadorenha, nicaraguense) foram feitas sob as consignas nacionais e, por isso mesmo, desafiaram o imperialismo e o capitalismo.

Sobre a segunda parte da questão, não é que o anti-imperialismo tenha desaparecido completamente, mas ele deixou de ser o eixo organizador hegemônico em partes importantes da esquerda latino-americana a partir de uma virada histórica bem identificável, que podemos situar no início da década de 1990. Com a derrota/encerramento de ciclos revolucionários, o colapso do socialismo real e a hegemonia do “não há alternativa” ou “fim da história”, muitas esquerdas migraram para estratégias de governabilidade, com foco em políticas sociais e democratização, frequentemente aceitando o núcleo duro da integração subordinada (financeira/comercial/tecnológica).

IHU – Quais são ou deveriam ser as principais lutas anti-imperialistas no contexto brasileiro?

Juliane Furno – As principais lutas anti-imperialistas no Brasil tendem a aparecer como lutas por soberania material, ou seja, por capacidade concreta de decidir sobre o excedente, investimento, tecnologia e território e não apenas como retórica diplomática.

Do ponto de vista mais macroeconômico, penso que o Brasil deve reduzir os canais pelos quais o excedente produzido internamente seja apropriado pelas potências imperialistas. Isso envolve uma política macroeconômica e cambial que preze pela autonomia, evitando as amarras permanentes sobre a definição da taxa de taxa e de juros.

Penso também que devemos, de forma contundente, enfrentar a financeirização e a vulnerabilidade externas, impondo controles domésticos sobre os fluxos de capitais, sobre a dívida e revendo a mecânica das remessas de lucro.

Por fim, equipar o Estado de capacidade e autonomia política, voltando a falar e a exercitar a capacidade de planejamento, guiado por uma perspectiva de projeto de Brasil, pautando em transformações estruturais.

Outro ponto que acho que concretiza a luta anti-imperialista no Brasil é a defesa do controle sobre as commodities estratégicas, cada vez mais disputadas em tempos de transição ecológica e energética. Por isso, penso que devemos ousar em uma política petrolífera e energética nacionalista, fortalecendo a exploração nacional e voltando a reafirmar o papel estratégico da Petrobras e da Eletrobras. No campo da mineração essa pauta será ainda mais central, especialmente no campo das terras raras e de outros minerais essenciais.

Finalmente, creio ser fundamental avançar na integração latino-americana, para que a luta anti-imperialista tenha um bloco sólido de retaguarda. A integração produtiva e de infraestrutura regional é um passo importante, assim como coordenação financeira/comercial para aumentar as margens de manobra da região e a consolidação de uma plataforma de política externa não subordinada, intensificando a diversificação de parceiros políticos e comerciais.

IHU – Quais os riscos para o Brasil, no caso da eleição de candidatos de direita ou extrema-direita, de voltarmos a uma condição política de subserviência aos interesses imperialistas?

Juliane Furno – Uma vitória da extrema-direita tende a recolocar o Brasil numa posição de maior subserviência, com mecanismos concretos de política econômica, externa, ambiental e de segurança. Um risco é a troca de uma diplomacia mais autônoma por um alinhamento ideológico automático e subordinado. Isso pode levar a mais tensões no campo do esvaziamento do multilateralismo, pode levar a um isolamento regional e também há o risco de adesão a agendas que reduzem a nossa margem de manobra, especialmente no campo produtivo e comercial.

Do ponto de vista da estrutura produtiva brasileira, há risco de agravamento da reprimarização da economia brasileira, levando a uma maior vulnerabilidade aos ciclos econômicos. Podemos falar também sobre a agenda de privatização, que reduz as capacidades de edificação de um projeto nacional de desenvolvimento.

IHU – Negri e Hardt cunharam o conceito de Império. Qual a diferença entre esta categoria e a de imperialismo e qual sua atualidade?

Juliane Furno – Negri e Hardt, no seu livro Império apregoaram que a categoria imperialismo teria ficado obsoleta porque o capitalismo teria se mundializado a ponto de transcender o Estado-nação. Assim, a soberania dos países já não repousaria tanto nos Estados, e o poder político e econômico teria se deslocado destes para as grandes corporações, com atuações e interesses transnacionais. Essa ideia torna anacrônica a disputa imperialista conduzida por Estados nacionais que teria caracterizado a noção de imperialismo.

Portanto, esses autores constatam que as soberanias nacionais foram desterritorializadas e agora apresentam-se em redes. Há ainda um papel para os Estados nacionais, mas menos potente que as corporações e, principalmente, os organismos multilaterais, o que daria ao império uma ideia de “governança global” compartilhada.

Nessa leitura, a categoria imperialismo declina junto com a de Estado-nação. O imperialismo teria sido uma ideia apropriada para a época moderna do capitalismo. Na pós-modernidade, diferentemente dos conflitos interimperiais clássicos e empresas atendendo e atuando através dos seus Estados nacionais, o que há é uma ordem global relativamente integrada, o que eles chamam de império, e os conflitos foram reconfigurados. Nessa nova ordem as desigualdades estruturais teriam sido mais diluídas, na medida em que a periferia também está no centro.

Na minha avaliação crítica dessa noção, a divisão econômica do mundo não apenas se manteve, mas também se aprofundou. Os Estados centrais seguem sendo centrais e seguem sendo imperialistas. A governança global não foi substituída pelos organismos multilaterais, basta ver o papel patético e inoperante que, hoje, cabe à ONU.

Além disso, a ideia de fim do imperialismo foi, justamente, proclamada quando a realidade acirrou um conjunto de guerras, golpes e pressões políticas externas. Portanto, repito, o mundo não passou pela preponderância de uma governança difusa, ele seguiu tendo instrumentos militares e, sobretudo, estatais muito claros.

Na filiação leninista que eu assumo, o imperialismo é a forma política do capitalismo quando este atinge o estágio de concentração/centralização de capitais e de oligopolização/monopolização. Portanto, enquanto houver capitalismo nessa fase histórica, haverá imperialismo.

IHU – É possível pensar o anti-imperialismo a partir de uma perspectiva decolonial e da autonomia dos povos?

Juliane Furno – O imperialismo não é só uma “política externa”, mas um sistema de dominação que organiza hierarquias globais e produz subordinação por mecanismos econômicos, políticos e militares. Nessa chave de leitura, o anti-imperialismo é uma luta por autonomia e autodeterminação dos povos, ou seja, sobre a capacidade dos povos decidirem sobre o uso do seu território, sobre o excedente do trabalho social, sobre o emprego de tecnologias e de formas de vida.

A luta pela “autodeterminação” dos povos foi um dos temas centrais que mobilizou a reflexão e a polêmica entre diversos marxistas no contexto da II Internacional Socialista. Lenin foi o vencedor desse debate, apontando a centralidade das lutas anticoloniais e por autodeterminação dos povos, inclusive em contrariedade a importantes teóricos marxistas como Bukharin e Rosa Luxemburgo.

Sobre a perspectiva decolonial, eu não trabalho com essa categoria ou nessa filiação teórica. Sou marxista, parto da crítica da economia política e, embora eu acredite que a colonização e as lutas anticoloniais são centrais, a perspectiva decolonial tende a privilegiar elementos, como epistemologias e cosmovisões, os quais eu não aprofundo.

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