A cruz da reforma. Artigo de Enzo Bianchi

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09 Novembro 2015

Quanto mais o Papa Francisco realizar a reforma da Igreja, mais pesada será a cruz sobre as suas costas: ao lado do reconhecimento e da gratidão dos cristãos que tentam viver o Evangelho e dos "justos" até mesmo não cristãos, ao lado do reconhecimento dos pobres, aparecerá o desprezo, a deslegitimação, a ofensa dos poderes mundanos, internos e externos ao mundo eclesial.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 07-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em alguns momentos da história da Igreja, emerge a necessidade de reforma: "Ecclesia semper reformanda" é um adágio retomado muitas vezes no segundo milênio e na Igreja latina, até dar origem a Igrejas "reformadas" ou "da Reforma", suscitar uma "Contrarreforma" e provocar divisões e separações de cristãos dentro da mesma Igreja.

Reforma da Igreja toda e de cada cristão que, no seu próprio caminho espiritual, deve absolutamente "deformata reformare", isto é, dar nova forma ao que se tornou "disforme" em relação ao Evangelho. Mas essa exigência universal de reforma é fundamental para aqueles que, na Igreja, têm a responsabilidade de governo ou são figuras exemplares para todos os cristãos: papa, bispos, presbíteros, monges...

Muitos se lembram da reforma "gregoriana", tentada pelo Papa Gregório VII, no século XI, ou a reforma amarga e muito curta do papado, realizada na sua pessoa pelo Papa Celestino V, no fim do século XIII: [Ignazio] Silone [1900-1978, escritor e político italiano], no seu "A aventura de um pobre cristão", descreveu de modo literário o caso do eremita eleito papa contra a sua vontade e, depois, induzido ou forçado a renunciar por ser impotente diante das manobras da Cúria e das intrigas dos cardeais.

Mas não podemos nos esquecer de outras tentativas de autoridade por parte daqueles que, diante da corrupção desenfreada e especialmente romana, pediam a reforma da Igreja "in capite et in membris", no papado e em todo o corpo eclesial.

Podemos recordar, ao menos, outros dois papas: Adriano VI, holandês eleito papa em 1522, logo encontrou muitas oposições, até mesmo por parte da Cúria por causa da sua vida austera. Enquanto já se expandia a reforma de Lutero, o Papa Adriano se mostrou decidido na luta contra os maus costumes dos eclesiásticos, pediu uma limitação das despesas da corte, promoveu uma vigilância sobre o uso do dinheiro e sobre a administração lucrativa das indulgências, iniciou uma drástica redução dos escritórios curiais. Reconhecendo as razões do movimento protestante, chamou a Igreja a uma reforma, defendida também por Erasmo, mas fracassou na sua tentativa: morreu depois de um ano e alguns meses de pontificado, com apenas 54 anos.

Permanecendo nas reformas tentadas pela "cúpula", encontramos o Papa Marcelo II: como bispo e cardeal, participou do Concílio de Trento, contestando àquela cúpula a qualificação de "representar a Igreja universal", pois estavam ausentes tanto o Oriente cristão quanto os reformados protestantes. Em 1555, foi eleito papa, manteve o seu nome de batismo e rejeitou qualquer pompa e fausto triunfais para a sua coroação como papa. Logo se mostrou convencido da urgência da reforma da Igreja – começando pela Cúria – e da vida de padres e monges, já acostumados a abusos e comportamentos escandalosos, não concedeu favores aos parentes e assumiu ele mesmo, com rigor, um estilo de vida evangélico, pobre e humilde. Mas o seu pontificado durou menos de um mês...

Outras tentativas foram feitas pelo Concílio de Trento, em particular através da obra de alguns bispos e santos fundadores ou reformadores de ordens: significativamente, os historiadores já não falam mais de "contrarreforma", mas sim de "reforma católica".

Mas a necessidade de reforma emergiu novamente com força no século passado, como testemunho o próprio título de uma obra fundamental de um dos grandes teólogos do Vaticano II, o Pe. Yves Congar: "Verdadeira ou falsa reforma na Igreja".

