Um mundo sem a fratura entre o ser humano e a natureza? Uma exegese a partir do Gênesis. Artigo de André Wénin

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28 Junho 2022

 

"São os seres humanos – que pretendem dominar a natureza e os animais – capazes de dominar a animalidade que se esconde dentro deles e produz arrogância, injustiça, maldade, violência e morte? São capazes de impor sua lei sobre si mesmos? Isso, sim, seria manifestação de sua grandeza, do que eles poderiam legitimamente se orgulhar (40,10)".  

 

O artigo é o texto da conferência on-line de André Wénin, a ser apresentada na quarta-feira, 29 de junho, das 10h às 12h, no Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

 

A atividade integra o Ciclo de Estudos Decálogo sobre o fim do mundo, que segue até o dia 22 de julho.

 

A tradução é de André Langer.

 

André Wénin é graduado em filologia clássica, é exegeta bíblico, teólogo, doutor em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Atualmente é professor da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, professor visitante em teologia bíblica na Universidade Gregoriana, em Roma, e secretário da Rede de Investigação em Análise Narrativa de Textos Bíblicos – RRENAB (Réseau de Recherche EN Analyse narrative des textes Bibliques).

 

Entre muitos outros livros do autor, citamos o excelente ensaio, Jean-Pierre Lebrun, André Wénin, Des lois pour être humain, Érès, 2008.

 

 

 

Eis o artigo. 

 

Introdução

 

Cabe uma observação no início desta exposição sobre a concepção bíblica da relação entre os seres humanos e a natureza. O Antigo Testamento (especialmente o Gênesis, mas também outros livros que falam da criação e do lugar que os seres humanos nela ocupam) nasceu em uma sociedade que vivia e pensava a relação entre os seres humanos e a natureza em termos de continuidade. É uma sociedade de criadores, de cultivadores, de pessoas em constante contato com a natureza e que a respeitavam porque tinham consciência de que dependiam dela para sua vida e seu bem-estar. Eles viviam – para usar o título dado à minha conferência pelos organizadores – em “um mundo sem a fratura entre o ser humano e a natureza”. Esta situação transparece evidentemente nos textos onde a criação é objeto de uma reflexão e de uma teologia em sintonia com as condições de vida deste povo particular que é o Israel bíblico.

 

Talvez seja isso que torna a Bíblia tão estranha para muitos de nossos contemporâneos, que serão levados a negligenciá-la, seja porque lhes é incompreensível, seja porque lhes parece irrelevante para o mundo que é o nosso. No entanto, se a Bíblia é lida e transmitida há séculos, é porque deve conter recursos que ajudam a pensar o mundo, a existência humana e a fé em Deus em cada época. E se nosso tempo a negligencia, talvez seja por uma forte tendência facilmente observável: imerso em seu presente ou estendido para o futuro, nosso tempo tem a tendência de esquecer o passado e, portanto, recusa a sabedoria elementar que vê a transmissão como fundamental para o desenvolvimento da vida e da inteligência; em todo caso, prefere não ver nada que o lembre de seus limites estruturais e, se vê, decide mais ou menos conscientemente não levar isso em conta. É por isso que, na minha opinião, a atual crise ecológica está longe de acabar. É também por isso que é importante deixar ressoar a voz de um outro mundo, a da sabedoria bíblica, uma sabedoria que pode pelo menos interpelar e dar o que pensar.

 

De fato, a sabedoria que as primeiras páginas do Gênesis testemunham sobre a relação entre os seres humanos e a natureza honra a complexidade desta relação. Isso se deve, certamente, à realidade vivida pelo povo de Israel. Porque se esse povo viveu em profunda continuidade com a natureza, esta poderia frustrar suas legítimas expectativas (comer, beber, vestir etc.), ou até mesmo se mostrar hostil: trabalhar a terra pode ser penoso, os animais selvagens ameaçam plantações e rebanhos, as secas ou as tempestades arruínam às vezes as colheitas ou matam os animais domésticos. Para poder viver da agricultura e da pecuária, os israelitas tinham que exercer certo domínio sobre a natureza. Era preciso buscar constantemente um equilíbrio, e é isso que os textos bíblicos que vou ler com vocês testemunham à sua maneira.

 

Nesta exposição, tratarei sucessivamente da criação em sete dias (Gênesis 1,1-2,3) e do relato do Éden (Gênesis 2,4-21), antes de citar mais brevemente outras passagens bíblicas úteis à reflexão.

 

1. A criação em 7 dias (Gênesis 1)

 

O texto é bem conhecido. É um poema em prosa rítmica. Linha após linha, ele “desenha” o universo assim como se oferece à percepção dos sentidos, uma percepção interpretada de acordo com uma representação global do mundo comum no antigo Oriente Próximo. O que é particular ao texto bíblico é que o criador faz o mundo aparecer através do poder único da sua palavra e que procede de acordo com uma ordem muito lógica.

