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13 Dezembro 2008

O jornal Il Foglio me pediu um breve comentário sobre o discurso de Bento XVI à Comissão Teológica Internacional. Longe de casa por causa de uma conferência, encontro-me em um quarto de hotel na beira do mar. Está escuro, não vejo o mar, mas posso senti-lo. Há vento forte, o mar está de borrasca.

Não escrevo essas coisas para fazer um romanticismo a la Friedrich, mas porque elas continuam a voltar à minha mente enquanto procuro recolher as idéias sobre o discurso papal. Bento XVI foi claro como sempre: destacou o “valor irrenunciável da lei moral natural”, disse que a lei natural constitui a verdadeira garantia da dignidade humana, reafirmou “a necessidade e a urgência” de que a cultura contemporânea torne-se consciente dela.

O comentário é de Vito Mancuso, publicado no jornal Il Foglio, 07-12-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Também em minha humilde opinião estou convencido de que sobre o conceito de natureza entra em jogo uma parte relevante, decisiva do nosso futuro. Mas qual lei contém esse mar e esse vento? Essa força da natureza que agora serve de pano de fundo aos meus pensamentos, qual lei manifesta? Vem à minha mente o célebre pensamento de Pascal sobre o homem que não é mais do que um caniço, mas um caniço que pensa e que, enquanto pensa, é superior à força da natureza. “Toda a nossa dignidade consiste no pensamento. É sobre isso que devemos elevar-nos, não no espaço e no tempo, que não poderíamos preencher. Trabalhemos, pois, para pensar bem: eis o princípio da moral”. Pensar bem. É necessário pensar, melhor, repensar a natureza.

A teologia e a doutrina da qual ela é expressão deveriam, de fato, reconhecer com humildade que não sabem muitas coisas sobre a natureza e, portanto, também sobre a “lei moral natural”. Se não se conhece a lógica do fenômeno, como se pode afirmar que se conhece a ética que dele descende? O diálogo, ainda melhor, a escuta da ciência é decisiva quando se fala de “natureza”. É a partir da ciência que se podem esclarecer as idéias sobre a realidade da natureza, e, portanto, do logos do qual ela é expressão, e também da lei que essa exige, evitando assim de qualificar como “lei moral natural” o que, talvez, é só uma convenção cultural. Com isso, não pretendo dizer que a teologia deve ter a última palavra sobre a ciência. Pretendo dizer que ela deve pronunciar as suas palavras só depois de tê-las verificado com as conquistas do saber científico, que, no que se refere à natureza e às suas leis, é o primeiro magistério que a razão deve reconhecer.

Podemos continuar falando hoje de natureza como os homens de dois e três mil anos atrás? Eu acredito que não. Dou um exemplo concreto: podemos continuar crendo e ensinando que a morte foi introduzida na vida biológica pelo pecado do homem (homem cuja origem remonta a cerca de 160 mil anos), quando, ao contrário, sabe-se que a morte existe desde quando existe a reprodução sexuada, isto é, muitas centenas de milhões de anos antes do aparecimento do homem? A morte existe desde muito antes do homem, não é fruto do pecado, mas está inscrita desde sempre na lógica da vida biológica.

A obediência

Bento XVI diz que é necessário obedecer à verdade e que o teólogo deve ser “interiormente purificado pela obediência à verdade”. Palavras estupendas: como não estar de acordo? Mas justamente a obediência à verdade impõe uma revisão de algumas afirmações doutrinais, e certamente não apenas aqueles que ligam a morte ao pecado de Adão.

A natureza, antes mesmo de ser “lei moral”, é ela própria “revelação da verdade”, é o livro que Deus escreve a cada dia e que se aproxima da Bíblia e da Tradição e que, melhor, como ensina o caso Galileu e como Teilhard de Chardin fez no nosso tempo, quando “a natureza” está em jogo, privilegia-se as afirmações dogmáticas em contraste com ela. O magistério da natureza nos mostra que a verdade é maior do que a doutrina consolidada e que à sua “lei”, ontológico antes que moral, a igreja e a teologia também deveriam obedecer. Só se a igreja se colocar em escuta ao magistério da natureza terá, então, a possibilidade de falar fundamentadamente da lei moral que dela emana e da qual o nosso tempo, como Bento XVI corretamente sublinhou, tem uma necessidade urgentíssima.

Mas para obedecer ao magistério da natureza é necessário um estatuto epistemológico da teologia um pouco diferente com relação ao estatuto tradicional prefigurado ontem pelo Papa.

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