Os mistérios mais atraentes da neurobiologia vegetal são os que questionam as categorias do pensamento moderno. Entrevista especial com Guilherme Soares

“A memória sem cérebro desafia a associação quase automática entre memória e sistema nervoso central”, exemplifica o pesquisador

Foto: PxHere

Por: Patricia Fachin | 08 Janeiro 2026

Longe de ser um campo de estudo estritamente biológico, que busca entender como as plantas captam, processam e respondem às informações do ambiente, a neurobiologia vegetal reflete um “sintoma mais amplo das tensões contemporâneas em torno dos limites do humano, do vivo e do pensável”, afirma Guilherme Soares, autor da pesquisa Neurobiologia das plantas: uma perspectiva interespecífica sobre o debate, desenvolvida na Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Segundo ele, a discussão em torno de se e como as plantas aprendem, ajustam respostas, tomam decisões ou otimizam funções – atividades que parecem particularmente humanas –, não é sustentada apenas em observações empíricas, mas em “disputas semânticas com consequências ontológicas”. Nesse sentido, assegura, “falar em neurobiologia das plantas significa entrar deliberadamente numa zona de fricção conceitual”.

As divergências na área envolvem disputas entre tendências teóricas conflitantes, mas a principal controvérsia, na avaliação de Soares, é ontológica e, consequentemente, de narrativas. “Trata-se de decidir que tipo de entidade uma planta pode ser: um conjunto de mecanismos fisiológicos otimizados pela seleção natural, ou um organismo ativo, sensível, dotado de comportamentos integrados e modos próprios de relação com o mundo. Nesse sentido, o debate sobre as correntes teóricas da neurobiologia das plantas é, no fundo, um debate sobre os limites da imaginação científica. Até onde estamos dispostos a ir na ampliação de nossos conceitos para acompanhar formas de vida radicalmente diferentes da humana? Que tipos de agência reconhecemos como legítimos? Que narrativas aceitamos como científicas? A neurobiologia das plantas não oferece respostas definitivas a essas perguntas, mas tem o mérito de recolocá-las no centro da discussão, tensionando os pressupostos mais arraigados do pensamento moderno sobre o vivo”, esclarece.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Guilherme Soares apresenta as principais correntes teóricas da neurobiologia vegetal. Para ele, o ponto fundamental nesta discussão consiste em observar que “a controvérsia não opõe simplesmente ciência ‘rigorosa’ a especulação metafórica. Ela revela uma disputa mais profunda sobre o que conta como explicação legítima, sobre os limites do naturalismo moderno e sobre quem tem autoridade para definir os termos através dos quais a vida vegetal pode ser conhecida”. E acrescenta: “Trata-se também de uma controvérsia sobre narrativas: narrativas reducionistas, centradas em células e genes, versus ‘narrativas mais ricas’, orientadas ao organismo, ao comportamento e aos modos de relação”.

Soares também reflete sobre a relevância das florestas para enfrentar os desafios do novo regime climático. Sem discordar da centralidade delas, o pesquisador acrescenta que “salvar florestas sem garantir os direitos territoriais dos povos que as habitam, sem reconhecer seus conhecimentos e sem transformar radicalmente nossas formas de produção, consumo e relação com o mundo vivo, é apenas adiar o colapso”.

Guilherme Soares (Foto: Arquivo Pessoal)

Guilherme Soares é graduado em Ciências Sociais e mestre e doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Há 13 anos é pesquisador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI).

Confira a entrevista.

IHU – Como surgiu seu interesse em estudar a neurobiologia das plantas?

Guilherme Soares – Minha trajetória intelectual nunca se organizou em linha reta. Sou formado em ciências sociais, com mestrado e doutorado em antropologia social pela Universidade Federal do Amazonas. Minha formação se construiu, desde o início, em diálogo com a etnologia amazônica, com os debates sobre ontologias indígenas e com a crítica às separações modernas entre natureza e cultura. Foi no Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI) e nos trabalhos que desenvolvi ainda na graduação que as plantas começaram a aparecer para mim não como cenário, mas como agentes centrais em cosmologias, práticas xamânicas e regimes de conhecimento indígenas – ora como mediadoras de cura, ora como seres perigosos, dotados de intenções e capacidades próprias.

Foi nesse terreno que se formou minha atenção inicial às plantas enquanto alteridades radicais: seres cuja vida complexa escapa facilmente às categorias do pensamento ocidental moderno. No entanto, o deslocamento decisivo que me levou, no mestrado, a estudar a chamada neurobiologia das plantas não veio apenas da etnografia amazônica, mas do encontro – inicialmente quase fortuito – com um debate pouco conhecido fora das ciências biológicas.