 

No princípio, há uma matéria-prima caótica: um oceano primordial de água salgada envolto em trevas e agitado por um vento tempestuoso. Ao dominar esse caos inicial, o criador começa por organizar um espaço-tempo: esse é o trabalho dos primeiros 4 dias.

 

Em primeiro lugar, ele acalma o furacão que sacode a superfície do oceano, o “vento de Deus”, como diz o relato, e o transforma em uma palavra articulada (“E Deus disse”). Em seguida, ao fazer a luz, instala uma alternância entre o dia e a noite e assim estabelece o tempo (“Houve uma tarde, houve uma manhã”), o que permite contar os “dias”; no 4º dia, fará os luzeiros que marcam o calendário anual (os meses e as estações).

 

No 2º dia, ele abre um espaço no oceano primordial – uma espécie de imensa bolha de ar – instalando uma abóbada que retém as águas que estão acima; depois, nas águas abaixo, faz emergir a terra onde crescem as plantas. Deus estrutura assim o espaço: o céu, os oceanos e a terra seca. No mundo assim organizado, cada elemento está em seu lugar e aí permanece.

 

Nos 5º e 6º dias, o criador povoa este mundo com seres vivos: as águas começam a fervilhar de peixes e os pássaros voam no céu; a terra acolhe animais de todos os tipos, antes que Deus crie o ser humano (não uma mulher e um homem, mas a humanidade, os seres humanos).

 

Esta humanidade faz parte de uma continuidade fundamental com o mundo animal. Na verdade, ela compartilha várias características com os animais.

 

(1) Os humanos são criados da mesma forma que os outros seres vivos: Deus pronuncia uma palavra por meio da qual ordena que os seres vivos existam, em seguida age para realizar o que ele acabou de ordenar.

 

(2) Como os seres humanos habitam a terra, são criados no mesmo dia que as espécies animais que habitam este mesmo espaço: os animais selvagens, os animais domésticos e tudo o que fervilha sobre a terra.

 

(3) Junto com os animais marinhos e aéreos, é objeto de uma “criação” no sentido estrito (verbo vayyivra') e recebe a mesma bênção (verbo vayvarèk): “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei” o espaço que é vosso (versículos 22 e 28).

 

(4) Por fim, o relato registra que os seres humanos são criados “macho e fêmea”, uma diferenciação sexual que eles têm em comum com os animais (daí o fato de que não se use as palavras “homem e mulher”).

 

O relato, no entanto, não termina aí. Se ele registra claramente que os seres humanos são seres vivos como os outros, ele também lhes atribui uma posição especial, mesmo porque eles são criados por último e não se dividem em “espécies”. Mas, acima de tudo, são criados “à imagem de Deus”, o que talvez explique por que eles são os únicos seres vivos que Deus trata como interlocutores (“Deus os abençoou e lhes disse”). Com base nessas especificidades, os comentaristas deste texto costumam dizer que os seres humanos são a “obra-prima”, o ponto culminante da criação. Eu não compartilho totalmente deste ponto de vista. De fato, como veremos: a posição particular que é a dos seres humanos lhes confere uma responsabilidade especial no mundo dos vivos e em relação à natureza, da qual também são parte integrante. Para descobrir isso, vamos olhar atentamente para os versículos 26 a 30 de Gênesis 1.

 

26 E Deus disse: “Façamos o ser humano à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras, e tudo o que se move sobre a terra”. 27 E Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou.

 

De acordo com este relato, uma característica fundamental que distingue os seres humanos dos animais é que os seres humanos não estão “terminados” quando Deus os cria – isso reflete o que é observável tanto entre os indivíduos humanos, bem como em grupos humanos ou na humanidade como um todo. O texto enfatiza isso de maneira muito sutil. No versículo 26, Deus formula um projeto, mas o relato da sua realização na 1ª parte do versículo 27 é marcado por diferenças. Assim, Deus disse “façamos” usando o plural, mas o relato repete três vezes que ele “cria” no singular; ora, o verbo “criar” refere-se a uma ação que somente Deus realiza, e seu significado é, portanto, muito mais restrito do que o do verbo “fazer”. Além disso, o projeto da divindade é fazer os seres humanos “à nossa imagem, como nossa semelhança”; porém, quando os cria, é apenas “à sua imagem”: a semelhança desaparece, como se a imagem não fosse (ainda) semelhante. Finalmente, ele cria a humanidade “macho e fêmea”, o que não havia programado explicitamente. Explicar essas diferenças não é fácil. Mas uma interpretação parece relevante: essas diferenças sugerem que os seres humanos não estão terminados. Deus os “cria”, trazendo à tona algo novo que só ele é capaz de produzir (segundo o sentido do verbo), mas depois há coisas “a fazer”. Criados “macho e fêmea” à imagem dos animais, os seres humanos têm a tarefa de “fazer” o que for preciso para “assemelhar-se” também à imagem de Deus inscrita neles.

