Filme de Jodie Foster discute especulação na Bolsa e ética no jornalismo

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27 Mai 2016

'O Jogo do Dinheiro', com George Clooney e Julia Roberts, pode ser considerado farsa dramática sobre o capitalismo.

O comentário é de Luiz Zanin Oricchio, publicado por O Estado de S. Paulo, 26-05-2016.

Eis o texto.

Imagem: Divulgação

O Jogo do Dinheiro, de Jodie Foster, pode ser considerado uma farsa dramática sobre o capitalismo. O original, Money Monster, se refere a um programa de economia pilotado pelo histriônico Lee Gates (George Clooney). Patty Fenn (Julia Roberts) é sua produtora.

O programa é daquele tipo que mistura informação e entretenimento. Notícia e show, com tendência a ser muito mais espetáculo que informação. Não se furta a dar dicas de bastidores sobre investimentos e é nesse ponto que a coisa pega. Gates havia induzido seus espectadores a apostar nas ações de um fundo chamado Íbis. Quando este despenca, leva vários investidores ao ralo. E ao desespero. Um deles, em particular, o jovem Kyle (Jack O’Connell), que havia enterrado na bolsa o dinheiro apurado na venda da casa, uns US$ 60 mil.

Quanto à temática, o filme vem na esteira de obras dedicadas ao crash de 2008, que fez milhares de americanos perderem suas casas e jogou o mundo numa crise econômica que ainda perdura. Saíram daí filmes como Margin Call – O Dia Antes do FimTrabalho Interno e A Grande Aposta, inquietantes ao mostrar o mundo manipulado de forma implacável pelas “razões” do mercado financeiro.

O Jogo do Dinheiro não tem a potência analítica dos antecessores. Mas consegue arrastar o espectador pela vertigem dramática ao dar forma ao desespero de um perdedor. Enlouquecido, Kyle dá um jeito de invadir o estúdio, durante a transmissão ao vivo do programa, e toma o apresentador como refém. Faz com que Gates vista um colete com bombas. O sequestrador o ameaça com uma arma e, na outra mão, segura o detonador apertado. Se soltá-lo, tudo vai pelos ares. Desse modo, se Kyle for abatido, provocará a explosão que matará Gates e, além dele, os câmeras e os técnicos que estão no estúdio. A situação é dramática e Kyle exige que seja transmitida ao vivo. O que deseja? Reparação financeira? Não. Quer explicação. Por que foi induzido a erro? Quem é o responsável pela sua desgraça e de tantos outros investidores?

Essa sem dúvida é a esperteza (no bom sentido do termo) de Jodie Foster, atriz e diretora de talento. A paixão de saber. Mesmo quando nos damos mal, e às vezes muito mal, preferimos saber por que isso aconteceu do que permanecer na ignorância. Como se a verdade, ou o que passe por ela, nos servisse de bálsamo na desgraça. O dinheiro já se foi. A vida, depois do ato de violência, talvez esteja estragada. Mesmo assim, Kyle exige saber como onde e por que se deu mal. E quem é o responsável por seu sofrimento.

O apresentador que o induziu a erro é o alvo mais imediato. Mas ele sabe, e todos sabemos, que ele é apenas a parte visível do iceberg.

Por irresponsável que seja o jornalismo praticado por Gates, alguém o municiou com informações falsas. Manipulações de altas e baixas de ações, informações de cocheira e jogos de cenas servem para tirar dinheiro dos trouxas e transferi-los para o bolso já recheado dos espertalhões. De modo que O Jogo do Dinheiro passa a ser também investigação sobre a Íbis, a tal empresa que lesou os investidores.

O ritmo do filme é bom. Faz a história fluir em tempo real, sem pausas para descanso ou reflexão. O efeito é que também o espectador se sente sob a mira de algo muito urgente e ameaçador. Mas para entrar no jogo para valer precisa suspender a incredulidade, e de forma radical, porque a história é inverossímil do começo ao fim. Tem de ser entendida como fábula, mais que relato atado à realidade como são Margin Call e A Grande Aposta. Trabalha no exagero e no histriônico sem pudor.

Vencida a barreira da desconfiança, vê-se um bom filme, com elenco interessante e estelar (ao menos no que toca a Clooney e Julia).

Peca por alguma inocência, comum a esse gênero norte-americano que procura questionar o “sistema” sem ir lá muito fundo nas causas.

É raro que desçam à estrutura. Ficam na superfície e consideram que o sistema não é ruim; maus são aqueles que o desvirtuam. Como o buraco é mais embaixo, não satisfaz a espectadores mais exigentes. Diverte. E faz pensar um pouco.