“Não podemos mais ignorar o debate sobre a redução da jornada de trabalho porque funciona para muitas empresas”. Entrevista com Pedro Gomes

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15 Agosto 2022

 

O debate sobre a redução da jornada de trabalho continua tomando forma em cada vez mais países e empresas. Na Espanha, dois projetos-piloto vão incentivar, por iniciativa das instituições, que várias empresas tentem reduzir as horas trabalhadas de seus funcionários sem reduzir o salário, subsidiando melhorias de produtividade ou o que as empresas acharem conveniente para analisar posteriormente o impacto dessas melhorias combinadas com a redução. Os argumentos a favor dessa redução giram em torno de fatores ambientais, de gênero e cuidado, de saúde mental e trabalhista, mas os fatores produtivos ou de melhorias na rentabilidade são muitas vezes deixados em segundo plano, argumentos que os empregadores muitas vezes precisam ouvir para que haja progresso e mudar o paradigma das longas semanas de trabalho.

 

A entrevista é de Iago Álvarez Barba, coordenador da Seção de Economia, publicada por El Salto, 11-08-2022. A tradução é do Cepat.

 

Com esta intenção, para demonstrar que a redução da jornada de trabalho também é benéfica para as empresas e para o bom funcionamento da economia, Pedro Gomes escreveu Friday is the New Saturday: How a Four-Day Working Week Will Save the Economy (Sexta-feira é o novo sábado: como uma semana de trabalho de quatro dias salvará a economia).

 

Gomes é o economista português, professor da Birkbeck University of London, que projetou a forma de abordar a semana de quatro dias úteis e três fins de semana, mostrando que não se trata apenas de uma questão ecológica ou social, mas que é necessário para que a economia avance nas próximas décadas.

 

Eis a entrevista.

 

A primeira pergunta é obrigatória: por que reduzir a jornada de trabalho? O que isso melhoraria?

 

Porque a economia vai melhorar. É uma inovação social, uma forma melhor de organizar a economia no século XXI. Acredito nos argumentos sobre bem-estar e felicidade, o componente de gênero, o meio ambiente e que temos que viver a vida. Mas deixo tudo isso de lado, porque o grande ceticismo que existe em relação a esse assunto está no fator econômico. Por isso escrevi meu livro, para explicar que a economia vai melhorar com a redução da jornada de trabalho, que ela nunca será prejudicada, e para demonstrar que é a melhor forma de organização econômica para os tempos atuais.

 

 

Já se passaram mais de 50 anos desde que tornamos normal a semana de cinco dias, e veja o quanto a sociedade mudou. A tecnologia que usamos, o digital, a velocidade da comunicação que existe agora e o tipo de trabalho que fazemos. Antes havia mais trabalhos de fábrica com trabalho mais intenso em termos físicos, mas agora há muitos trabalhos que exigem mais esforço mental e intelectual. A duração das nossas vidas, a estrutura da família ou o papel das mulheres também mudaram. Tudo é diferente, mas continuamos a organizar a economia da mesma forma. Trabalhamos cinco dias como se fosse uma constante matemática, quando na realidade é uma construção social, política e econômica, razão pela qual devemos adaptar essa jornada à tecnologia, à sociedade ou à economia. Todas essas mudanças estruturais, que estão 50 anos atrasadas, tornam obsoletas a organização da economia em uma semana de cinco dias. Uma jornada de quatro dias é muito melhor.

 

Se levarmos isso para o terreno, o que você diria a um empresário? Como você o convenceria de que ele deve reduzir a jornada de trabalho?

 

Se eu falasse para os empresários, diria que vão melhorar seus negócios. Eles farão isso porque seus trabalhadores estarão mais descansados e, portanto, podem trabalhar mais intensamente. Reduz-se o absenteísmo, que tem muitos custos; reduz-se a rotatividade de trabalhadores; reduzem-se os custos do processo de produção quando esses processos são melhorados; reduzem-se os acidentes de trabalho e melhora-se a gestão também. É uma oportunidade de fazer as coisas melhor, mas fazer melhor significa uma maior intensidade do emprego para os trabalhadores. E o que você está fazendo? Você não lhes dá nada em troca? Eles não vão aceitar isso.

 

Depois, há outro fator que é estrutural econômico: para consumir você precisa de dinheiro, mas também de tempo. Quando você tem tempo livre vai ao cinema, vai ao teatro, viaja mais etc. Imagine o que significaria para a Espanha se a jornada de quatro dias fosse assumida em toda a Europa. Muitos europeus viriam nos fins de semana de três dias para passá-los na Espanha.

 

Você defende uma implementação por parte do governo da jornada de quatro dias, ou seja, que o Estado que lance as bases e demarque as linhas de como deve ser feito. De que maneira?

 

Mesmo os pensadores mais liberais, como Hayek, defendiam que uma das poucas coisas que o Estado deveria fazer é legislar o tempo de trabalho, porque afeta igualmente todos os setores e, portanto, lançar as mesmas bases para todos é aumentar a concorrência entre eles. Portanto, da mesma forma, acredito que o Governo é quem deve promover a jornada de quatro dias.