 

Aqui surge uma questão: à imagem de que Deus os humanos devem se assemelhar? A questão raramente é colocada, mas é crucial. Como o leitor está no começo da Bíblia, a única coisa que ele sabe sobre Deus é o que leu até aqui. Que imagem de Deus emerge do que ele leu? É a de um ser que domina o mundo, mas que o faz pela palavra, sem destruir nada: mesmo os elementos a priori negativos do caos primordial não são eliminados, são integrados ao universo harmonioso organizado com sabedoria. É a imagem de um ser que emprega seu poder para colocar cada coisa no seu devido lugar, antes de colocar esse poder a serviço da vida, com generosidade. É a imagem de um ser que, diariamente, para, dá um passo para trás para contemplar o que vê, como diz o refrão: “e Deus viu que era belo!”. Para ele, de fato, criar é também maravilhar-se com o mundo e ter em consideração seres diferentes dele. Esta atitude se prolonga no 7º dia: aí, Deus se retira do mundo criado, domina seu próprio poder e coloca-lhe um limite para abrir um espaço de autonomia e responsabilidade aos seres humanos a quem acaba de confiar a terra. Esta é a imagem de Deus que esta página desenha, imagem à qual os seres humanos são convidados a tentar se assemelhar.

 

Esta leitura é confirmada na sequência. De fato, esta “vocação” está no centro das duas palavras que o criador dirige aos seres humanos, primeiro para abençoá-los (no versículo 28), depois para dar seu alimento aos seres vivos (nos versículos 29-30). Começo com a bênção:

 

28 E Deus os abençoou e lhes disse: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves dos céus e todos os animais que rastejam sobre a terra”.

 

O início desta bênção é idêntico àquela que foi dada aos animais marinhos e aéreos (versículo 22): é uma palavra que destina os seres vivos ao desenvolvimento da vida em todas as suas dimensões: em qualidade (“sede fecundos”), em quantidade (“multiplicai-vos”) e em extensão espacial (“enchei a terra”). A continuação da bênção é específica dos seres humanos e está de acordo com a intenção que o criador formulou antes de criá-los (versículo 26): ele ordena aos seres humanos que submetam a terra e dominem os animais. Através desta ordem, ele os convida a exercer seu domínio sobre seu mundo, como ele mesmo domina o universo e seus elementos. Nisso ele lhes indica uma maneira de se assemelharem a ele. Os verbos que ele usa para falar desse domínio sugerem que ele se desdobrará com poder: râdâh (versículos 26 e 28) significa “pisar, esmagar”, portanto “dominar” como um rei cujo poder é soberano; kavash (versículo 28) significa “subjugar” os inimigos, “submeter” os escravos. Os humanos terão, portanto, que implantar uma certa força para dominar seu mundo. Nisso o texto reflete a necessidade, para os sedentários do mundo antigo, de se imporem de alguma forma ao seu ambiente natural para evitar que sejam vítimas dos inevitáveis perigos que ele representa para suas vidas e seu bem-estar.

 

Mas esta ordem de domínio enérgico é imediatamente completada por outra palavra de Deus. É sua última palavra neste texto e é também a palavra mais longa de todas – duas pistas para sua importância crucial. No entanto, parece anedótico, já que se trata de alimento:

 

29 E Deus disse: “Eis que vos dou todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será vosso alimento. 30 A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda verdura das plantas”.

 

Observemos imediatamente que o alimento dado aos seres vivos é exclusivamente vegetal; além disso, não é o mesmo para seres humanos e animais: os primeiros recebem os cereais e as frutas; os segundos, a simples forragem. Eu vou retornar a isso.

 

Mas o que é especialmente significativo é o que emerge da sequência das palavras de Deus: depois de ordenar aos seres humanos que dominem os animais, ele lhes dá um alimento que exclui a carne. Assim, sugere-lhes que é possível dominar os animais sem matá-los e, assim, impor um limite ao poder exercido sobre os animais que corresponde ao respeito pelas suas vidas. Ao dizer-lhes, em seguida, que os animais não comerão a mesma coisa que eles, Deus deixa claro para os seres humanos que não terão que lutar com os animais para poderem comer. Portanto, seu domínio sobre os animais pode ser livre de qualquer violência destrutiva. Este é um segundo traço da semelhança com Deus. De fato, eu já disse isso: nesta página, Deus implanta um poder que não destrói nada, um poder que domina de forma a deixar espaço para seres diferentes dele. É nesse sentido que ele sugere que os seres humanos implementem seu domínio sobre o mundo com suavidade; isso implica que eles limitem seu poder, que guardem o controle de sua força para quando interagem com a natureza, em particular com os animais. É a esse preço que eles realizarão sua vocação de se assemelharem a Deus. Nisso o texto reflete um outro elemento da experiência dos sedentários de Israel: se eles maltratarem a natureza e os animais, colocarão em risco sua própria vida e seu bem-estar. Tudo é, portanto, uma questão de encontrar o equilíbrio certo entre domínio e respeito...

