Apostas altas para a assembleia anual da LCWR

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11 Agosto 2014

A maior organização de líderes religiosas se prepara para se reunir durante quatro dias em Nashville, Tennesse, de 12 a 16 de agosto, mas o grupo parece estar diante de um precipício. O que está em ambos os lados ou qual o caminho que o grupo irá optar por seguir, ninguém pode dizer.

A reportagem é de Dan Stockman e Dawn Cherrie Araujo, publicada por National Catholic Reporter, 08-08-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

A Conferência de Liderança das Religiosas (LCWR, sigla para Leadership Conference of Women Religious) tem estado sob a sombra de uma avaliação doutrinal ordenada pelo Vaticano desde 2009. Na sequência do inquérito, em 2012, a Congregação para a Doutrina da Fé, ordenou a reforma de seus estatutos e nomeou um bispo para supervisionar as mudanças.

Agora, a situação é mais gritante: em abril, o cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação, ordenou que, após esta assembleia, oradores em eventos do grupo devem ser aprovados pelo arcebispo J. Peter Sartain de Seattle, que lidera a agenda de reformas de cinco anos para a LCWR.

Mas será que os membros da LCWR vão optar por seguir o mandato de Müller de que Sartain tem o poder de aprovação dos palestrantes em seus grandes eventos? Ou será que o grupo vai decidir manter a sua afirmação de que as sanções são "desproporcionais às preocupações levantadas e comprometem a capacidade da organização para cumprir sua missão"?

A LCWR - que representa cerca de 80% das irmãs nos Estados Unidos - utiliza uma estrutura de colaboração, de modo que os membros irão discutir as questões, decidir a necessidade de voto e o que votar. Os membros podem optar por não fazer nada.

"Eu não consigo imaginar o que vai acontecer", disse Marian Ronan, professora e pesquisadora de estudos católicos no New York Theologcal Seminary e autora de Sister Trouble: The Vatican, the Bishops, and the Nuns [Irmã Problema: O Vaticano, os bispos e as freiras]. "Mas eu também não consigo imaginar se elas não vão tentar encontrar alguma maneira de contornar [o mandato], em vez de enfrentá-lo".

As apostas são altas: o discurso de Müller para a liderança em abril deu a entender que, sem a cooperação e a reforma, a LCWR poderia perder seu status canônico, uma medida drástica.

"Por um lado, é difícil imaginar que o Vaticano vá tão longe", disse Ronan. "Ao mesmo tempo, você quer saber qual é o ponto [da existência da organização] se é que eles vão ser tão controladores?"

Ela disse que o maior obstáculo é que as religiosas estão essencialmente impotentes nessa relação.

"Você não pode dialogar com pessoas que têm o controle, que têm todo esse poder", disse Ronan.

A ex-presidente da LCWR, Helen Marie Burns, das irmãs da Misericórdia, disse que, aparentemente, o grupo está realmente tentando discutir as questões com a congregação doutrinal.

"Eu admiro profundamente a maneira constante e franca com que a LCWR tem mantido em palavras e ações através de uma postura de cooperação, contenção e comunicação honesta", disse Burns. "Mas eu estou continuamente consternada com a incapacidade dos indivíduos nas diversas congregações romanas de escutar profundamente e negociar de forma justa".

Burns disse que espera que a assembleia encontre uma maneira de ser fiel às suas crenças e a si mesma.

"Esperamos que as líderes das congregações que se reúnem para a assembleia de 2014 apoiem o melhor de nossa tradição católica, escolham a vida e rejeitem qualquer relacionamento que comprometa a integridade de sua missão", disse ela.

A NCR contatou o escritório de Sartain para perguntar o que ele esperava da assembleia, mas ele se recusou a comentar.

A assembleia está prevista para encerrar no dia 16 de agosto com um banquete onde a irmã da congregação de São José, Elizabeth Johnson, irá receber o Prêmio de Excelência em Liderança da LCWR. Müller criticou a escolha de Johnson por parte da LCWR, lembrando que ela foi "criticada pelos bispos dos Estados Unidos por causa da gravidade dos erros doutrinais em seus escritos".

A escolha de Johnson, disse Müller, "será vista como uma provocação bastante explícita contra a Santa Sé e a avaliação doutrinal".

Em 2011, a Comissão de Doutrina da Conferência dos Bispos dos EUA disse que o livro de Johnson de 2007, Quest for the Living God: Mapping Frontiers in the Theology of God [Busca do Deus vivo: mapeando as fronteiras na Teologia de Deus], não está de acordo com a doutrina católica oficial e "arruina completamente o Evangelho e a fé daqueles que creem no Evangelho".

Johnson, uma teóloga notável, considerada uma das arquitetas da teologia feminista, respondeu dizendo que o livro não diz as coisas que a comissão afirma que diz.

"Eu sou responsável por aquilo que disse e escrevi, e estou aberta à correção, se isso contradiz a fé", escreveu ela na época. "Mas eu não estou disposta a assumir a responsabilidade por aquilo que o livro não diz e aquilo que eu não penso".

A diretora de comunicações da LCWR, irmã da congregação do Imaculado Coração de Maria, Annmarie Sanders, disse que, embora haja uma certa quantidade de negócios que devem ser conduzidos, o objetivo da assembleia é obter dados e olhar para as realidades da vida religiosa católica atual. O tema da conferência é "O santo mistério revelado em nosso meio".

"Nós estamos buscando discernimento em um mundo de mudanças muito rápidas", disse Sanders. "Como você conduz uma vida de discernimento? Como conduzir ordens e congregações nesse momento difícil?".

Sanders disse que, apesar da avaliação doutrinal, que ela se recusou a comentar, as participantes da conferência sempre ficam ansiosas para o evento. "Há um grande senso de solidariedade entre as nossas integrantes, e esta é a única vez no ano em que elas podem ficar juntas com pessoas que estão no mesmo ministério", disse ela.

A irmã franciscana, Margaret Guider, professora associada de Missiologia do Boston College, ex-vice-presidente de sua comunidade durante a visita apostólica do Vaticano entre 2008 e 2010, disse que a assembleia continuará o auto-exame do grupo.

"Eu realmente acho que esse não é exatamente um ponto de virada. Eu acho que é um momento de ver realmente quão a fundo a LCWR irá em termos de sua autocompreensão com relação a sua missão - passada, presente e futura", disse Guider.

"Eu acho que há uma maneira na qual o legado do passado da LCWR pode continuar a informar e influenciar o modo como as autoridades do Vaticano compreendem ou interpretam exatamente o que a LCWR foi e do que ela se trata".

Mas não vai ser fácil.

"Há uma maneira na qual eu não tenho certeza se as autoridades do Vaticano estão entendendo por completo o que LCWR está tentando fazer, em 2014, não o que ele estava fazendo em 1984", disse Guider. "E eu acho que há um pouco de desconexão histórica, uma espécie de 'estagnação' temporal por parte das perspectivas externas".

Há também o fato de que as religiosas de todo o mundo estão observando o que acontece aqui.

"A globalização da LCWR e de seus membros e dos membros das congregações representadas não pode ser subestimada", disse Guider. "Essa não é apenas uma questão que diz respeito aos Estados Unidos, mas nós estamos vivendo, realmente, no contexto da Igreja mundial. E o que acontece aqui ou o que acontece no Brasil, ou o que acontece na África do Sul ou na Lituânia, tem implicações para o que está acontecendo na vida religiosa na Igreja no mundo".