 

O principal problema é a coordenação. Ao estar em um sistema que funciona em cinco dias, cada empresa que pretende reduzir para quatro dias precisa escolher. Por exemplo, você pode deixar de trabalhar às sextas-feiras, mas qual é o problema? Que talvez meus clientes precisem dos meus serviços às sextas-feiras. Isso cria um problema de falta de coordenação com o resto da economia e problemas internos da empresa. Internos também porque se cada parte da força de trabalho está de folga em um dia diferente da semana, como algumas dessas empresas estão tentando fazer, então você se encontra em uma situação em que você tem um problema e o chefe da empresa ou o cientista da computação está de folga nesse dia.

 

Diante deste problema em que as empresas têm de escolher, é melhor que toda a economia se organize em quatro dias de trabalho mais três dias livres. Se todos os seus concorrentes, clientes e fornecedores não trabalharem na sexta-feira, você não vai querer trabalhar na sexta-feira porque não fará muito sentido.

 

Mediante uma imposição do governo.

 

Pode ser por imposição legislativa, sim, mas acima de tudo tem que ser coordenada. Também pode ser através dos principais atores – sindicatos e empregadores –, mas deve ser alcançado por meio de acordos de forma coordenada. Um acordo que fixe os trabalhos de equipe, fábricas, etc., em quatro dias e a indústria do lazer nos outros três. Também podemos deixar para esses três dias o trabalho individual. Esta é outra coisa interessante: pensamos que as pessoas em seu tempo livre estão fora da economia. Não se vê um benefício econômico quando você tem mais tempo livre fora do seu trabalho, mas há. Ou porque você consome mais ou porque você faz outros tipos de atividades que podem se tornar uma atividade econômica. Por exemplo, eu escrevi meu livro durante os fins de semana. Pedro Almodóvar trabalhou 12 anos na Telefónica enquanto estudava cinema nos fins de semana, e qual é a contribuição de Almodóvar para a economia espanhola? Foram os 12 anos na Telefónica ou seus filmes?

 

Ou seja, você se refere a ter mais tempo livre para promover aquela inovação e aquelas ideias que temos na cabeça mas que só podem se concretizar quando tivermos, justamente, mais tempo livre.

 

Exato. Na verdade, é algo que tem sido chamado de empreendedorismo híbrido, começar uma empresa enquanto tem outro emprego. A jornada de quatro dias pode encorajá-lo nesse sentido. Isso é muito importante para países onde não é tão fácil acessar o crédito para começar um negócio, como nos Estados Unidos. Se você vai pedir um empréstimo na Espanha dizendo que vai deixar seu emprego atual, o mais provável é que lhe fechem a porta na sua cara.

 

Além do econômico, é uma mudança cultural muito forte. Estamos preparados para essa mudança cultural?

 

Acho que sim, mas é preciso ter muita coragem. Porque é uma mudança que temos que fazer como sociedade. Penso que durante a pandemia vimos como tudo mudou de um momento para o outro, muito rapidamente, e tudo continuou funcionando. Não foi inteiramente perfeito, mas continuou funcionando apesar de uma mudança tão repentina. Penso que isso abre o debate e mostra que podemos fazer as coisas de uma maneira diferente e acho que as pessoas estão muito mais abertas a mudanças como essas.

 

 

Sim, mas há momentos em que parece que fazemos essas mudanças estruturais mais por obrigação do que por uma consciência da mudança. Agora se está promovendo o teletrabalho, mas é por causa dos altos preços da gasolina, não porque queremos salvar o planeta. Qual é o horizonte de tempo que você imagina que levaremos para adotar a redução da jornada de trabalho?

 

Não é uma mudança que se faz em três meses; é um processo mais longo. Quando reduzimos a jornada para cinco dias, também foram apenas algumas empresas que o fizeram. Mas agora estamos em um momento em que cada vez mais empresas estão experimentando a jornada de quatro dias, e já não podem mais nos tratar como alguns loucos. Não, existem muitas empresas que já estão trabalhando nesse novo regime e estão melhorando sua produtividade e sua economia. Não podemos mais ignorar o debate sobre a redução da jornada de trabalho porque está funcionando para muitas empresas.

 

Depois, numa segunda fase, é quando os governos entrarão com legislações para obrigar as empresas a reduzirem a sua jornada de trabalho, começando pelas empresas maiores. Calculo que deveria ser um processo de cinco a dez anos. Possivelmente será alterado para algo como 36 horas em uma primeira fase. Em três anos, as grandes empresas, as pequenas e médias empresas em cinco, depois será a vez de reduzir a educação para quatro dias. Mas o importante é começar o quanto antes, porque se não começarmos, isso vai atrasar o processo em mais 20 anos.

 

Na Espanha existem dois projetos-piloto: um no País Valenciano, promovido pela Compromís, e outro a nível estatal, promovido pelo Más País. O que lhe parece?

 

Eles são muito bons porque vão fazer a experiência de medir as mudanças na produtividade, isso é muito importante. Eles vão dar autonomia às empresas para que elas próprias possam experimentar essas mudanças e possam mensurar os resultados posteriormente em termos de produtividade, lucros e outros fatores. Embora mais tarde isso deva ser promovido por meio de legislações, acredito que são muito importantes esses projetos-piloto, que servem para informar, testar, reunir informações e testar formas de viabilizá-lo, mantendo a produtividade e os lucros.

 

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