 

O cardápio vegetariano dado por Deus aos animais é surpreendente, pois é contrário a tudo o que os seres humanos podem observar na natureza. O alcance desse traço irrealista é simbólico e pode ser entendido como a continuação do que acabei de desenvolver. Se os seres humanos restringirem seu poder para não cometerem violência contra os animais, estes também não se comerão entre si. Os seres humanos presidirão, pois, uma harmonia universal, que está de acordo com o desejo do criador. É a imagem de Noé que coloca na arca “de tudo o que pode ser comido” para alimentar os animais, mas que não leva presas adicionais para alimentar os carnívoros... É também a imagem da harmonia universal que o messias estabelecerá quando tiver estabelecido a justiça na terra, segundo o profeta Isaías (11,4-5):

 

“O lobo habitará com o cordeiro,
o leopardo se deitará com o cabrito,
o bezerro e o filhote de leão serão alimentados juntos,
um menino os conduzirá.
A vaca e o urso pastarão juntos,
suas crias se deitarão juntas,
o leão se alimentará de forragem como o boi,
a criança de peito vai brincar no ninho da víbora
na toca da víbora, a criança pequena porá a mão” (Is 11,6-8).

 

2. O ser humano no jardim de Éden (Gênesis 2,4-21a)

 

O 2º capítulo do Gênesis é o início do relato mítico de Adão e Eva no jardim de Éden. Quanto à relação entre os seres humanos e a natureza, junta-se ao essencial da concepção desenvolvida no capítulo 1. Jan Fokkelman tem razão ao escrever que este relato “não é um segundo relato da criação” como pensam quase todos os comentadores, “mas um estudo mais amplo do ser humano como criatura”. Mais amplo e mais fino também. De fato, se o capítulo 1 considera todo o cosmos, o capítulo 2 “foca” no ser humano, situando-o em um ambiente “do seu tamanho”. Além das diferenças óbvias entre os dois textos, as semelhanças são notáveis.

 

(1) No relato de Éden como no poema dos 7 dias, Deus organiza um quadro de vida de uma forma muito lógica e sem esforço aparente, e o faz em função dos seres humanos.

 

(2) Nas duas narrativas, Deus confia aos seres humanos uma responsabilidade específica em relação à criação que, no capítulo 2, é figurada pelo jardim.

 

(3) Nas duas narrativas, Deus dá aos seres humanos um alimento vegetal, dirigindo-lhe uma palavra com a qual pede para aceitar uma carência: dos dois lados, o ser humano é, portanto, confrontado com um limite diante do qual terá que fazer uma escolha.

 

(4) Por fim, nas duas narrativas, estabelece-se uma relação de domínio entre os seres humanos e os animais. (>>)

 

Em suma, nestes pontos cruciais, os dois textos apresentam uma bela continuidade:

 

1. relação particular entre Deus e os seres humanos;

 

2. relação entre a natureza e os seres humanos que recebem uma tarefa específica;

 

3. oferta limitada de alimento;

 

4. domínio dos seres humanos sobre o mundo animal.

 

Depois desse olhar global, vamos olhar mais detidamente o que se conta sobre a criação do ser humano no capítulo 2. Desde o início do relato (versículos 5 e 7), um jogo de palavras sublinha a relação muito estreita que une o ser humano ('âdâm) ao húmus, o solo fértil ('adâmâh):

 

Versículo 5 – “Não havia ser humano para cultivar o húmus
Versículo 7 – “O Senhor Deus modelou o ser humano da argila [tirada] do húmus

 

De acordo com essas linhas, o solo será cultivado por aquele que Deus modela a partir da argila do mesmo solo. Mas no relato, o ser humano não é o único ser vivo que Deus tira “do húmus”: as árvores que ele faz crescer (versículo 9) e os animais que ele modela (versículo 19) também vêm do húmus, como destacado pela expressão cada vez repetida, min-hâ'adâmâh, “do húmus”. Os seres humanos estão, portanto, profundamente enraizados no elemento mineral (a terra) e, como tal, são parte integrante do universo físico, assim como as plantas e os animais.

 

Posto esse pertencimento dos seres humanos à natureza (o que sublinha a continuidade fundamental entre eles), o texto passa a registrar traços específicos que distinguem os seres humanos dos outros elementos da natureza. Uma primeira diferença é indicada pelos verbos que derivam da ação do criador:

 

Versículo 7 – “O Senhor Deus modelou o ser humano da argila do húmus
Versículo 9 – “O Senhor Deus fez crescer do húmus toda espécie de árvores...”
Versículo 19 – “O Senhor Deus modelou do húmus todos os seres vivos…”

 

Deus simplesmente faz crescer as plantas, mas “modela”, “dá forma”, aos seres humanos e aos animais. Os seres vivos capazes de movimento têm, portanto, em comum o fato de serem obra de um Deus que age como um oleiro, o que implica um gesto mais elaborado, mais complexo, uma ligação mais íntima também entre o artesão e sua obra.

