Jesuíta indiano: o governo de Modi fracassou

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Por: André | 18 Mai 2015

Palavras vazias e poucos fatos. Cedric Prakash, jesuíta indiano e fundador do Centro para a Justiça e a Paz Prashant em Gujarat, critica duramente o primeiro ano de governo de Narendra Modi, primeiro-ministro indiano que em 16 de maio de 2014 triunfou pelo voto na maior democracia do mundo.

A reportagem é de Paolo Affatato e publicada por Vatican Insider, 17-05-2015. A tradução é de André Langer.

Prakash acaba de participar da assembleia da Caritas Internationalis em Roma e concedeu uma entrevista ao Vatican Insider na qual certifica o fracasso do primeiro ano do governo do Partido Baratiya Janata. Muitos observadores consideram que as ações de governo do primeiro-ministro são insuficientes e duvidam da sua eficácia como administrador competente, reformador da economia e como ator capaz de manter o país unido.

O jesuíta explica: “Justiça, liberdade, direitos humanos: é o Evangelho que inspira a nossa obra, oferecendo instrução aos pobres e na campanha pela dignidade do homem”, que Prakash, com uma equipe de jesuítas e leigos do Centro Prashant (Pacífico) realizam há 15 anos.

“Agir pela justiça – explica Prakash descrevendo seu compromisso – é expressão da caridade, como disse a encíclica Deus Caritas Est e como destaca o Papa Francisco em sua Evangelii Gaudium. Ser cristão significa sair pelas ruas e fazer-se próximo, acompanhando as pessoas, para construir um mundo mais justo e mais fraterno. E significa curar os feridos, como em um hospital de campanha. Cristo nos ensina a amar os pobres e a estar do seu lado. Um verdadeiro cristão é um testemunho do amor de Deus. Evangeliza-se não tanto com palavras, mas vivendo o Evangelho na vida cotidiana”.

Desde este enfoque, este olhar evangélico, a conjuntura indiana é alarmante: “Modi não respondeu às questões mais urgentes que sacodem a Índia de hoje. A prioridade de mudar o modelo de desenvolvimento para reduzir a distância entre os ricos e os pobres. E depois, o câncer do comunitarismo está erodindo o modelo de diversidade e de pluralidade, característico da nossa terra. Grupos radicais quiseram uniformizar a Índia com o hinduísmo: apesar de serem minoritários, são grupos bem visíveis e barulhentos. E com Modi ganharam mais força e mais coragem”.

“Outro tema essencial é o acesso à alimentação: a segurança alimentar ainda é uma ilusão para muitos indianos e o problema é a justa distribuição, como indicou recentemente o Papa Francisco. E como não recordar a condição das mulheres em uma sociedade rigidamente patriarcal que as discrimina e abusa delas; ou o sistema das castas, abolido formalmente na Constituição, mas ainda bem presente na hora de condicionar as relações sociais”.

“O governo fracassou completamente em relação a estes pontos – insiste o jesuíta. No entanto, há também uma responsabilidade do povo indiano que, por exemplo, pode ajudar a deter a corrupção e não encorajando-la. Todo o povo deve tomar uma posição. Neste processo, a Evangelii Gaudium é um ponto de referência seguro, assim como o Papa, com suas palavras e ações proféticas”.

E a situação das minorias religiosas é indispensável: “Minorias como os cristãos sofrem, dado que a violência e os ataques aumentaram. Existiam também sob o governo do Partido do Congresso, mas a diferença é que hoje o executivo protege os grupos extremistas. A violência se institucionalizou. Os grupos radicais hinduístas sentem-se legitimados para agir, impunes. Enquanto Modi usa a retórica da tolerância, a Índia encontra-se em um plano inclinado”.

Em uma situação como esta, insiste Prakash, “assim como Madre Teresa, podemos contribuir para a mudança graças a um coração compassivo. Como católicos, entraremos no Ano Santo da Misericórdia. Será um tempo precioso para a Índia. Chama-nos para ter um coração compassivo em nível pessoal e comunitário. A misericórdia converte-se em um exemplo, sobretudo quando se dirige àqueles de quem ninguém se ocupa”.

“Este enfoque – prossegue – deve ser considerado no marco da justiça. Se uma pessoa se equivoca ou um sistema está equivocado, um homem compassivo deve dizê-lo. Perdoar não significa aceitar a injustiça, mas impulsionar a mudança. Como demonstra a passagem do Evangelho do Filho Pródigo”.

Assim, espera-se de Narendra Modi um gesto de reconciliação em relação às vítimas dos massacres de 2002, em Gujarat, por parte de militantes hindus, que assassinaram dois mil muçulmanos. Prakash e seus irmãos viveram essa terrível página e trataram de frear a violência cega no Estado em que Modi era governador e “virou-se para o outro lado”.

“Com um reconhecimento e uma indenização justa, os sobreviventes estariam prontos para abraçá-lo. Cremos na conversão ao bem do ser humano”. E isto também está escrito no Evangelho.