O rosto ''político'' do Papa Francisco que propõe uma saída espiritual. Artigo de Andrea Riccardi

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27 Mai 2014

Para o papa, não há mais espaço e tempo para uma posição intermediária entre a violência de Herodes e trabalhar pelo futuro e a paz das crianças na Terra Santa e no mundo.

A opinião é do historiador da Igreja italiano Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e ex-ministro italiano, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 26-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Papa Francisco se aproximou, com o passo do crente e não do político, dos intrincados problemas do Oriente Médio. Mas naquela terra a política está intimamente ligada às questões religiosas. Assim até uma viagem pastoral e ecumênica mostra inevitavelmente um rosto "político". Para Francisco, a abordagem do crente não passa por cima dos problemas.

Viu-se isso logo quando, tendo desembarcado em Amã, ele lembrou (e encontrou) os muitos refugiados (sírios, iraquianos e palestinos) acolhidos na Jordânia. Mas também quando, nos Territórios Palestinos, parou de surpresa, silencioso, diante do muro que separa de Israel. A política sempre se rendeu diante da impossível operação de conciliar a segurança e as exigências de Israel com a necessidade de um Estado palestino, mas também as muitas almas israelenses com as palestinas. O papa argentino não se rende. Ele entra humilde e decididamente com as armas do espírito nessa terra ferida e "prometida" a tantos povos diferentes. Detém-se no muro desejado pelos israelenses, mas também visitar o Yad Vashem, memorial da Shoá. Diante de mundos divisivos, o papa argentino propõe um ponto de conciliação, mais alto do que a política.

Há pouco a fazer, se permanecermos prisioneiros das memórias contrastantes e das desconfianças já quase seculares. Não é preciso ter "medo da mudança" – disse o papa na Jordânia. A mudança de perspectiva deve ser radical – explicou Francisco ao presidente palestino, Mahmoud Abbas: um "êxodo rumo à paz com aquela coragem e aquela firmeza necessárias para todo êxodo". É preciso sair do emaranhado de interesses, medos, violências e memórias.

Enquanto isso, porém, enquanto o papa está em Belém, o primeiro-ministro do Hamas, Haniyeh (que controla Gaza), se encontra em visita oficial a Teerã. É outro elemento de dificuldade, que tornará Israel ainda mais cauteloso em relação à recente reconciliação entre o Hamas e o presidente Abbas.

Mas o Papa Francisco olha para além das manchetes. Nesse domingo, surpreendentemente, convidou o presidente israelense, Peres, e Abbas a um encontro de oração: "Eu ofereço a minha casa no Vaticano para hospedar esse encontro". Os dois aceitaram para o próximo mês. É um sinal importante: "Construir a paz é difícil, mas viver sem paz é um tormento" – afirmou o papa com realismo. São os tormentos dos palestinos e dos israelenses: diferentes, mas ambos já insuportáveis.

Encontramo-nos diante de uma concreta afirmação do "espírito de Assis". O rabino David Rosen, o grande homem de diálogo, lamentou a ausência de um momento inter-religioso durante a visita. Houve com Bento XVI, mas representou uma hora desagradável por causa da agressividade de um imã palestino. Francisco realiza algo mais do que um momento inter-religioso: faz descer a paz da oração comum dos fiéis.

"Não rezemos mais uns contra os outros, mas uns ao lado dos outros" – foi o convite de João Paulo II em Assis em 1986. Hoje, um sucessor seu o repete na Terra Santa, convidando a sair das lógicas contrapostos e a ir a Roma. O papa quis com decisão a visita a Israel antes que Peres termine o seu mandato (julho de 2014), porque o vê disponível a gestos de paz. Assim, o papa-pastor, não esmagado sob as formas diplomáticas, propõe uma saída espiritual ao bloqueio da política. Busca aquilo que une e coloca de lado aquilo que divide: essa era a proposta de um dos seus antecessores, João XXIII, que também foi um grande diplomata do espírito.

Nessa lógica se coloca a oração ecumênica no Santo Sepulcro. Valeria Martano, em um livro recente, L'abbraccio di Gerusalemme, mostrou o enorme significado do encontro de 50 anos atrás entre Paulo VI e o Patriarca Atenágoras, na origem do ecumenismo do último meio século. Hoje, não há uma surpresa semelhante. Mas os cristãos divididos rezam no Santo Sepulcro, uma igreja onde, por séculos, os cristãos divididos coabitaram chocando-se e ignorando-se como "separados em casa". Muitos não sabem que uma grande parte dos ortodoxos não rezam junto com os católicos. A oração comum de Jerusalém é uma conquista do Papa Francisco e do Patriarca Bartolomeu.

Acima de tudo, é a indicação de um caminho de unidade se, no século XXI, muitas Igrejas não querem afundar na irrelevância, diante da globalização e da multiplicação de tantas ofertas "religiosas".

Esse papa, não diplomata, está registrando um "sucesso" político. A presença e a visão diplomática do secretário de Estado, Parolin, é uma ajuda importante. O diálogo constante com o mundo judaico através do amigo rabino, Skorka, tem um destaque. Mas o segredo do Papa Francisco é se deixar tocar pelos problemas concretos dos povos e não se resignar.

Sentiu-se isso na homilia em Belém, onde ele não se abandonou a lirismos piedosos, mas se perguntou: "Quem somos nós diante das crianças de hoje? Somos como Maria e José, que acolhem Jesus e cuidam dele com amor materno ou paterno? Ou somos como Herodes, que quer eliminá-lo?". Para o papa, não há mais espaço e tempo para uma posição intermediária entre a violência de Herodes e trabalhar pelo futuro e a paz das crianças na Terra Santa e no mundo.

Nota: A fonte da imagem que ilustra a matéria é de Ap.

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