Os 350 metros que separam Bertone do papa

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02 Mai 2014

Não é só um problema de metragem de um apartamento, mas sim de estilos de vida que, para um homem da Igreja, não é pouca coisa. O caso é o da majestosidade do apartamento dentro dos muros leoninos que, precisamente a seu pedido, foi "designado" ao já ex-secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone.

A reportagem é de Roberto Monteforte, publicada no jornal L'Unità, 30-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele está situado no Palazzo San Carlo (em destaque, na foto acima), justamente em frente à Domus de Santa Marta, onde o Papa Francisco decidiu morar. As "fofocas" que vazaram do Vaticano o descreveram como um apartamento faraônico, de 700 metros quadrados, com mais de 100 metros de terraço, muito mais do que prestigioso.

Agora, estaria em andamento a reforma externa do edifício, que os andaimes montados do lado de fora tornam bem visível. Uma solução que, segundo alguns jornais, teria parecido um verdadeiro excesso para o Papa Francisco, que "teria ficado furioso com tanta opulência".

Nos últimos dias, chegou o ressentido esclarecimento do cardeal salesiano, confiada a uma carta enviada aos jornais de Vercelli e Gênova, duas dioceses das quais ele foi bispo. Bertone agradece a quem lhe mostrou solidariedade. Salienta, no entanto, que a metragem descrita para um apartamento que ele admite ser "espaçoso" – como são "normalmente as residências nos antigos palácios do Vaticano" – seria o dobro da real. Mas ele não fornece números. Ele assegura que os trabalhos das reformas do apartamento, por cuja utilização ele obviamente não paga nada, são às suas custas. Lembra também que é "temporária a concessão do uso desse apartamento" e que, depois dele, "algum outro irá usufruir dele".

Depois, ele dá a notícia mais importante, a do telefonema de "solidariedade" recebido no dia 23 de abril passado do Papa Francisco, assegurando que ele foi posto a par de tudo desde a "atribuição" desse apartamento. Para acrescentar, em tom polêmico com a mídia: "Até mesmo foi comparado o espaço do 'meu' apartamento com a suposta restrição da residência do papa".

O deslize do cardeal é sobre essa "suposta restrição" em relação aos cerca de 70 metros quadrados da suíte 201 da Domus de Santa Marta ocupada pelo pontífice. O uso, talvez impróprio, desse termo parece ter despertado irritação do outro lado do Tibre. É como se estivesse sendo colocada em discussão a autenticidade da escolha da vida de Francisco e também o seu modelo de Igreja "pobre e para os pobres".

Uma escolha que o papa também reiterou nessa terça-feira na sua homilia matinal em Santa Marta: "Toda comunidade cristã deveria comparar a sua própria vida com aquela que a primeira Igreja animava e verificar a sua própria capacidade de viver em 'harmonia', sem 'fofocas', de dar testemunha da ressurreição de Cristo, de assistir os pobres".

Para Francisco, é justamente da atitude em relação aos pobres e de quanto cada um é pobre é se mede a fidelidade ao Evangelho. Parecia estar dirigido precisamente a Bertone aquele tuíte publicado no dia 24 de abril passado por Francisco, no dia seguinte ao telefonema de solidariedade: "Um estilo de vida sóbrio é bom para nós e permite-nos uma melhor partilha com os necessitados". Assim como o dia dia 26 de abril: "Ninguém pode sentir-se dispensado da partilha com os pobres nem da justiça social". Não são só enunciações, são lembretes específicos para aqueles que resistem. E também são um programa de governo que vai se definindo.

Desde segunda-feira passada, o Papa Francisco participa dos trabalhos do Conselho dos oito cardeais, dedicado aos resultados das consultas dedicadas à gestão econômica da Santa Sé e do Governatorato, uma "due diligence" sobre a atividade econômica e financeira da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica.

Então, em tempos de spending review, por que não pensar que aqueles que, como "cidadãos" do Vaticano – onde os impostos praticamente não são pagos –, moram (gratuitamente) em residências suntuosas possam pagar uma contribuição para alimentar um fundo para aqueles que não podem se permitir o luxo de ter uma casa? Seria um ato simbólico, mas também muito concreto, que muitos apreciariam.

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