 

Dito isto, dois traços diferenciam os seres humanos dos outros animais no relato de sua modelagem. Esses traços são notados de forma estranha, o que exige um esforço de interpretação.

 

(1) Primeiro traço específico em relação aos animais: o ser humano é formado da “argila” (versículo 7). No entanto, no Antigo Testamento, a argila é sinal de morte. [1] Por conseguinte, a precisão sugere o destino mortal do se r humano, destino que será explicado ao final do relato. Ali, Deus dirá a respeito da morte natural (que não é o castigo da culpa, mas o fim normal de toda vida terrena): tu, ser humano, “voltarás ao húmus do qual foste tirado, pois tu és argila...” (capítulo 3, versículo 19). Mas os animais selvagens também não voltam à argila? Então, por que dizer isso apenas do ser humano? A meu ver, essa diferença registra o fato de que, dentre todos os seres vivos da criação, apenas os seres humanos sabem que vão morrer, e esse conhecimento singulariza radicalmente a condição humana.

 

(2) O segundo traço que diferencia o ser humano é evocado na 2ª metade do versículo 7: “e [Deus] soprou em suas narinas um hálito de vida (nishmat hayyîm) e o ser humano tornou-se uma garganta vivente” – ou um ser vivo. Isso não é mencionado no caso dos animais, embora todos saibam que muitos deles respiram como os seres humanos. Nessas condições, o que Deus insufla nos seres humanos, e somente neles, não é a simples respiração. Então o que é? Para responder, devemos lembrar que, desde o início do capítulo 1 do Gênesis, o leitor aprende que Deus usa seu sopro para falar, mais precisamente para dar nomes. É exatamente isso que o ser humano de Éden fará em breve com o alento que recebeu, quando o criador lhe apresenta os animais: “O ser humano deu nomes a todos os animais domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens...”. A esses nomes os animais não respondem, e é isso que leva o ser humano a descobrir que eles não são para ele o “face a face” que Deus quer lhe dar (versículo 20). O ser humano, portanto, se singulariza, como Deus, no uso da sua respiração para nomear. Ao fazê-lo com os animais, ele reconhece cada espécie em sua singularidade e, assim, exerce um domínio suave, como aquele que o final do capítulo 1 evoca. Em suma, de acordo com o capítulo 2 do Gênesis, o 'adâm está ligado ao 'adâmâh pelo seu corpo, e a Deus pela faculdade de falar. Esse segundo vínculo cria uma forma de distanciamento entre o ser humano e a natureza, e permite que ele a domine com respeito e contenção, à imagem de Deus.

 

Presente desde a menção da criação do ser humano no versículo 7, este tema é depois retomado e aprofundado, quando o deus criador organiza um espaço de vida para o ser humano: “O Senhor Deus plantou um jardim em uma estepe” (em hebraico, 'eden), fazendo crescer “árvores formosas de ver e boas de comer” (versículos 8-9). Deus introduz o ser humano neste jardim bem irrigado (versículos 10-14), e lhe assinala uma tarefa (versículo 15). Essa tarefa é descrita por dois verbos: 'âvad, “cultivar”, verbo que significa também mais amplamente “trabalhar” e “servir”; depois shâmar, “guardar” no duplo sentido de “supervisionar” e de “vigiar”, de “cuidar” dele. A riqueza de sentido do primeiro verbo deixa claro que a atividade de domínio que consiste em cultivar o jardim implica também respeitá-lo como um servo respeita seu senhor. De acordo com o que foi esboçado no capítulo 1, o domínio do ser humano não é, portanto, absoluto. Ele não é proprietário e senhor do jardim onde está colocado, mas um jardineiro, um servo, o que o segundo verbo especifica à sua maneira: como um bom guardião, o ser humano deve proteger e cuidar desse jardim. Esta é outra maneira de dizer que ele terá que aprender a controlar seu poder se não quiser ser um predador do ambiente natural que o acolhe. Assim, esses verbos especificam a natureza da responsabilidade do ser humano para com o jardim onde Deus o coloca.

 

A relação entre o ser humano e o jardim – ou seja, entre os seres humanos e a natureza – não é uma via de mão única. Quando Deus coloca o ser humano no jardim, fala com ele para dar-lhe as árvores como alimento (versículo 16). Dessa forma, estabelece uma relação de troca: o ser humano cultivará o jardim e, em troca, o jardim lhe oferecerá suas árvores formosas de ver e boas de comer, e delas se alimentará. Além disso, o ser humano “guardará” o jardim e dele cuidará, ao passo que o jardim cercado o protegerá – a palavra hebraica gan, “jardim”, deriva do verbo gânan, que significa “proteger”. Assim, o que se desenha é uma aliança entre o ser humano e o jardim. Esta é, de fato, uma relação recíproca: o ser humano beneficia-se dos frutos e da proteção oferecidos pelo jardim que, por sua vez, ele cultiva e protege. O relato mítico esboça assim uma relação ideal entre o ser humano e a natureza, que lhe oferece sua hospitalidade. Mas, sempre de acordo com o relato, depende dos seres humanos que essa aliança seja mantida: quanto melhor eles cultivarem e cuidarem do jardim, melhor o jardim irá protegê-los e alimentá-los. O futuro deste intercâmbio depende, portanto, dos seres humanos, de sua maneira de exercer o domínio de que são capazes. Recolhemos novamente o que o final do capítulo 1 disse à sua maneira.