Ao tomar conhecimento de pesquisas que atribuíam às plantas capacidades como percepção, memória, comunicação, aprendizado e comportamento inteligente, reconheci uma estranha ressonância entre essas proposições científicas contemporâneas e aquilo que a antropologia vinha aprendendo com as ontologias indígenas e, mais recentemente, com as etnografias multiespécies. O que parecia, à primeira vista, um campo estritamente biológico revelou-se rapidamente um terreno fértil de controvérsias epistemológicas, disputas conceituais e compromissos ontológicos divergentes.

Foi a partir desse incômodo produtivo que nasceu minha dissertação de mestrado, Neurobiologia das plantas: uma perspectiva interespecífica sobre o debate (HENRIQUES SOARES, 2018), posteriormente desdobrada no artigo homônimo publicado na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (SOARES, 2018). Mais do que tomar partido a favor ou contra a neurobiologia das plantas, o trabalho se propôs a mapear o debate, identificar suas tensões internas e explorar a hipótese de que essas controvérsias poderiam sugerir modos alternativos de acessar e enunciar a perspectiva das próprias plantas.

Esse percurso foi profundamente marcado pelo diálogo com uma bibliografia interdisciplinar ampla, que atravessa a fisiologia vegetal, a biologia molecular, a ecologia, a filosofia da ciência, a antropologia e os estudos multiespécies, mobilizando autores clássicos e contemporâneos como Charles Darwin, Wilhelm Pfeffer, Julius von Sachs, Anthony Trewavas, Frantisek Baluška, Stefano Mancuso, Carla Hustak e Natasha Myers, entre muitos outros. Mas esse trabalho não se construiu apenas nos livros.

Um momento decisivo dessa trajetória foi minha aproximação com os pesquisadores do Laboratório de Estudos de Plantas sob Estresse (LEPSE), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP). A convivência, ainda que breve, com os pesquisadores do laboratório – em especial com aqueles diretamente envolvidos com experimentos em eletrofisiologia vegetal – me ofereceu não apenas um contato direto com práticas científicas inspiradas pela neurobiologia das plantas, mas também a oportunidade de observar como as controvérsias que eu vinha mapeando teoricamente encontravam ressonância concreta no cotidiano do laboratório: nas escolhas metodológicas, nas relações entre cientistas e plantas e nas próprias dúvidas que atravessam a prática científica.

IHU – O que significa falar em neurobiologia das plantas?

Guilherme Soares – Falar em neurobiologia das plantas significa entrar deliberadamente numa zona de fricção conceitual. Desde o início, tanto no artigo quanto na dissertação, procurei deixar claro que o termo não descreve simplesmente um novo conjunto de fatos empíricos, mas inaugura – ou reabre – uma controvérsia científica, epistemológica e ontológica. Durante muito tempo, pensamos as plantas como pano de fundo: um verde indiferenciado contra o qual a vida verdadeiramente interessante – animal, humana, consciente – se desenrolaria. Elas estavam ali, silenciosas, imóveis, obedientes. Se reagiam, era por reflexo. Se cresciam, era por programa. Se sobreviviam, era por adaptação cega.

Falar em neurobiologia das plantas é interromper esse conforto. Não porque as plantas tenham neurônios ou cérebros como os nossos – isso é um falso problema –, mas porque elas percebem, integram e respondem ao mundo de maneira complexa, contínua e situada. O que esse campo propõe é uma mudança de foco: sair da célula isolada, do gene soberano, da máquina molecular, e acompanhar o organismo vegetal em sua totalidade viva, atravessada por sinais elétricos de longa distância, transporte hormonal, fluxos hidráulicos e redes químicas complexas.

Ao nomear esse conjunto como “neurobiologia”, os proponentes do campo acionam deliberadamente uma metáfora forte, não para antropomorfizar as plantas de forma ingênua, mas para chamar atenção para processos que vinham sendo subestimados ou fragmentados pelas abordagens reducionistas clássicas. Talvez o desconforto que esse termo provoca venha exatamente daí: para entender as plantas, precisamos abandonar a ideia de que pensar é algo que acontece apenas na cabeça.

IHU – Como explicaria o modo como as plantas funcionam?

