Quando abolir as armas é apenas uma utopia. Artigo de Vito Mancuso

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29 Março 2022

 

É assim que a sociedade progride: conciliando a tensão pela Utopia e o respeito pela Realidade. Quem não tem uma Utopia rumo à qual possa velejar trai a humanidade e a sua sede de bem e de vida; ao mesmo tempo, porém, quem não leva em conta as suas condições reais e a sua necessidade de segurança também a trai.

 

A opinião é do teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Teologia Moderna e Contemporânea da Universidade San Raffaele de Milão, e ex-professor de História das Doutrinas Teológicas da Universidade de Pádua.

 

O artigo foi publicado em La Stampa, 28-03-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

As armas. O que pensar das armas? São o mal absoluto que incrementa a morte e tira recursos das necessidades vitais? São um instrumento neutro, cujo valor depende do uso que se faz delas? São tecnologia e até mesmo beleza? São um mal necessário? São a expressão da esquerda dialética que, por um lado, alimenta o perigo da destruição total, mas, por outro, garante a segurança neste mundo cada vez mais armado?

 

O Papa Francisco não tem dúvidas: “Fiquei com vergonha quando li que um grupo de Estados se comprometeu a gastar 2% do PIB na compra de armas, como resposta ao que está acontecendo agora. Loucura!”, como afirmou no dia 24 de março.

 

Entre esses Estados, está a Itália, cujo primeiro-ministro, Mario Draghi, declarou sua intenção de respeitar os compromissos assumidos pelo nosso país e aumentar os gastos com a defesa em 2% do PIB. Ele é o louco? E aqueles que o apoiam? Ou se trata apenas de responsabilidade? A resposta depende do que pensamos de nós, do mundo, do modo de habitá-lo e, consequentemente, também das armas.

 

Para abordar a questão, gostaria de salientar, acima de tudo, que, desde o dia 24 de fevereiro passado, as nossas mentes também entraram em guerra, e cada um de nós começou a armar a sua própria mente: ouvimos especialistas no rádio ou na TV, percorremos postagens e tuítes, lemos jornais e revistas de referência, com o objetivo de adquirir munições cognitivas para bombardear as posições adversárias com as nossas palavras.

 

Seja quem defende a legitimidade da guerra defensiva, seja quem defende a injustiça de toda guerra; seja quem concorda em ajudar os ucranianos militarmente, seja quem considera que lhes dar armas significa apenas expô-los ainda mais ao massacre e servir aos interesses do lobby da indústria bélica, o fato é que, há dias, usamos os pensamentos e as palavras como armas.

 

Na realidade, fazemos isso desde sempre. Na realidade, nunca somos equidistantes ou simplesmente justos, e com esta nossa polêmica revelamos do modo mais evidente que “Pólemos é o pai de todas as coisas”, como revelou o antigo filósofo.

 

As nossas polêmicas sobre a guerra ucraniana nos mostram que nós não só estamos permanentemente em guerra, mas também que nós “somos guerra”, todos filhos de Pólemos, inclusive quem se declara pacifista e que às vezes é mais agressivo do que quem, sem ser pacifista, se contentaria mais modestamente em conseguir ser pacífico.

 

Por isso, as armas sempre acompanharam o nosso caminho neste planeta, começando pelas pedras trabalhadas em forma de flecha da pré-história. Elas são um componente estrutural da História. Não existe povo ou civilização que não as tenha tido e usado, e o entrelaçamento entre armas, religiões, mitologia, literatura, arte, economia é tão próximo que é insolúvel e envia a mesma mensagem ambígua cujo nome é “humanidade”.

 

Decorre daí que querer a abolição das armas e o desmantelamento dos exércitos significa querer sair da História. E para onde vamos, ao sairmos da História? Vamos a um lugar que não existe, chamado Utopia, literal e precisamente, “não lugar”.

 

Mas atenção. A obra mais célebre a esse respeito é o ensaio intitulado justamente “Utopia”, de Thomas More, escrito em 1516, quando ele era “vice-xerife da nobre cidade de Londres”, como diz o frontispício da primeira edição impressa. More é um santo da Igreja Católica, nomeado “padroeiro dos governantes” por João Paulo II e, antes ainda, de “mártir” por Pio XI, pois, como Lorde Chanceler da Inglaterra, recusou-se a prestar juramento ao Ato de Supremacia sobre a Igreja inglesa desejado por Henrique VIII, de modo que o rei o mandou prender na Torre de Londres por mais de um ano e, em 6 de julho de 1535, como não havia se curvado, mandou decapitar.

 

Esse grande homem, de caráter jovial e que, entre vida e liberdade, escolheu esta última, preferindo morrer ao invés de trair seus próprios ideais, imagina na sua obra uma ilha onde vive uma sociedade ideal. E como ele aborda o tema da guerra e, consequentemente, das armas e dos exércitos? Ele abole todos com um voo do pensamento, condenando-os como abominação e loucura? Nada seria mais simples. Mas o pensamento de More foi outro: condenou firmemente a guerra ofensiva e reconheceu a necessidade da guerra defensiva.

