Para historiadora, sociedade brasileira ainda cultiva silêncios sobre a ditadura

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13 Março 2014


Em sua exposição no seminário "1964: 50 anos depois", em São Paulo, a historiadora Heloisa Starling, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), listou o que ela classifica como "silêncios" da sociedade atual a respeito do período ditatorial. 

A reportagem é publicada pelo jornal Diário de Guarapuava, 11-03-2014.

O primeiro desses silêncios, segundo ela, diz respeito à participação dos empresários no golpe e nas estruturas que sustentavam a ditadura, como o aparato repressivo. O segundo é sobre as ações dos militares contra alguns setores específicos da sociedade: "Sabemos pouco sobre o que aconteceu com os camponeses e nada sobre o que fizeram com os índios", afirmou.

Outra lacuna são os arquivos documentais de órgãos de segurança e inteligência daquela época, "material que os militares até hoje se recusam a entregar". O último silêncio, segundo ela, é com relação ao alcance e as estruturas do próprio aparato de repressão.

Ao lado do também historiador Carlos Fico, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Starling participou da quarta mesa do seminário, que é promovido pelo Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) em parceria com o Sesc São Paulo.

A historiadora aproveitou a ocasião para apresentar dados já apurados de uma pesquisa que está conduzindo sobre o aparato de repressão. Para tentar desfazer a ideia de que a tortura só teria começado a ser usada de forma sistemática após 1968, com o AI-5 (Ato Institucional nº 5), ela reuniu todos os registros em jornais de denúncias de tortura feitas em instituições militares entre 1964 e 1968.

Conforme seu levantamento, os casos já eram constantes e numerosos em todos os anos pesquisados. Começou com 168 registros em 1964, caiu para 35 em 65, mas pulou para 66 no ano seguinte, 50 em 67, e foi a 85 no último ano pesquisado.

Essas ocorrências ocorreram em 36 quartéis ou outras instalações militares em sete Estados, pelo que conseguiu mapear até agora. E com modos sempre muito parecidos: pau de arara, afogamento e choques elétricos entre as principais modalidades de violação.

"A repressão pode ter se expandido ou se modificado durante os anos, mas a matriz dessa repressão foi a mesma desde 1964", afirmou.

Utopia autoritária

Carlos Fico fez uma explanação sobre o que ele chama de "utopia autoritária" dos militares: a ideia de que o Brasil poderia se transformar numa potência se alguns obstáculos como a corrupção e os políticos demagogos fossem removidos, segundo sua definição. Essa utopia, disse, é o que serviu de motivação para a repressão.

O historiador divide os militares em dois grupos: o dos saneadores, os radicais que queriam "fazer uma operação limpeza para prender, exilar e até matar, se fosse preciso"; e o dos pedagógicos, os que defendiam o desenvolvimento de projetos para suprir o que eles julgavam como deficiências do país.

O projeto saneador, segundo ele, é o que explica a tortura e outros instrumentos que inicialmente eram ocultados, como a censura à imprensa. Seus pilares eram a espionagem e a polícia política. Em documentos, tratavam dessas iniciativas como atos "revolucionários", afirmou. Esse projeto cresceu com a chegada de Costa e Silva à presidência, em 1967, e foi "vencedor" com o AI-5, disse.

Já o projeto pedagógico, diferentemente de seu concorrente, era orgulhosamente assumido. "Para esses, o brasileiros eram despreparados, não sabiam votar, não tinham noções básicas nem de higiene", afirmou, lembrando do Sugismundo, personagem de um desenho animado criado para campanhas educativas na TV. Seus instrumentos eram a censura moral e a propaganda política, explicou.

Fico criticou também o que ele chama de "discurso de vitimização" em relação à ditadura, um comportamento que, segundo ele, simplifica a história em uma mera disputa entre militares e opositores que tentaram combater o regime. "Esse discurso deixa de incluir no rol das vítimas muitas pessoas que foram atingidas e que nem sabem disso", afirmou.

O historiador citou um exemplo vivenciado por ele mesmo anos atrás. Contou que ao pesquisar arquivos da época, encontrou o caso de um engenheiro da Petrobras que deixou de ser promovido para um importante cargo graças a um relatório confidencial sobre ele produzido internamente por agentes da empresa que colaboravam com a repressão. "Esse engenheiro foi uma vítima, mas nunca soube disso. E ele nem era militante de esquerda, era até bastante discreto, só que era homônimo de um militante", explicou.

Fico contou que procurou o tal engenheiro para mostrar aquela documentação. "Me arrependi muito de ter feito isso", afirmou. "Ele viu aquilo, ficou em silêncio por uns 30 segundos e aí começou a chorar", afirmou.

Em outra mesa de debates realizada, os pesquisadores Marcos Napolitano (USP) e Ismail Xavier (Cebrap e USP) discutiram as manifestações culturais de contestação ao regime militar.

As exposições, que ocorrem no Teatro Anchieta, região central de São Paulo. No dia 25 haverá uma sessão especial com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os sociólogos Francisco de Oliveira e José Artur Giannotti.

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