Guilherme Soares – Ao contrário dos animais, as plantas não organizam suas respostas em torno de um centro nervoso. Elas funcionam como redes distribuídas, altamente descentralizadas, nas quais múltiplos tecidos e regiões participam simultaneamente da percepção e da resposta ao ambiente. Uma planta não possui centro – e isso não é uma limitação, mas uma potência.

Seu funcionamento ocorre por redes: raízes, folhas, vasos condutores, tecidos sensíveis. Cada parte percebe algo do mundo e responde a partir dessa percepção. O crescimento, aqui, não é apenas consequência, é decisão encarnada. Uma raiz contorna a pedra. Uma folha ajusta seu ângulo. Um caule redistribui energia. Nada disso acontece por acaso, tampouco por comando central. A planta pensa crescendo.

Na dissertação, ao dialogar com autores como Baluška, Mancuso e Trewavas, procurei mostrar que esse funcionamento exige uma mudança de escala analítica. Não basta olhar para genes isolados ou células individuais. É preciso acompanhar fluxos, ritmos, integrações. A planta “funciona” como um organismo que sente o mundo através do corpo inteiro, ajustando-se continuamente às condições locais e globais em que está inserida. Trata-se de uma forma de inteligência que não se separa do corpo nem do ambiente, e que responde no contato, por acoplamento, e não por representação.

IHU – O que significa dizer que as plantas têm um comportamento inteligente?

Guilherme Soares – Essa talvez seja a afirmação mais controversa do campo. No meu trabalho, sempre insisti que o desacordo aqui não é empírico, mas conceitual. Quando se diz que plantas são inteligentes, a reação costuma ser defensiva, como se algo estivesse sendo retirado dos humanos. Mas o que está em jogo não é a elevação das plantas – é o rebaixamento de uma definição excessivamente estreita de inteligência.

Se inteligência for definida exclusivamente a partir de critérios antropocêntricos, como consciência reflexiva, intencionalidade ou representação simbólica, então, evidentemente, plantas não são inteligentes. Mas essa definição é histórica, situada e profundamente limitada. Autores centrais no debate, como Anthony Trewavas, propõem entender inteligência como crescimento e desenvolvimento adaptativamente variáveis ao longo do tempo, capazes de resolver problemas colocados pelo ambiente.

Sob essa definição, plantas demonstram comportamentos claramente inteligentes: aprendem com experiências passadas, memorizam estresses, reconhecem parentes, antecipam ameaças, cooperam por vias subterrâneas e modulam respostas futuras conforme o contexto. Nada disso exige consciência reflexiva. Exige sensibilidade, memória incorporada e tempo. Talvez o incômodo venha do fato de que essa inteligência não se reflete em espelhos. Ela não se reconhece, não se nomeia, não se representa. Ela simplesmente acontece.

Minha contribuição foi mostrar que a recusa dessa linguagem por parte dos críticos está menos ligada à ausência de dados e mais ao medo de que termos como “inteligência”, “decisão” ou “aprendizado” dissolvam fronteiras ontológicas que sustentam o naturalismo moderno.

IHU – Como podemos entender a afirmação de que as plantas são sensíveis?

Guilherme Soares – Quando Stefano Mancuso afirma que as plantas são sensíveis, ele não está falando de uma sensibilidade psicológica ou emocional nos moldes humanos. Trata-se de uma sensibilidade corpórea e relacional. As plantas existem em estado contínuo de afetação. Tudo nelas é interface: a luz, o vento, o toque, a química do solo, a presença de outros corpos. Essa percepção não ocorre em um órgão especializado, mas emerge da integração de múltiplos sinais distribuídos pelo corpo inteiro. Uma planta sente com as raízes, com as folhas, com os vasos, com o ritmo do dia e da noite. Elas não se defendem do mundo fechando-se, mas sobrevivem abrindo-se com precisão.

Na dissertação, associei essa sensibilidade à ideia de atenção vegetal, proposta por autores que buscam deslocar o foco da computação para a responsividade situada. A planta não reage mecanicamente, ela se mantém aberta ao mundo, modulando continuamente sua forma de estar e crescer. Há algo de profundamente antidualista nisso: corpo e ambiente não estão separados, mas acoplados. Talvez por isso essa sensibilidade nos escape, porque estamos habituados a confundi-la com reação imediata. As plantas sentem em outro tempo.

IHU – Em que contexto histórico, científico e cultural surge a neurobiologia das plantas?

Guilherme Soares – A neurobiologia das plantas não surge de forma isolada nem pode ser compreendida apenas como um desdobramento técnico das ciências biológicas. Ela emerge na confluência de transformações históricas, científicas e culturais mais amplas, que colocam em crise certos pressupostos centrais do pensamento moderno sobre a vida.

