''Cartas a um amigo fraterno'', de Christian de Chergé

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21 Janeiro 2015

Publicamos aqui algumas cartas enviadas pelo monge trapista Christian de Chergé (1937-1996), do Mosteiro de Atlas, em Tibhirine, Argélia, enviadas ao padre Maurice Borrmans entre 1976 e 1995, publicadas pela editora Bayard com o título Lettres à un ami fraternel.

As missivas foram publicadas no jornal La Croix, 15-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis as cartas.

"É muito cedo para falar de futuro"

Tibhirine, 21 de outubro de 1975

Meu caríssimo Padre,

Uma ocasião em relação à França me permite de fazer-lhe chegar estas duas linhas depois da chegada das suas cartas do dia 11. Gostaria de lhe agradecer de todo o coração por todas aquelas novas atenções que me tocam profundamente. Mas hoje se trata de outra coisa...

Na semana passada, a gendarmeria recebeu a ordem de ocupar os três santuários de Notre Dame d'Afrique, de Santa Cruz e de Annaba (1); algumas comunidades haviam sido convidadas a evacuar dentro de oito dias; na sexta-feira 17, mais ou menos na hora da sua missa no Ipea (2), cabia a nós, com o mesmo tempo à disposição e com o mesmo pretexto: instalação de equipamentos de transmissão.

Parece que todas essas medidas são o reflexo de um desconforto político e que o seu "aspecto religioso" tem a ver, principalmente, com o fato de que a maioria dos estrangeiros ainda estabelecidos aqui são pessoas da Igreja. Grande prova para o cardeal (3), que retorna hoje da França; contamos muito com o seu discurso, e a nunciatura nos deixou alguma esperança...

Eu acredito que faremos de tudo para proteger o nosso assentamento, ao custo de mudar de local e talvez um pouco de estilo de vida; as condições que a Argélia criou em torno da nossa vida monástica nos parecem ser mais preciosas do que nunca no momento em que cada um vê como iminente a possibilidade de um retorno disperso nas comunidades de origem, tão marcadas pela influência dos sortilégios econômicos do Ocidente. Como continuar vivendo juntos aquilo que nos uniu tão fortemente a este país?

Por isso, é muito cedo para falar do futuro. Sobretudo, eu queria confiar à sua oração – e à sua discrição – esta prova que, também para nós, é uma maravilhosa oportunidade de confiança compartilhada e de despojamento: aprender a "fazer as malas", uma bela oportunidade da qual seremos devedores à Argélia, seja o que acontecer.

Notas:

1. Tratava-se da Basílica de Notre Dame d'Afrique, com vista para Argel, e Saint-Eugène (que se tornou Bologhine), da Basílica de Notre Dame de Santa Cruz, com vista para a cidade e para o porto de Oran, e da Basílica de Santo Agostinho,com vista para a cidade de Bône, que se tornou Annaba.

2. Instituto Pontifício de Estudos Árabes, anteriormente chamado Pisai, Pontifício Instituto de Estudos Árabes e de Islamologia.

3. Cardeal Léon-Etienne Duval, arcebispo de Argel de 1954 a 1988.

* * *

"Um chamado monástico que passa pelo canal da oração muçulmana"

22 de outubro de 1976

Caro Padre,

Antes de retomar este contato epistolar, quis reler a sua longa carta do dia de São Bernardo e também o último número de Se comprendre (1) sobre Maria, tudo isso para me sentir ainda mais próximo do senhor.

Exatamente há um mês, no dia 22 de setembro, eu celebrava a festa de São Maurício, segundo as suas intenções, resmungando um pouco pelo fato de estar muito "preso" para poder lhe enviar duas linhas. Naquele dia, começava a visita regular do abade de Aiguebelle (2), cujo balanço superaria todas as esperanças e fez desaparecer medos e apreensões.

Um amplo debate da comunidade examinaria o meu pedido de compromisso definitivo: essa demanda, muito circunstanciada, colocava claramente a questão de um chamado monástico que passasse pelo canal da oração muçulmana e buscasse a fidelidade a Deus em uma acolhida deste mundo em que o nosso mosteiro está inserido.