Assim, o Papa João XXIII e o Concílio por ele desejado – continuado e levado a cumprimento por Paulo VI – realizam uma reforma tanto do estilo do papado, quanto de toda a vida litúrgica e espiritual da Igreja, quanto ainda do modo de ser dos cristãos na companhia dos homens.

Esse início de reforma, que recomeçou com Bento XVI, hoje foi retomado fortemente pelo Papa Francisco, que, a esse respeito, foi explícito desde o início do seu pontificado, manifestando o desejo resoluto de uma Igreja pobre e misericordiosa.

Esse seu programa essencial requer reformas em diversos níveis: desde a forma do exercício do papado até a unidade visível das Igrejas cristãs, das estruturas da Cúria – que deve estar a serviço do papa e ainda mais a serviço das Igrejas locais de todo o mundo – até o estilo de vida de todos os eclesiásticos. E isso, simplesmente, em nome do Evangelho, do qual o Papa Francisco quer ser servo e ministro.

Há dois anos e meio, esse sucessor de Pedro, que gosta de se definir como "bispo de Roma, a Igreja que preside na caridade", mostrou que quer ser, em primeira pessoa, um realizador daquilo que prega. Não é um rigorista, nem propõe uma interpretação literal do Evangelho, não quer exercer um ministério de condenação, mas pede que os cristãos se reconheçam pecadores, porque essa é a sua realidade, e não sejam corruptos, cínicos, duros de coração, insensíveis às exigências do Evangelho e à contínua conversão que isso requer.

As resistências que ele encontra fazem parte de uma "necessitas" predita por Jesus aos seus discípulos e por ele sofrida: quando aparece o justo, então o ímpio se desencadeia; quando algumas vidas cristãs conseguem fazer brilhar o Evangelho, então irrompem as trevas; quando alguém anuncia o Evangelho e o vive, então lhe atiram pedras.

Quanto mais o Papa Francisco realizar a reforma da Igreja, mais pesada será a cruz sobre as suas costas: ao lado do reconhecimento e da gratidão dos cristãos que tentam viver o Evangelho e dos "justos" até mesmo não cristãos, ao lado do reconhecimento dos pobres, aparecerá o desprezo, a deslegitimação, a ofensa dos poderes mundanos, internos e externos ao mundo eclesial.

O cardeal Coccopalmerio declarou: "Esse papa começa a dar medo!". Medo a quem? Àqueles que são surdos às exigências da justiça, àqueles que não querem escutar os pobres, àqueles que gostam de se servir dos outros pelo seu poder, pela sua afirmação, pelas suas riquezas...

As supostas revelações desses dias, que não constituem uma grande novidade, certamente ferem aqueles que acreditam na justiça e amam a Igreja: são indicadoras do "mistério de iniquidade" em ato, como já denunciava Bento XVI, até mesmo no espaço preparado justamente para a justiça e o serviço dos irmãos e das irmãs.

Não gastaremos nenhuma palavra para comentá-las: isso significaria alimentar ainda mais fofocas e murmurações que o Papa Francisco denuncia constantemente como atentado à verdade e à caridade.

Não cedamos a calúnia fácil demais, não condenemos ninguém sem tê-lo escutado e tenhamos uma visão realista até mesmo da Cúria, onde trabalham com dedicação, competência, transparência e honestidade homens que buscam também no exercício do governo viver o Evangelho e o leal serviço ao papa e a todas as Igrejas.

E se é verdade que um "cristão não pode falar de pobreza e viver como um faraó", como disse o Papa Francisco, continua sendo verdade que falar de pobreza nos faz corar a todos, e que a palavra pobreza queima os lábios de quem a pronuncia.

Se Ignazio Silone escreveu "A aventura de um pobre cristão" sobre o Papa Celestino V, poderíamos dizer sobre o Papa Francisco: "A aventura de um cristão pobre".

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