Em primeiro lugar, seu aparecimento está intimamente ligado a uma crise do reducionismo genético e molecular que marcou boa parte da biologia do século XX. Durante décadas, apostou-se que a vida poderia ser plenamente explicada a partir do DNA, dos genes e de seus mecanismos de regulação. Embora essa agenda tenha produzido avanços inegáveis, tornou-se cada vez mais evidente que ela é insuficiente para dar conta do comportamento dos organismos, especialmente quando se trata de processos distribuídos, integrados e sensíveis ao contexto ambiental. A neurobiologia das plantas emerge justamente nesse momento pós-genômico, em que cresce o interesse por abordagens sistêmicas, por redes de interação, por fluxos de informação e por dinâmicas que atravessam o organismo como um todo, e não apenas suas partes.

Em segundo lugar, esse campo se apoia em um retorno crítico a autores clássicos da botânica e da biologia, frequentemente esquecidos ou simplificados pelas narrativas mecanicistas posteriores. Figuras como Charles Darwin, Wilhelm Pfeffer e Julius von Sachs já descreviam, no século XIX, as plantas como organismos ativos, sensíveis e dotados de comportamento. Darwin, por exemplo, ao investigar os movimentos das plantas, chegou a sugerir que as pontas das raízes funcionariam como centros de coordenação, hipótese que hoje é retomada criticamente por autores ligados à neurobiologia das plantas. O que a historiografia mais recente tem mostrado é que essas visões foram, em grande medida, “domesticadas” por narrativas posteriores que privilegiaram explicações mecanicistas, adaptacionistas e centradas em unidades isoladas.

A neurobiologia das plantas, nesse sentido, não inventa ex nihilo uma nova forma de pensar as plantas, mas reativa e rearticula tradições científicas que haviam sido marginalizadas. Ao fazê-lo, ela se coloca em tensão com um establishment científico ainda fortemente comprometido com princípios como a parcimônia, a desconfiança em relação às metáforas e a defesa de um vocabulário estritamente funcionalista.

Em terceiro lugar, a emergência desse campo precisa ser situada em um contexto cultural mais amplo, marcado pelo questionamento das grandes dicotomias modernas, especialmente aquelas que separam humanos e não humanos, natureza e cultura, sujeito e objeto. Esse contexto inclui debates internos às “ciências naturais” – como aqueles em torno da cognição distribuída, da biologia dos sistemas e da ecologia comportamental – e contribuições vindas de outras áreas do conhecimento, ou as ditas “humanidades”, como as etnografias multiespécies, a filosofia da ciência e as críticas antropológicas ao naturalismo moderno.

Debate atual

É nesse ponto que o debate sobre a neurobiologia das plantas deixa de ser apenas científico e se torna explicitamente epistemológico e ontológico. O conflito atual não se resume à validade ou não de determinados dados experimentais, mas envolve disputas em torno do vocabulário, das metáforas e dos compromissos ontológicos que sustentam diferentes formas de explicar a vida vegetal. O que podemos dizer legitimamente sobre as plantas? Até onde podemos ir ao falar em inteligência, sensibilidade, comportamento ou decisão sem violar certos limites considerados “aceitáveis” pela ciência moderna?

Como procuro argumentar tanto na dissertação quanto no artigo, essas não são questões triviais de linguagem. Cada escolha terminológica implica uma concepção específica do que é um organismo, de como ele se relaciona com o ambiente e de que tipo de agência lhe pode ser atribuída. Por isso, a controvérsia em torno da neurobiologia das plantas é também, necessariamente, antropológica: ela expõe os limites do naturalismo moderno para lidar com formas de vida que não cabem facilmente em suas categorias clássicas e nos obriga a repensar não apenas as plantas, mas os próprios fundamentos a partir dos quais produzimos conhecimento sobre o mundo vivo.

IHU – Que contribuições científicas esse campo tem oferecido?

Guilherme Soares – Mais do que respostas fechadas, a neurobiologia das plantas produziu novas perguntas. Ela recolocou no centro da biologia vegetal temas como comunicação, memória, comportamento e integração sistêmica. Contribuiu para o avanço do estudo dos sinais elétricos em plantas, das redes de comunicação subterrâneas mediadas por micorrizas e da plasticidade do comportamental vegetal.