Tendo concordado que tal chamado não era incompatível com o "particularismo cisterciense", os irmãos chegaram a definir (pela primeira vez!) a missão própria da nossa comunidade, que já se aceita como "presença da Igreja orante na oração do Islã e presença monástica na Igreja da Argélia": uma fórmula admiravelmente adequada para o que eu "sinto" e que eu lamento de viver tão mal...

A partir daquele momento, tudo mudou muito rapidamente: "estabilidade" de todos os irmãos que vieram de outros mosteiros; um percurso que nos une em nove no bem e para além do mal, de modo que, "expulsos de uma cidade", iremos para outra, junto com o mesmo desejo de ouvir Deus que fala ao coração do irmão muçulmano (3).

Notas:

1. Revista dirigida pelo padre Maurice Borrmans, em Roma. Alusão ao número 81, de 29 de setembro de 1976, "Presença de Maria no Islã".

2. Abadia-mãe de Notre Dame de l'Atlas.

3. No dia 29 de setembro, Christian tinha explicado, diante dos oito monges presentes, as razões do seu compromisso na Argélia, já que, por unanimidade da comunidade, ele tinha sido admitido para pronunciar os votos perpétuos no dia de Santa Teresinha do Menino Jesus, no dia 1º de outubro. A comunidade, então, era "composta pelos irmãos Aubin, porteiro, e Jean-Pierre, motorista e cantor, que chegaram em Tibhirine em 1964 de Timadeuc, na Grã-Bretanha, pelo irmão Roland, responsável pelo jardim, que chegou de Notre-Dame-des-Neiges (Ardèche) em 1974, pelo padre Jean-Baptiste, o superior, e pelos dois idosos de Atlas, Frei Luc, o médico, e Frei Amédée", aos quais, portanto, se unia Christian (em Christian de Chergé, priore di Tibhirine, de Marie-Christine Ray, Ed. Bayard-Centurion, 1998, p. 108). Marie-Christine Ray assinala que "Christian entregou, então, aos seus irmãos da comunidade um longo documento de fogo, intitulado 'O sentido do chamado'. É o credo e o programa de um monge cujo cristianismo foi iluminada pela fé dos crentes do Islã e que acredita que pode ir ao seu encontro no seu caminho para Deus", e refere o conteúdo integral desse documento, em Christian de Chergé..., p. 110-114.

* * *

"Certamente, a insegurança permanece..."

Fez (1), 28 de novembro de 1995

Caro Maurice,

este menino e esta menina no mesmo barco (2), na areia, talvez sejam a imagem da Argélia de amanhã, com o sorriso reconquistado e a Paz inventada como uma nova distribuição em uma sociedade plural etc.

Ninguém pode negar as características incontestáveis da recente eleição presidencial: fortíssima participação / coragem do povo / vitória das mulheres / determinação contra a violência armada / opção por um Islã moderado e também pluralista / fracasso do convite ao boicote e dos "grandes partidos" que a plataforma de Santo Egidio deveria ter criado...

Certamente, a insegurança permanece... mas a essa esperança do rosto do menino é preciso deixar o tempo para crescer. Tantos sofrimentos contribuíram para o seu nascimento, até o sangue de Odette (3), maternalmente oferecido.

Anexo o esquema de um encontro feito no DIM (Diálogo Inter-Religioso Monástico) para despertar a consciência monástica para as perspectivas de um diálogo específico com o mundo do Islã (e não só sufi!).

Feliz Natal e Feliz Ano Novo!

Christian

Notas:

1. A convite da Igreja do Marrocos, a Abadia de Notre Dame de l'Atlas abriu um priorado antes em Fez, em 1987, transferido depois para Midelt no Alto Atlas.

2. Esta carta foi escrita no verso de um cartão postal, "Faces da Argélia", com a fotografia de duas crianças, um menino e uma menina, de B-Y-Cherif.

3. Ir. Odette Prévost, das Irmãzinhas do Sagrado Coração, também ela ex-aluna do padre Maurice Borrmans, foi morta em Louba, perto de Argel, no dia 10 de novembro de 1995.

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