 

Eis as suas palavras (cujo sujeito são os habitantes de Utopia): “Consideram a guerra como algo absolutamente selvagem – embora nenhuma espécie de animal recorra a ela tanto quanto o homem – e, ao contrário de quase todos os outros povos, não consideram nada tão inglório quanto a glória conquistada na guerra. Por isso, embora treinem com assiduidade em dias estabelecidos, e não apenas os homens, mas também as mulheres, para não estarem despreparados para combater quando houver necessidade, não fazem uma guerra sem sérias razões, mas apenas para defender o seu território, ou para repelir inimigos que invadiram as terras de povos amigos, ou ainda para libertar – com as suas forças e movidos pelo senso de humanidade – da escravidão e da tirania qualquer povo do qual têm compaixão justamente por ser oprimido pela tirania” (“Utopia”, livro II, Ed. Il Margine, 2015, p. 165).

 

Aqui, More faz três coisas:

 

1) condena a guerra de conquista sem meios termos;

2) defende a necessidade da guerra defensiva;

3) declara a oportunidade de ajudar militarmente os povos amigos e os oprimidos pela tirania.

 

Parece que estamos lendo a nossa Constituição [italiana] que “repudia” a guerra (art. 11), mas, ao mesmo tempo, considera a defesa da pátria um “sacro dever” (art. 52). E como a defendemos sem armas?

 

À distância de pouco menos de um século, em 1602, Tommaso Campanella, frade dominicano e filósofo, também ele perseguido pelo poder (neste caso, pela Inquisição católica que o encarcerou por quase 30 anos, submetendo-o várias vezes à tortura), escreveu um obra semelhante, “A Cidade do Sol”, na qual, imaginando, por sua vez, a sociedade ideal, chegou aos mesmos resultados de More sobre a guerra: “Os homens e as mulheres vestem-se de um modo apto a guerrear, embora as mulheres tenham a sobreveste até abaixo do joelho, e os homens, acima dele”; e mais adiante: “É comum a todos a arte militar, a agricultura e a pastoral; todos são obrigados a sabê-las, e estas são as mais nobres entre eles” (Ed. Feltrinelli, 1992, pp. 40 e 57).

 

O ensinamento de More e Campanella (e de muitos outros que prefiguraram o Estado ideal, a partir de Platão) é que, no esforço de buscar a paz e a harmonia acima de todas as outras coisas, não se pode deixar de fazer as contas com a realidade e com o mal que ela infelizmente contém, se quisermos ser responsáveis.

 

Então, o que fazer com a Utopia? Abandoná-la, resignar-se à Realpolitik e à ainda mais real “Economic”? Não, e por isso me lembro das seguintes palavras de Oscar Wilde: “Um mapa-múndi que não inclua a Utopia não é digno de consulta, pois deixa de fora as terras a que a humanidade está sempre aportando” (“A alma do homem sob o socialismo”, Ed. LP&M, 2003, p. 45).

 

Como não preferir um hospital a um míssil? Uma escola a uma bomba de fósforo? Como não desejar destinar os gastos com as armas para saciar a fome e para escolarizar o mundo? Como não concordar com o papa que “a verdadeira resposta não são mais armas, mais sanções, mais alianças político-militares, mas outra abordagem, um modo diferente de governar o mundo já globalizado, um modo diferente de estabelecer as relações internacionais”?

 

Devemos nos voltar com tudo o que somos para essa “outra abordagem”. O papa faz bem em recordar isso com força. Mas e enquanto isso? Enquanto isso, os governos ocidentais fazem igualmente bem ao reconhecerem a realidade e ao estarem à altura do seu dever de garantir a segurança dos cidadãos.

 

É assim que a sociedade progride: conciliando a tensão pela Utopia e o respeito pela Realidade. Quem não tem uma Utopia rumo à qual possa velejar trai a humanidade e a sua sede de bem e de vida; ao mesmo tempo, porém, quem não leva em conta as suas condições reais e a sua necessidade de segurança também a trai.

 

Thomas More e Tommaso Campanella, que pagaram pessoalmente pela fidelidade aos seus ideais, não acreditavam que podiam abolir as armas e os exércitos, nem mesmo imaginando a sociedade ideal. Eles nos ensinam ainda hoje que o gasto com a melhoria da nossa defesa não é uma “loucura”, mas uma necessidade dolorosa, embora necessária.

 

Com uma observação decisiva, porém: já que as armas atuais (químicas, biológicas, atômicas) podem nos destruir infinitas vezes, é necessário, para evitar a autodestruição, que os governos façam um investimento ainda mais importante, reservando à educação da consciência o dobro daquilo que investem em armas. Só assim, talvez, poderemos ver a luz no fim do túnel.

 

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