Três mulheres às margens do século XX

Simone Weil, Maria Zambrano e Cristina Campo | Foto: Reprodução

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01 Julho 2019

Em Incandescentes, a crítica literária Élizabeth Bart traça os respectivos destinos de Simone Weil, Maria Zambrano e Cristina Campo, três “anti-modernas”, que beberam, entre outros, em Antígona e São João da Cruz.

A reportagem é de Matthieu Giroux, publicada por La Vie, 28-06-2019. A tradução é de André Langer.

Filósofas, poetisas, místicas... Não faltam qualificativos para designar Simone Weil, Maria Zambrano e Cristina Campo. Três mulheres que conheceram os tormentos do século XX, sua violência, suas ideologias e seu maquinismo. Três “incandescentes” que não sucumbiram a nenhuma das perigosas tentações oferecidas pela época, preferindo cultivar uma paixão pela verdade, pela graça e pelos mitos antigos.

Neste trio, a francesa Simone Weil (1909-1943) é um cometa. Sua breve vida – ela morre aos 34 anos – não lhe permitiu conhecer a totalidade do horror (Auschwitz e Hiroshima). Cometa, mas também a líder, já que a espanhola Maria Zambrano e a italiana Cristina Campo, que mantêm correspondência, a leem e traduzem em seus respectivos idiomas. Elas compartilham suas meditações inquietantes sobre o mundo moderno e suas preocupações com a transcendência. Maria Zambrano (1904-1991) – que atravessou o século – e Cristina Campo (1923-1977) – que foi arrastada pela doença – puderam ver mais longe que Simone Weil e confirmar seus temores.

Todas três, no entanto, têm caminhos diferentes: a experiência na fábrica, o compromisso com os republicanos espanhóis, a partida para Londres para Simone Weil; o exílio forçado na América Latina e na Europa para Maria Zambrano; uma existência limitada a três cidades italianas (Bolonha, Florença, Roma) para Cristina Campo. No entanto, todas três se sentem estrangeiras na época em que nasceram. Sua mentalidade, suas inspirações e preocupações são antigas, anteriores ao mundo moderno, que é para elas uma degradação geral de mentes e corpos. “Nestas ruas escuras eu vi o Inferno (...) onde nasceram crianças que nunca viram um cavalo, nunca respiraram senão gasóleo, que nunca ouviram outro som senão aquele da serra circular e da televisão”, escreve Cristina Campo.

Ao contrário da feiura do presente, elas encontrarão em Antígona um modelo estético e moral. “Como a de Antígona, sua voz há muito tem sido sufocada pelo pensamento escravo dominante das obscuras divindades do nosso tempo. Como Antígona, guiadas pelo amor, elas sacrificaram tudo pela busca da verdade”, enfatiza Élisabeth Bart. Maria Zambrano e Simone Weil propõem uma interpretação pré-cristã da figura de Antígona, cujo amor sem limites se assemelha ao de Cristo na cruz. Aos seus olhos, Antígona é a matriz do heroísmo sacrificial cristão, é uma “vocação” que será encontrada, por exemplo, em Joana d'Arc.

Outra figura decisiva para o trio: João da Cruz, em quem encontraram um guia espiritual que realiza a união da poesia e do misticismo. Graças a ele, elas entenderam a importância do desapego e da renúncia ao poder temporal. Infelizes em seu tempo, Simone Weil, Maria Zambrano e Cristina Campo não permaneceram nostálgicas de um passado de fantasia. Elas sonharam com um “outro mundo” onde os valores espirituais (amor, verdade) triunfariam sobre todos os outros.

Les Incandescentes (Simone Weil, Maria Zambrano, Cristina Campo), d’Élisabeth Bart, Éditions Pierre-Guillaume de Roux, 23€.

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