No meu entendimento, sua principal contribuição é metodológica e conceitual: ela obriga a ciência a considerar o organismo inteiro e seus modos de relação, e não apenas seus componentes isolados. Ao fazer isso, desloca o olhar da planta como objeto para a planta como processo vivo.

IHU – Como a neurobiologia das plantas tem sido abordada interdisciplinarmente?

Guilherme Soares – Desde o início, tratei a neurobiologia das plantas como um campo atravessado por controvérsias, e não como uma disciplina consolidada. Ela envolve fisiologia vegetal, biologia molecular, ecologia, filosofia da ciência, antropologia e estudos multiespécies. Essa interdisciplinaridade não é acessória, mas constitutiva do campo.

Minha própria abordagem foi explicitamente antropológica: mapear tensões, narrativas e compromissos ontológicos implicados no debate. Em vez de decidir quem está certo ou errado, procurei entender o que está em disputa quando cientistas discordam sobre o que as plantas fazem – e sobre como devemos falar delas.

IHU – Quais são as correntes teóricas mais significativas?

Guilherme Soares – Ao mapear o debate em torno da neurobiologia das plantas, identifiquei a presença de duas grandes tendências teóricas, que não se organizam como blocos homogêneos, mas como campos de gravitação em torno de certos problemas, vocabulários e compromissos ontológicos. A controvérsia não se reduz a uma oposição simples entre “a favor” e “contra”, mas envolve diferentes maneiras de conceber o que é um organismo vegetal e como ele pode ser conhecido.

Primeira tendência teórica

A primeira tendência pode ser descrita como computacional-funcional. Nela, as plantas são interpretadas como sistemas distribuídos de processamento de informação, capazes de integrar sinais provenientes do ambiente e produzir respostas coordenadas ao longo do corpo. Autores como Anthony Trewavas, František Baluška, Stefano Mancuso e Eric Brenner operam, com variações importantes entre si, nesse registro.

Nessa perspectiva, conceitos como inteligência, aprendizado, memória e decisão são redefinidos em termos funcionais, afastando-se de associações diretas com consciência ou intencionalidade reflexiva. A inteligência vegetal, por exemplo, aparece como a capacidade de resolver problemas adaptativos ao longo do tempo, por meio de ajustes finos no crescimento, na fisiologia e no comportamento. O interesse central aqui não é equiparar plantas a animais ou humanos, mas demonstrar que muitos processos tradicionalmente associados à cognição podem emergir de sistemas distribuídos, sem centro nervoso ou cérebro. Trata-se, portanto, de uma ampliação do que conta como processamento cognitivo na biologia.

Segunda tendência teórica

A segunda tendência, que dialoga parcialmente com a primeira, mas dela se distingue, pode ser caracterizada como relacional e expressiva. Nessa abordagem, a ênfase se desloca do processamento de informação em sentido estrito para os modos de atenção, de expressão e de relação que as plantas estabelecem com o ambiente e com outros organismos. Aqui, o comportamento vegetal não é pensado apenas como resposta funcional a estímulos, mas como um engajamento situado historicamente e ecologicamente configurado.

Essa vertente se aproxima de debates mais amplos sobre cognição incorporada, ecologia psicológica e, no meu caso, das contribuições das etnografias multiespécies, como as propostas por Carla Hustak e Natasha Myers. A noção de uma “narrativa mais rica”, que mobilizo no artigo, emerge justamente dessa sensibilidade: a ideia de que explicar o comportamento das plantas exige narrativas capazes de acompanhar o organismo em seus modos de relação, e não apenas decompor seus mecanismos internos.

Em contraposição a essas duas tendências, há os críticos da neurobiologia das plantas, como Paul Struik e Richard Firn, que defendem explicações baseadas exclusivamente na fisiologia clássica, na genética e na biologia evolutiva. Esses autores reconhecem a complexidade da vida vegetal, mas rejeitam o vocabulário mobilizado pela neurobiologia das plantas, argumentando que termos como inteligência, decisão ou aprendizado introduzem ambiguidades conceituais desnecessárias, violam o princípio da parcimônia e correm o risco de antropomorfismo.

Controvérsia ontológica

O ponto central, no entanto, é que essa divergência não se limita a uma disputa metodológica ou terminológica. Como procuro demonstrar na dissertação, a controvérsia é fundamentalmente ontológica. Trata-se de decidir que tipo de entidade uma planta pode ser: um conjunto de mecanismos fisiológicos otimizados pela seleção natural, ou um organismo ativo, sensível, dotado de comportamentos integrados e modos próprios de relação com o mundo.

