A "carne macia" do significante: sobre o discurso do papa em Florença. Artigo de Andrea Ponso

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16 Novembro 2015

Se tivéssemos que instituir uma comparação do estilo de Francisco com a literatura italiana, o pai tutelar certamente seria Dante, que soube abrir o código literário italiano de forma inédita, tocando-o com a sua língua os céus e as profundezas do submundo, a materialidade opaca e a transcendência apofática.

A opinião é do poeta italiano Andrea Ponso, doutor em literatura pelas universidades de Macerata e de Lille. O artigo foi publicado no blog Come Se Non, 12-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O que imediatamente chama a atenção na retórica do discurso do Papa Francisco de poucos dias atrás em Florença é, a meu ver, como já foi dito, a capacidade de manter unidos "alto" e "baixo", rigor e ironia, uma tessitura linguística coerente e sobressaltos imprevisíveis e deflagradores. Mas seria interessante tentar ver, ao menos com algumas referências aqui, os motivos profundas de tal eficácia.

Naturalmente, não devemos nos esquecer de que estamos em um discurso público e, portanto, em um regime da oralidade secundária (isto é, não em um contexto somente oral). Isso, certamente, torna o discurso mais vivo e incisivo, embora parta do texto escrito.

Em um sistema de oralidade secundária, a importância dos significantes, mais do que dos significados, é central: eles permitem uma ação e uma capacidade de habitar o tempo e o espaço do discurso de maneira comunitária, sensível ao eco e à resposta e, ao mesmo tempo, perigosamente aberta ao evento de palavra que acontece no imediato.

Em poucas palavras, é como se a divisão entre significados e significantes, entre sujeito e objeto do discurso, entre singularidade e comunidade ainda não tivesse ocorrido conceitualmente, de modo que esses pares, de outro modo dualistas, trabalhariam sinergicamente para serem o motor do outro, eliminando a rigidez de um modelo já dado de comunidade, de sujeito e de relacionalidade; por isso, encontramos, como ressaltou por Andrea Grillo, contínuas mudanças de sujeito, funcionais àquela que poderíamos chamar de "sinodalidade linguística". Como escreveu recentemente Marcello La Matina,

"Mentalismo e semântica privam a palavra da sua vida prosódia, que pode ser captada apenas no contexto de uma enunciação pública. Subtraídos esses aspectos litúrgicos, o aspecto público da palavra – que permanece no Ocidente loico das universitates – é o da disputatio que é relação paratática entre enunciadores assertórios e perguntas, e não já relação entre um interrogante e um respondente. A partir do momento em que, nesse jogo linguístico, a objetividade de uma afirmação requer, para se cumprir, a athétēsis do sujeito, do eu da enunciação, a espessura dialógica é aparente. Só o enunciado é objetivável, quando se observa para suprimir dele os traços da enunciação, como os dêiticos, os pronomes; em uma palavra, quando se desenraíza a pessoa da linguagem. Com a pessoa, também desaparece o aspecto performativo da palavra, a ação que o eu exerce sobre o tu, e a que ambos dirigem ao isso/ele ou vice-versa" (Marcello La Matina, Note sul suono. Filosofia dei linguaggi e forme di vita)

E me parece que está precisamente nesse risco necessário de não eliminar a "carne macia" da palavra e das pessoas um dos êxitos mais altos da prática discursiva do Papa Francisco, totalmente coerente, aliás, com a sua teologia, com o seu pensamento e com a sua ação.

Um indicador forte, dentre outros, dessa capacidade de arriscar realmente o diálogo e não apenas simulá-lo, permanecendo defensivamente escondido atrás das abstrações e das regras (perigo "gnóstico") e forçosamente segura demais em si mesma pela vontade (perigo pelagiano) é enfatizado pelo próprio pontífice, quando ele descreve o diálogo até mesmo como um "enraivecer-se" e uma aceitação relacional do "conflito".

Mas a novidade mais forte é que, nessa modalidade significante aberta, naquela que chamamos de "sinodalidade linguística", não permanece fechada e intocável por trás da autoridade ou do conceito nem mesmo a própria figura de quem fala: ao contrário, é justamente a voz que toma a palavra que, em primeiro lugar, está "em saída" e se ex-põe ao risco e ao fazer-se contínuo da própria identidade e consistência na relação/confronto com a alteridade.

Outro exemplo é fornecido pela vertiginosa capacidade, apesar da sua aparente forma plana, de curto-circuitar o alto e o baixo, entrelaçando teologia, Bíblia e referências nada "cultos", mas que, dentro da dinâmica do discurso, assumem uma força disruptiva, que, literalmente, co-move.

Dito aqui apenas como referência, se tivéssemos que instituir uma comparação com a literatura italiana, o pai tutelar certamente seria Dante, e não Petrarca: também linguisticamente, de fato, o primeiro soube abrir o código literário italiano de forma inédita, tocando-o com a sua língua os céus e as profundezas do submundo, a materialidade opaca e a transcendência apofática, mas nem por isso menos experimentável do que aquele "bolor de prepotências que é a realidade" (A. Zanotto).

Uma experiência, a dantesca, que depois foi encerrada e domesticada através da codificação petrarquesca e bembesca, inserindo no discurso literário cotas de realidade cada vez menores. Parece-me uma metáfora, esta, que poderia ser aplicada, em muitos aspectos, também à Igreja e à reflexão teológica italiana.

Tudo isso nos leva a redescobrir linguisticamente algo que é fundamental também do ponto de vista teológico, e que os Padres já tinham intuído profundamente: o que faltava antes da vinda de Cristo e da sua encarnação não era tanto os significados, mas os significantes, a carne novamente viva da palavra que se faz ação, tempo, relação e história.

O Significante que faltava era Cristo, que, em toda a sua vida e até a cruz, sempre teve a capacidade de antepor a carne ao signo, mas sem eliminar a necessidade deste: o corpo está acima do signo de morte da cruz; ele está pregado nela e, mesmo assim, livre e, como o Espírito Santo e a Sua liberdade, poderá ser tocado e degustado, mas não contido: "noli me tangere".

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