 

O limite que os seres humanos são convidados a colocar ao seu domínio sobre o jardim é, portanto, sugerido pelos dois verbos que descrevem o papel que Deus lhes assinala. Este limite é esclarecido mais adiante pela divindade na primeira palavra que dirige ao jardineiro. Com efeito, depois de lhe ter dito que comesse de todas as árvores do jardim, Deus fixa um limite ao prescrever-lhe que não coma de uma árvore: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres, morrerás” (versículo 17). No tempo que me é concedido, não é possível analisar de perto essa ordem, tão rica quanto complexa, e muito menos explicar por que é a árvore “do conhecimento do bem e do mal” que é objeto do limite. Contento-me em precisar que não se trata absolutamente de proibir o conhecimento ou a ciência aos seres humanos. Uma observação será suficiente para alimentar a reflexão iniciada. O fato de, sem motivo aparente, os seres humanos não terem acesso a todas as árvores é sinal de que não são os seus proprietários, que não são os donos do jardim. Se o jardim lhes pertencesse, de fato, não vemos por que razão o gozo de uma das árvores lhes seria proibido. Na realidade, por meio dessa ordem, Deus indica ao ser humano que ele não pode explorar o jardim sem aceitar um limite. Se o fizer, assinará sua sentença de morte. Não porque o legítimo proprietário viria puni-lo, porque o relato não diz que o jardim pertence a Deus. O ser humano morrerá porque recusar-se a entrar no jogo da aliança deixando-se levar pela luxúria que o impele a tudo é uma atitude mortífera. Deixar-se dominar por um desejo descontrolado e invasivo é fechar a porta às relações justas, as únicas que dão à vida sua qualidade verdadeiramente humana. Como no final de Gênesis 1, concordar em colocar um limite ao domínio que exercemos sobre a natureza e à exploração que fazemos dela é a escolha que melhor garante a vida.

 

3. O ser humano não é o centro da natureza

 

Antes de prosseguir, concluo brevemente o que a leitura do começo do Gênesis permitiu colher. Na realidade, como já observamos, os dois capítulos colocam os seres humanos no centro do mundo terrestre. Nesses textos, de fato, o tema da criação não é tratado em si mesmo, mas em função de uma antropologia teológica com dimensão ética. Em outras palavras, os dois relatos não estão interessados no mundo em si, mas nos seres humanos e seu lugar nele. Este lugar especial está ligado à sua relação privilegiada com Deus e implica para eles uma responsabilidade específica: a de exercer um determinado domínio sobre a natureza. No entanto, esse domínio só contribuirá para a harmonia da criação se for capaz de assumir os justos limites que o respeito à vida exige. Esse domínio só preservará o equilíbrio da natureza se for exercido como um serviço, com a doçura do Deus que a criou sem nada destruir. Disto depende o futuro do mundo, este dom que Deus dá à humanidade e, portanto, também o futuro de cada ser humano e de toda a humanidade.

 

Mas outros textos bíblicos têm um tom muito diferente. De fato, eles deslocam o ser humano do lugar central da criação e o veem como um elemento a mais. É o caso, especialmente, dos salmos de louvor ao Deus criador, um louvor cheio de gratidão. Eles descrevem o mundo com fascinação, como um presente de Deus. O ser humano não é o senhor. Ele é antes a testemunha de uma generosidade e de uma bondade que o precedem e que são do Deus de quem recebe a vida. O mais belo desses poemas é o Salmo 104. O esplendor do mundo criado é recordado longamente para conduzir o leitor a uma forma de contemplação da natureza. Aos olhos do salmista, o universo é o sinal da sabedoria de Deus. Essa sabedoria ultrapassa o ser humano, que pode, no entanto, admirá-la pelos seus frutos: “Quão numerosas são as tuas obras, Senhor: todas fizeste com sabedoria; a terra está cheia de tuas criaturas” (versículo 24). Neste mundo, cada coisa contribui, a partir do seu lugar, para a harmonia geral, desde as ondas caóticas do oceano primordial, até as trevas da noite e ao monstro marinho chamado “leviatã”, que Deus criou para brincar com ele (versículos 6-9.20.26). O próprio retorno ao pó, o fim natural de toda a vida terrena, não diminui a beleza deste universo onde tudo canta louvores ao Deus da vida: “Escondes tua face e eles se apavoram; retiras sua respiração e eles expiram, e voltam ao pó. Tu envias teu sopro e eles são criados, e assim renovas a face da terra” (versículos 29-30).