Nesse sentido, o debate sobre as correntes teóricas da neurobiologia das plantas é, no fundo, um debate sobre os limites da imaginação científica. Até onde estamos dispostos a ir na ampliação de nossos conceitos para acompanhar formas de vida radicalmente diferentes da humana? Que tipos de agência reconhecemos como legítimos? Que narrativas aceitamos como científicas? A neurobiologia das plantas não oferece respostas definitivas a essas perguntas, mas tem o mérito de recolocá-las no centro da discussão, tensionando os pressupostos mais arraigados do pensamento moderno sobre o vivo.

IHU – Quais convergências e divergências são mais perceptíveis?

Guilherme Soares – A convergência talvez seja mais ampla do que costuma aparecer nas polêmicas públicas em torno da neurobiologia das plantas. Quando observamos o debate com algum distanciamento – como procurei fazer tanto na dissertação quanto no artigo –, fica claro que nenhum dos grupos envolvidos nega a complexidade da vida vegetal. Não há discordância substantiva quanto ao fato de que plantas percebem o ambiente, respondem a estímulos múltiplos, integram sinais químicos, elétricos e hidráulicos, comunicam-se intra e interespecificamente e exibem um repertório comportamental sofisticado. Nesse ponto, há um acordo de base entre proponentes e críticos da neurobiologia das plantas.

A divergência emerge quando passamos do que as plantas fazem para o como devemos descrever, interpretar e nomear esses processos. É aí que o debate deixa de ser estritamente empírico e se torna profundamente conceitual. Como argumento no artigo, muitas vezes o conflito gira menos em torno dos fenômenos observados e mais em torno do vocabulário mobilizado para explicá-los – e, com ele, dos compromissos epistemológicos e ontológicos que esse vocabulário carrega.

Autores críticos como Struik et al. e Firn, por exemplo, reconhecem a complexidade dos processos de sinalização e resposta das plantas, mas rejeitam terminologias como “inteligência”, “aprendizado”, “decisão” ou mesmo “neurobiologia”, por considerarem que esses termos introduzem analogias excessivas com animais e humanos, violam o princípio da parcimônia e correm o risco de antropomorfismo, como eu disse anteriormente. Para esses autores, as ferramentas clássicas da fisiologia vegetal, da genética e da biologia evolutiva seriam suficientes para explicar os fenômenos em questão, sem a necessidade de recorrer a um léxico que, segundo eles, evocaria consciência, intenção ou vontade própria.

Já os proponentes da neurobiologia das plantas – como Baluška, Mancuso, Eric Brenner e Trewavas – não negam a especificidade vegetal nem defendem uma equivalência direta com sistemas nervosos animais. O que eles colocam em questão é justamente o caráter antropocêntrico e restritivo das definições tradicionais de termos como inteligência, cognição ou aprendizado. Para esses autores, o problema não está nos fenômenos, mas na nossa dificuldade em reconhecer essas capacidades quando elas se expressam de formas radicalmente diferentes das humanas. Daí a defesa de metáforas fortes e analogias funcionais, não como descrições literais, mas como instrumentos heurísticos capazes de abrir novas perguntas e experimentos.

Controvérsias narrativas

Nesse sentido, a controvérsia não opõe simplesmente ciência “rigorosa” a especulação metafórica. Ela revela uma disputa mais profunda sobre o que conta como explicação legítima, sobre os limites do naturalismo moderno e sobre quem tem autoridade para definir os termos através dos quais a vida vegetal pode ser conhecida. Como procuro mostrar na dissertação, trata-se também de uma controvérsia sobre narrativas: narrativas reducionistas, centradas em células e genes, versus “narrativas mais ricas”, orientadas ao organismo, ao comportamento e aos modos de relação, como sugerem Hustak e Myers.

Por isso, afirmo que muitas divergências são, em última instância, disputas semânticas com consequências ontológicas. Discutir se plantas “aprendem” ou apenas “ajustam respostas”, se “decidem” ou apenas “otimizam funções”, não é uma questão trivial de palavras. Cada escolha vocabular implica uma certa concepção do que é um organismo, de como ele se relaciona com o ambiente e de que tipo de agência lhe pode ser atribuída. O debate sobre a neurobiologia das plantas, nesse sentido, não é apenas um debate interno às ciências das plantas, mas um sintoma mais amplo das tensões contemporâneas em torno dos limites do humano, do vivo e do pensável.

IHU – Como esse conhecimento muda nossa percepção sobre as plantas?

