A volta do ''vice-papa'' de Honduras simboliza a era do Papa Francisco

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14 Mai 2015

Muitas coisas mudaram no dia 13 de março de 2013, dia em que o cardeal Jorge Mario Bergoglio, da Argentina, foi eleito Papa Francisco. Mas talvez nada tenha mudado tão drasticamente como a carreira do cardeal de Honduras, Oscar Rodríguez Maradiaga, uma voz da liderança progressiva no catolicismo.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio Crux, 12-05-2015. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Não faz muito tempo, a sorte de Rodríguez parecia em coma depois de alguns constrangimentos públicos e uma humilhante derrota em uma luta de poder no Vaticano. Hoje, ele é praticamente o "vice-papa", coordenador do importante grupo de cardeais assessores de Francisco e seu intérprete mais visível e franco.

Rodríguez estava atuando em sua função de "vice", na terça-feira, usando uma coletiva de imprensa do Vaticano para rebater as críticas norte-americanas sobre o próximo manifesto do papa sobre o meio ambiente.

Uma vez, parecia plausível que o próprio Rodríguez pudesse ter o cargo mais alto da Igreja. Na década de 1990, foi o cardeal hondurenho, e não Bergoglio da Argentina, que aparecia como o rosto carismático de uma ressurgente fé latino-americana.

Eleito presidente da Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM) de 1995 a 1999, Rodríguez tornou-se um líder feroz do ensinamento social católico e um crítico mordaz do sistema econômico global "neoliberal". Ele também fez amizade com Bergoglio, que complementava a liderança pública de Rodríguez como uma força importante por trás dos bastidores.

Rodríguez foi introduzido no Colégio Cardinalício em 2001, e foi, obviamente, o astro daquela leva de cardeais. Hondurenhos animados inundaram Roma, gritando de alegria a cada um de seus movimentos, comparando-o a uma estrela do futebol ou a uma celebridade de "punta" hondurenha, a tradição musical mais popular do país.

Tal aclamação, no entanto, gerou uma reação, e ela não demorou a chegar.

Quando o Papa João Paulo II viajou para o México, Guatemala e Honduras em 2001, ele levou junto seu cardeal hondurenho recém-formado. Alguns da comitiva papal acharam que Rodríguez deliberadamente ofuscava o pontífice polonês, dando suas próprias coletivas de imprensa improvisadas em vários idiomas ao longo da viagem.

Alguns veteranos da Igreja começaram a reclamar que o arrivista parecia estar "concorrendo para papa".

Os conservadores também começaram a criticar a fundação teológica de Rodríguez, observando que ele tinha estudado teologia moral com um alemão chamado Bernard Häring, cujos pontos de vista liberal sobre a moralidade sexual não eram favoráveis ​​durante os tempos de João Paulo II e os anos subsequentes de Bento XVI.

Tendo-se tornado uma celebridade da noite para o dia, Rodríguez, por vezes, parecia fora de sua alçada. Em 2002, ele desencadeou uma tempestade nos Estados Unidos, comparando as críticas feitas à Igreja Católica com relação aos escândalos de abuso sexual com as perseguições de Nero, Diocleciano, Hitler e Stalin.

Ele chegou ao ponto de sugerir que a obsessão da mídia norte-americana com os escândalos era uma forma de desviar a atenção do conflito entre Palestina e Israel, insinuando que ela refletia a influência de um lobby judaico. Esses comentários geraram protestos tanto das vítimas de abusos sexuais quanto da Liga de Antidifamação.

Nos anos seguintes, houve comentários de que a retórica de Rodríguez não acompanhava os detalhes da política, incluindo assuntos em seu próprio país.

Quando o esquerdista Manuel Zelaya chegou ao poder em 2006, Rodríguez parecia apoiar o novo líder, mas mais tarde tornou-se seu crítico, afirmando que Zelaya estava sendo radicalizado por Hugo Chávez, da Venezuela. Na sequência de um golpe militar em junho de 2009, primeiro, ele permaneceu em silêncio, em seguida, leu um comunicado na televisão nacional parecendo abençoar a ação. Eventualmente, ele recuou, insistindo que tinha apoiado o golpe como uma maneira de evitar um derramamento de sangue.

Tudo isso foi um prelúdio de uma derrocada no Vaticano.

Em 2007, Rodríguez foi eleito presidente da Cáritas, uma federação formada por 164 organizações católicas de caridade com sede em Roma. No início de 2011, o Vaticano não permitiu que Lesley-Anne Knight, uma leiga nascida no Zimbabwe, que tinha sido secretária-geral da organização, permanecesse para um segundo mandato.

Havia rumores de que a manobra foi em retaliação ao que foi visto como uma associação inaceitável entre a Cáritas e outras ONGs seculares, algumas das quais fornecem controle de natalidade e defendem o aborto. Um ano depois, o Vaticano decretou um conjunto de novos estatutos para a Cáritas, impondo controles mais rígidos por parte dos bispos e exigindo que os altos funcionários façam um juramento de fidelidade.

À medida que a pressão se intensificou, empregados e membros da Cáritas procuraram Rodríguez para montar uma defesa. Primeiro, ele tentou salvar Knight e, em seguida, repelir as novas regras, e em ambos os casos não teve sucesso. Como resultado, Rodríguez perdeu quase toda sua influência remanescente.

Na verdade, ele se tornou o tipo de figura cuja entrada em salões romanos provocava um silêncio embaraçoso. Como alguém do Vaticano expressou na época, de forma humorada, "Você pode colocar um ponto final na sua carreira, porque ele está acabado".

Hoje, ninguém mais está fazendo esse tipo de piada.

Com o apoio do novo papa, Rodríguez, de 72 anos de idade, é sem dúvida o segundo homem mais poderoso no catolicismo. Ele é o símbolo de liderança de um grupo inteiro de homens da Igreja, considerados de centro-esquerda, que pareciam marginalizados até pouco tempo atrás, mas que hoje estão claramente de volta ao jogo.

Uma autoridade do Vaticano capturou a reação logo após a eleição do novo papa, quando Francisco nomeou o prelado hondurenho como coordenador do conselho de cardeais.

"Querido Deus", disse, boquiaberto, "Oscar está de volta!"

Enquanto Francisco estiver no comando, ele não parece ir a lugar nenhum.

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