 

É interessante observar onde e como o poeta fala do ser humano. Ele começa descrevendo o céu, as nuvens, o vento e o fogo (versículos 3-4), antes de recordar a criação da terra (versículo 5). Vemos então aparecer sucessivamente as montanhas e os penhascos, mas também os riachos e o mar (versículos 6-9). Essa água torna possível a existência da vida animal: “Fazes brotar fontes de água (...); dão de beber a todos os animais do campo, nela os asnos selvagens matam a sua sede (...)” (versículos 10-12). A mesma água permite o crescimento das espécies de plantas das quais se alimentam os animais e os seres humanos. Estes últimos podem, portanto, cultivar a terra para fazer pão, mas também para produzir o vinho e o azeite (versículos 13-15). Após esta brevíssima evocação da humanidade (2 versículos), o salmista continua descrevendo as árvores, os pardais e as cegonhas, os animais selvagens da montanha (versículos 16-18). Depois vêm as estrelas que marcam o tempo a que está sujeito o trabalho humano (versículos 19-23), depois o mar, com a sua população de animais variados, mas também os barcos que por ele circulam (versículos 25-26). Por fim, como em Gênesis 1, o poeta fala de um deus que dá o alimento necessário à vida dos seres animados, seres que, a seu tempo, voltam ao pó dando lugar a outros seres vivos (versículos 27-30).

 

Este resumo sucinto do que o poeta diz sobre o mundo que tem diante dos seus olhos é suficiente para mostrar o quão discreta é a presença do ser homem. Este faz parte dos seres vivos que povoam a terra, e o poeta não reserva para ele nenhum lugar especial. A única particularidade a ser mencionada é o trabalho, mas essa atividade só é possível porque a generosidade da natureza o permite. Este trabalho não tem nada a ver com qualquer domínio sobre o universo. Serve apenas para assegurar a subsistência dos seres humanos e permitir que façam festa (versículos 14-15 e 23). Em suma, o poema sublinha a pertença dos seres humanos à natureza, que em grande parte escapa ao seu alcance e que eles não dominam. Por outro lado, podem admirá-la e descobrir nela a mão de um Deus digno de ser cantado. Com efeito, as únicas criaturas dotadas de fala têm a capacidade de louvar o criador, como sublinha o final do poema: “Cantarei para o Senhor enquanto eu viver, tocarei para o meu Deus enquanto existir, e minha linguagem lhe será agradável. Eu me alegrarei no Senhor!” (versículos 34-35).

 

Um outro texto poético vai ainda mais longe na relativização do poder dos seres humanos sobre a natureza. Encontra-se no final do livro de Jó: são os dois discursos que Deus dirige a Jó no meio da tempestade em resposta aos seus repetidos apelos (nos capítulos 38-39, depois 40-41). Com maravilhosos acentos poéticos, o autor do livro de Jó coloca nos lábios de Deus uma visão de mundo onde o lugar do ser humano é consideravelmente minimizado. A ponto de nos perguntar se esse poeta não adota deliberadamente a visão contrária do relato de Gênesis 1, que faz do ser humano o centro e o senhor do universo terrestre e de seus outros habitantes, os animais. Ao falar com Jó, Deus parece deleitar-se em enfatizar os limites do poder do ser humano: sobre sua própria vida e sobre a natureza. Sua vida útil é mais do que curta quando comparada à vida do universo (38,4). Seu conhecimento está carregado de muitas lacunas e estas não desaparecerão, mas mudam à medida que o conhecimento avança (38,5-8.18). O ser humano não tem nenhum controle sobre a passagem do tempo (38,12), nem sobre o clima (38,34-35). As estrelas escapam completamente ao seu poder (38,31-32) e mesmo na terra muitos espaços lhe permanecem desconhecidos (38,16). Quanto à morte, não deixa de ser um mistério para cada pessoa humana (38,17). Em suma, o poder da humanidade sobre a natureza – a menos que seja para destruí-la, diríamos hoje – é absolutamente relativo em relação às forças que presidem o equilíbrio do mundo e que, segundo o livro de Jó, estão nas mãos do criador.

 

Nos capítulos 39 a 41, o poeta passa a mencionar o mundo animal que os humanos supostamente deveriam dominar, segundo Gênesis 1. Ele descreve o modo de vida de alguns animais selvagens – a leoa, os corvos, as camurças e outros cervídeos – para mostrar que eles não precisam dos seres humanos. Usando outros exemplos – o asno selvagem, o búfalo, o avestruz –, sublinha o pouco poder que os humanos têm sobre eles. Se o cavalo é uma exceção, não é deles que recebe sua força, sua paixão e sua audácia! Quanto às aves de rapina, são a figura de todo este mundo animal que vive fora do alcance dos seres humanos. Assim, qualquer que seja a relação do ser humano com os animais, de uma forma ou de outra eles sempre lhe escapam. Ele não deve, portanto, pensar que é o senhor. E se ele chegasse a acreditar nisso, alguns animais selvagens estariam aí para desmenti-lo. O poeta passa então a descrever longamente o hipopótamo (40,15-24) e depois o crocodilo (40,25-41,26). O primeiro é chamado de “obra-prima de Deus” (40,19); toda a natureza está a seu serviço e ele é invencível. Do segundo, diz-se: “Na terra ninguém se iguala a ele [...], ele é o rei de todas as feras” (41,25-26): tudo nele evoca poder e invulnerabilidade.