Guilherme Soares – Esse conhecimento produz um deslocamento profundo na forma como percebemos as plantas – e, por extensão, na forma como nos situamos em relação ao mundo vivo. O movimento central não é simplesmente passar a “saber mais” sobre as plantas, mas aprender a vê-las de outro modo. Em vez de organismos passivos, recursos naturais ou pano de fundo da vida animal e humana, as plantas passam a aparecer como presenças ativas, dotadas de temporalidades próprias, capacidades relacionais complexas e modos singulares de responder ao ambiente.

Na dissertação e no artigo, procurei mostrar que esse deslocamento implica abandonar uma postura de domínio – típica do naturalismo moderno – e aproximar-se de uma lógica de convivência. Quando reconhecemos que plantas percebem, comunicam-se, lembram experiências e ajustam comportamentos, torna-se cada vez mais difícil sustentá-las como simples objetos de manipulação técnica. O que se altera, portanto, não é apenas a descrição científica, mas o estatuto ontológico que atribuímos às plantas.

Essa mudança de percepção exige uma reeducação sensorial e intelectual. As plantas operam em ritmos que frequentemente escapam à nossa experiência cotidiana: crescem devagar, respondem ao longo de dias, semanas ou estações, integram sinais de forma cumulativa. Acompanhar esses processos exige atenção, paciência e disposição para desacelerar. Não se trata apenas de observar mais, mas de observar de outro modo – acompanhando fluxos, variações, hesitações, ajustes finos.

Implicação ética

Nesse sentido, reconhecer a complexidade da vida vegetal implica também uma ética. Uma ética do cuidado, da escuta e da convivência, que não projeta imediatamente categorias humanas sobre as plantas, mas tampouco as reduz a autômatos silenciosos. Trata-se de aprender a acompanhar sem acelerar, a descrever sem violentar os tempos próprios do vegetal, a reconhecer que nem toda forma de inteligência ou sensibilidade se manifesta de maneira rápida, ruidosa ou centrada.

Por fim, esse conhecimento nos devolve uma pergunta incômoda: se as plantas nunca foram simples pano de fundo, mas sempre estiveram ativamente engajadas na produção das condições de vida no planeta, o que diz sobre nós o fato de termos aprendido a ignorá-las? Talvez a principal transformação que a neurobiologia das plantas promove não esteja nas plantas em si, mas em nós – na maneira como percebemos, narramos e habitamos um mundo compartilhado com outros seres vivos.

IHU – Quais mistérios das plantas ainda chamam sua atenção?

Guilherme Soares – Talvez os mistérios que mais me atraem sejam justamente aqueles que colocam em crise as categorias mais arraigadas do pensamento moderno. A memória sem cérebro, por exemplo, desafia a associação quase automática entre memória e sistema nervoso central. Plantas são capazes de registrar experiências passadas – estresses hídricos, ataques de herbívoros, variações ambientais – e mobilizar essas informações em respostas futuras, sem que isso passe por estruturas análogas às nossas. Trata-se de uma memória incorporada, distribuída pelo corpo, inscrita em tecidos, fluxos e ritmos fisiológicos.

Algo semelhante ocorre com a ideia de decisão. Falar em decisão sem centro – sem um órgão soberano que delibera – nos obriga a pensar em formas de agência que emergem da integração de múltiplos processos locais. A decisão vegetal não é um ato pontual, mas um ajuste contínuo, cumulativo, muitas vezes reversível. O mesmo vale para a comunicação sem linguagem: plantas trocam informações por sinais químicos, elétricos e hidráulicos, por vias aéreas e subterrâneas, sem que isso se organize em códigos simbólicos nos moldes humanos. Mas talvez o mistério mais profundo seja a temporalidade vegetal. As plantas vivem em um tempo que raramente coincide com o nosso. Esse descompasso temporal desafia não apenas nossa percepção, mas também nossas formas de descrição e escrita.

IHU – As florestas podem nos salvar do aquecimento global, como disse recentemente Stefano Mancuso?

Guilherme Soares – Concordo com Stefano Mancuso quando ele afirma que as florestas são fundamentais para o enfrentamento da crise climática, mas gostaria de complementar. Não há dúvida de que as florestas desempenham um papel decisivo na regulação do clima, no ciclo da água, no sequestro de carbono, na manutenção dos solos e na sustentação de uma biodiversidade sem a qual a vida planetária entra em colapso. Qualquer estratégia minimamente séria de enfrentamento das mudanças climáticas passa, necessariamente, pela preservação e recomposição dos sistemas florestais.

