O que aconteceria com os gregos se o país deixasse o euro?

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Por: Cesar Sanson | 19 Fevereiro 2015

O governo da Grécia, eleito em janeiro sob a promessa de que acabaria com as medidas de austeridade impostas no país, segue travando um braço de ferro com a União Europeia (UE) na negociação por um novo acordo financeiro.

A reportagem é publicdada por BBC Brasil, 18-02-2015.

A Grécia quer um empréstimo e não uma extensão do acordo de resgate - fechado com a UE e o FMI para tirar o país de sua profunda crise econômica -, que inclui as duras medidas de austeridade. Se não houver acordo até o final de fevereiro, a Grécia ficará sem meios de conseguir dinheiro e se veria praticamente obrigada a sair da zona do euro.

Seria uma situação inédita; desde 1999, ano em que o euro foi lançado, nunca um país teve de desistir da moeda. E não há um processo formal estabelecido para um caso desses - tudo seria feito na base do improviso.

Veja abaixo respostas a algumas das principais dúvidas que surgem para o caso da Grécia ter mesmo de deixar a zona do euro.

O que aconteceria com a Grécia?

O ex-primeiro-ministro grego Antonis Samaras advertiu que o padrão de vida grego poderia cair em 80% nas semanas seguintes a uma eventual saída do euro.

O governo grego, incapaz de tomar empréstimos - mesmo de outros países europeus - ficaria sem dinheiro. Teria que pagar benefícios sociais e salários de funcionários públicos em notas promissórias - se conseguir pagá-los - até que uma nova moeda fosse introduzida.

A Grécia não conseguiria pagar suas dívidas, que atualmente somam cerca de 320 bilhões de euros (cerca de R$ 1 trilhão), a maior parte com governos e agências europeias e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

O governo teria que impor um congelamento a saques e remessas de dinheiro ao exterior. Isto poderia levar a uma corrida de gregos aos bancos tentando sacar o dinheiro de suas contas antes que ele seja convertido a uma nova moeda cujo valor seria substancialmente menor.

No longo prazo, a economia da Grécia se beneficiaria com uma taxa de câmbio muito mais competitiva. Mas a desvalorização não resolveria outros problemas da economia, incluindo o sistema de cobrança de impostos falho e dificuldades em controlar os gastos do governo.

Há também a possibilidade real de alta da inflação. A arrecadação fiscal provavelmente cairia com a contração da economia e o governo, então, financiaria os gastos, emitindo moeda.

A provável desvalorização da moeda também seria inflacionária e tornaria bens importados mais caros - o que incluiria diversos alimentos e remédios.

O que aconteceria com a zona do euro?

Há também o afrouxamento monetário (conhecido como "quantitative easing", ou QE), o programa de compra de títulos da dívida pública em toda a zona do euro, anunciado pelo BCE em janeiro.

O plano não tem como alvo países financeiramente vulneráveis, mas a expectativa já reduziu os custos de empréstimos de governos, que permaneceram baixos para todos os países da zona do euro, à exceção da Grécia.

Apesar de tudo isso, se a Grécia realmente deixar a zona do euro, o contágio financeiro não pode ser descartado.

Correntistas de outros países da zona do euro em dificuldades, como Espanha ou Itália, também poderiam transferir seus depósitos para locais mais seguros, como a Alemanha, provocando uma crise bancária no sul da Europa.

A confiança em outros bancos que emprestaram grandes volumes para o sul da Europa - como os bancos franceses - também poderia ser afetada. Tal crise bancária poderia se espalhar pelo mundo, assim como em 2008.

O que significa para as empresas?

Empresas gregas enfrentariam um desastre legal e financeiro. Alguns contratos regidos pela lei grega seriam convertidos para uma nova moeda, enquanto outros contratos estrangeiros permaneceriam em euros. Muitos contratos poderiam acabar em disputas judiciais.

Empresas gregas que têm grandes dívidas em euros com credores estrangeiros, mas cujas principais fontes de renda seriam convertidas para uma outra moeda desvalorizada, não conseguiriam honrar seus compromissos.

Muitas empresas ficariam numa situação de insolvência - com suas dívidas valendo mais do que seus ativos - e estariam à beira da falência. Credores estrangeiros e parceiros de empresas gregas enfrentariam grandes perdas.

No resto da zona do euro, empresas, temerosas com o futuro do euro, poderiam cortar investimentos. Diante de uma enxurrada de más notícias na imprensa, cidadãos comuns poderiam começar a reduzir seus próprios gastos. Tudo isso poderia empurrar a zona do euro para uma recessão.

O euro poderia perder valor nos mercados de câmbio, o que daria um certo alívio à zona do euro por tornar suas exportações mais competitivas no cenário internacional. Mas a desvantagem é que as importações ficariam mais caras - especialmente nas transações com EUA, Reino Unido e Japão.

Quais seriam as consequências políticas?

Uma saída grega minaria a ideia de que o projeto do euro é irreversível e poderia dar impulso a forças contrárias à moeda única e à União Europeia em outros países.

Na Espanha, o partido de esquerda antiausteridade Podemos está se fortalecendo, e haverá eleições ainda neste ano. Em Portugal, que também vai às urnas neste ano, há uma crescente insatisfação com medidas de austeridade.

Nos termos da atual legislação europeia, o abandono do euro provavelmente também significa deixar a União Europeia. Mas havendo vontade política dos países do bloco, é provável que seria possível encontrar uma maneira de manter a Grécia na UE.

 

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