 

Antes desse longo discurso, Deus desafia (40,10-14). Se os seres humanos querem afirmar seu poder com orgulho e dignidade, que neutralizem o poder de prejudicar dos arrogantes e perversos de todos os tipos que desfiguram a humanidade. Assim, Deus disse a (versículos 12-14):

 

“Humilha com o olhar o soberbo
e esmaga os perversos.
Enterra-os todos juntos no pó,
E amarra-os cada qual na prisão.
Então também te louvarei,
porque podes com tua direita garantir-te a salvação”.

 

Isso levanta uma terrível questão: são os seres humanos – que pretendem dominar a natureza e os animais – capazes de dominar a animalidade que se esconde dentro deles e produz arrogância, injustiça, maldade, violência e morte? São capazes de impor sua lei sobre si mesmos? Isso, sim, seria manifestação de sua grandeza, do que eles poderiam legitimamente se orgulhar (40,10).

 

Conclusão

 

Pareceu-me importante dar uma rápida olhada nesses textos poéticos para mostrar que o discurso bíblico sobre o lugar da humanidade no mundo e na natureza não é unívoco. Os textos que selecionei ilustram a tensão que atravessa a Bíblia sobre esse assunto, tensão que diz algo sobre a complexidade da questão. É importante respeitar essa complexidade: é em si um convite para prestar atenção em diferentes vozes e pontos de vista, e a partir deles fazer uma reflexão que respeite a alteridade legítima e, portanto, matizada. Além disso, o gênero literário dos textos que aqui evoquei é ele próprio um apelo à reflexão, na medida em que proíbe tomar de maneira literal o que dizem esses textos: um poema litúrgico (Gênesis 1), um relato mítico (Gênesis 2), um salmo de louvor (Salmo 104) e um reflexo da sabedoria em forma poética ( 38-41) não são tratados de teologia, de antropologia ou de ética. Por outro lado, eles pedem para ser interpretados por um leitor que assuma suas responsabilidades ao mesmo tempo em que envolve sua experiência humana e espiritual e leva em conta a sua situação.

 

No período crítico que a humanidade atravessa na relação com a natureza, esses textos me parecem de profunda atualidade. Por um lado, contestam radicalmente a atitude prometeica que a sociedade dominada pelas finanças e pelas tecnociências continua a promover, em grande medida em detrimento da natureza; combatem a ganância que transforma os seres humanos em predadores e os cega para as consequências de um comportamento pautado essencialmente pela busca de poder e lucro a todo custo, sem levar em conta a limitação dos recursos que saqueiam, a miséria que causam entre muitos de seus semelhantes, e o futuro podre que preparam para seus filhos.

 

Por outro lado, esses textos bíblicos oferecem referências para situar os seres humanos em um lugar apropriado na natureza: assim, não deixam de sublinhar a profunda continuidade entre a natureza e eles, ao mesmo tempo em que honram a singularidade que caracteriza os seres humanos na natureza. Mas esta especificidade, longe de se apresentar como um privilégio de senhor, é introduzida antes como uma responsabilidade adicional, que inclui uma forte dimensão ética e espiritual. Porque contemplar as maravilhas da natureza (como Gênesis 1 e o Salmo 104 nos convidam a fazer), não é também uma maneira de aprender a apreciar os inevitáveis limites humanos como tantas oportunidades de se abrir à alteridade da natureza e dos outros (Gênesis 2) e de respeitá-los melhor? Mas se o poder que os seres humanos exercem subir à cabeça e os cegar, a sabedoria bíblica está aí para lembrá-los, não sem ironia, do quanto estão iludidos (Jó).

 

Os textos que propus para a reflexão nasceram no meio de um povo para quem o mundo, e em particular a natureza, é obra de Deus. E a mesma palavra pela qual este Deus cria o mundo e chama os seres à vida é dirigida também a este povo para instruí-lo sobre o que significa e implica viver. Esta é, segundo a própria Bíblia, a fonte da maturidade e da sabedoria que os textos testemunham. Mas pode uma sociedade humana que esquece ou nega massivamente qualquer transcendência autêntica, religiosa ou não, e que, portanto, acredita que tem seu fundamento em si mesma, ainda ser sensível à sabedoria quando não para de repetir que negar o que se é, é a melhor maneira de precipitar sua própria ruína?

 

Nota

 

[1] Ver, por exemplo, Gn 18,27; Sl 22,16; Jó 7,21; Dn 12,2.

 

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