No entanto, me parece insuficiente – e até perigoso – imaginar que as florestas, por si só, nos “salvarão”. Esse tipo de formulação corre o risco de manter intacta uma lógica instrumental, na qual as florestas aparecem como soluções técnicas ou serviços ecossistêmicos capazes de compensar os efeitos de um modelo de desenvolvimento predatório, sem que esse modelo seja efetivamente questionado. Nesse sentido, a pergunta não deveria ser apenas se as florestas podem nos salvar, mas como aprendemos – ou não – a habitar as florestas.

Caso brasileiro

No caso brasileiro, essa questão é incontornável. As áreas mais bem preservadas do território nacional coincidem, de forma consistente, com as Terras Indígenas e com os territórios ocupados por povos originários e populações tradicionais. Isso não é um efeito colateral, nem uma coincidência histórica, mas o resultado direto de modos específicos de relação com o ambiente, baseados em formas de manejo, uso e ocupação que reconhecem a floresta como um sistema vivo, relacional e historicamente construído. A conservação da sociobiodiversidade no Brasil não pode ser dissociada da presença ativa desses povos e de seus regimes próprios de conhecimento, territorialidade e cuidado. Portanto, é preciso reconhecer que florestas não são apenas conjuntos de árvores ou estoques de carbono, mas paisagens habitadas, produzidas ao longo de gerações por interações complexas entre humanos e não humanos. Florestas são sistemas cooperativos, distribuídos, sem centro, baseados em interdependência, comunicação silenciosa e ajustes finos entre múltiplos organismos – incluindo, de forma decisiva, seres humanos.

A neurobiologia das plantas contribui para essa reflexão ao mostrar que os sistemas vegetais não são passivos, mas ativos, sensíveis e estrategicamente ajustados ao ambiente. No entanto, sem o diálogo com os conhecimentos indígenas e tradicionais – que há muito reconhecem a agência das plantas, das florestas e dos territórios – essa contribuição corre o risco de permanecer incompleta ou capturada por soluções tecnocráticas. Salvar florestas sem garantir os direitos territoriais dos povos que as habitam, sem reconhecer seus conhecimentos e sem transformar radicalmente nossas formas de produção, consumo e relação com o mundo vivo, é apenas adiar o colapso.

Talvez, mais do que esperar que as florestas nos salvem, o desafio posto seja outro: reaprender com aqueles que nunca deixaram de viver com elas.

IHU – O que o ser humano poderia aprender com as plantas?

Guilherme Soares – Talvez as plantas nos ensinem, antes de tudo, a viver sem centro. A existir sem um comando único, sem a necessidade de controle absoluto. Elas persistem sem pressa, ajustam-se continuamente às circunstâncias, cooperam sem hierarquia explícita, sem líderes, sem planos gerais.

As plantas mostram que inteligência não precisa ser ruidosa, veloz ou espetacular. Ela pode ser silenciosa, distribuída, quase imperceptível. Existir, nesse registro, é um exercício contínuo de ajuste: inclinar-se quando necessário, resistir quando possível, recuar sem desaparecer. Há aí uma lição profunda para uma humanidade acostumada a associar inteligência à aceleração, à expansão e ao domínio.

IHU – Ainda não fomos educados para conviver com elas?

Guilherme Soares – De modo geral fomos educados para ignorá-las. Para vê-las como pano de fundo, recurso, matéria-prima ou paisagem. Desde cedo, aprendemos a reconhecer animais carismáticos, a nomear estrelas distantes, a valorizar máquinas complexas – mas raramente aprendemos a prestar atenção às plantas que sustentam silenciosamente nossas vidas.

Recuperar essa convivência exige uma reeducação profunda. Reaprender a perceber, a esperar, a escutar. Exige outra política da atenção, menos orientada à exploração e mais à convivência. Não se trata de romantizar as plantas, mas de reconhecer que nossa sobrevivência está intrinsecamente ligada à capacidade de habitar um mundo compartilhado com outros seres vivos.

IHU – Deseja acrescentar algo?

Guilherme Soares – Talvez apenas isto: estudar plantas me ensinou que pensar não é apenas um ato mental. Pensar pode ser crescer, inclinar-se, resistir ao vento e insistir na luz. Pode ser persistir sem pressa, ajustar-se sem desaparecer.

Talvez seja isso que este tempo nos pede, menos explicação e mais atenção. Menos controle e mais escuta. Menos ruído, mais raízes.

Leia mais