Aquele impulso perene que nos traz de volta a Adão e Eva

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

30 Abril 2021

 

"Desde Adão - e Eva - em diante somos todos seres irremediavelmente desejosos, impelidos a buscar e nos tornar o que ainda não somos, o que não temos mais", escreve Elena Löewenthal, escritora italiana e estudiosa do judaísmo, em artigo publicado por La Stampa, 29-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o texto.

 

A primeira voz do verbo desejar vem ao mundo com Eva. Em um cosmos bíblico desenhado pela simetria perfeita entre a palavra divina e a matéria - Deus as profere e as coisas se tornam realidade - a mulher nasce porque Adão, e com ele a criação, sentem a sua falta. Eva é o ditado de uma necessidade, de uma ausência sofrida: o homem "sente" que quer algo "à sua frente", diz literalmente o texto. Por mais promissor que seja, este destino do feminino foi infelizmente mais uma condenação do que um privilégio através da história. Mas, é certo que o desejar, que é a consciência primária da falta, a aspiração de ultrapassar os limites da realidade para ir mais longe, para ter mais, para ser diferente, tem sido um instinto fundamental desde então.

Desde Adão - e Eva - em diante somos todos seres irremediavelmente desejosos, impelidos a buscar e nos tornar o que ainda não somos, o que não temos mais. Desejar é um gesto cotidiano do espírito, é um impulso que nos move mil vezes por dia, nos pequenos e nos grandes momentos. É a matéria de que somos feitos, o "estado de afeto do eu que consiste em um impulso volitivo em direção a um objeto externo". Um estado que, por definição, nunca é inerte, mas sempre em movimento.

O ato de desejar é também o que nos leva de volta às origens, àquela fronteira física e metafísica que muda o mundo no instante em que, como que impulsionado por uma iluminação fatal, Adão se dá conta de que lhe falta algo que é necessário, urgente, reconfortante. Aquele momento em que a ausência se torna consciência da imperfeição da criação e Adão pede a Deus para remediar.

Mas a mulher que na Bíblia sela a obra divina com a sua presença última é, no fundo, o eco de outra falta, de outro desejo: aquele de Deus que decide retratar-se para dar espaço e tempo ao mundo, ou seja, criá-lo. É por isso que "desejar" evoca o movimento perene que anima a vida, das estrelas e rumo às estrelas - de sidera ad sidera - que diz tudo sobre o que somos e sentimos.

O impulso do desejo, portanto, que continuamente nos faz seres desejantes, é sem dúvida o campo de investigação maior, mais interessante, mas também enigmático de todo o humano. “Pois ninguém deseja aquilo que possui, mas apenas o que não possui, o que é um claro defeito”, explica-nos Dante no Convívio. E mais do que nunca somos desejosos, neste tempo presente feito de faltas, renúncias, distâncias. Desejosos de ter de volta e ser o que tínhamos, o que fomos e não somos mais.

 

Leia mais