Estádios do Brasil são os mais caros

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02 Julho 2013

O Brasil é um país otimista e esse reconhecimento que nos é creditado por estrangeiros que aqui aportam - a turismo ou a negócios - não teria como passar despercebido sequer nos investimentos dedicados à Copa de 2014. Os estádios Mané Garrincha, Maracanã e Mineirão - estando as duas primeiras entre as obras mais dispendiosas dos últimos quatro torneios mundiais - são exemplos de otimismo com gasto aquém do efetivamente exigido nas construções. O trio grandalhão tem custo por assento de, respectivamente, US$ 8.830, US$ 7.730 e US$ 5.512. Onde não houve otimismo na estimativa de custos, houve superestimação dos benefícios a serem proporcionados pela Copa: investimentos complementares nas infraestruturas urbanas, estímulo à economia pelo aumento do turismo, melhoria da imagem internacional do país.

A reportagem é de Angela Bittencourt e publicada no jornal Valor, 01-07-2013.

Os dois consultores-legislativos do Senado Federal, Marcos Mendes e Alexandre Guimarães, responsáveis pelo estudo "Quanto custa um estádio de futebol? Ou: ainda temos tempo de economizar 42 maracanãs" publicado pelo Instituto Braudel de Economia, afirmam que a diferença entre benefícios e custos tornou-se "douradamente positiva" com alguns estádios tendo seu custo subestimado e o evento como um todo tendo benefícios superestimados.

"Igualmente otimista foi o argumento adicional de que parte substantiva dos investimentos seria feita pela iniciativa privada, não onerando o Erário. Na prática, mesmo nos projetos contratados sob a forma de parceria público-privadas (PPP), há significativos recursos públicos envolvidos, com participação direta dos governos estaduais no financiamento das obras, no financiamento subsidiado via BNDES, que, em última instância, obtém seus recursos por meio de receitas tributárias federais e de transferências do Tesouro Federal", afirmam os pesquisadores.

Os custos que envolvem os estádios da Copa no Brasil não estão limitados às obras. Também foi superestimada a capacidade de planejamento e execução do setor público brasileiro. E as manifestações populares, com início na primeira semana de junho em São Paulo contra o aumento de 20 centavos na tarifa de ônibus, também miraram este ponto - o legado da Copa.

"Em vez de mais e melhores meios de transportes e equipamentos urbanos, a Copa deixará como legado um conjunto de estádios que implicarão custos de manutenção. Mesmo os que estão contratados sob a forma de PPP vão requerer participação pública em sua manutenção. Muitos estádios não vão gerar receita suficiente para cobrir tais custos", explicam os pesquisadores. Eles citam como exemplo o Saporo Dome, do Japão, o estádio mais caro entre os construídos nas últimas quatro Copas - intensamente utilizado e lucrativo, onde ocorrem competições de esqui, jogos de baseball e de futebol. "Já o Mané Garrincha [o quarto estádio mais caro] tem poucas possibilidades de utilização após a Copa, dada a fragilidade da liga brasiliense de futebol e a baixa flexibilidade do estádio para receber outros tipos de eventos", avaliam os consultores.

Os gastos já ocorreram, mas a dupla de especialistas considera que a população brasileira ainda tem como tirar proveito da experiência. "As instituições públicas e privadas [TCU, Ministério Público, comissões temáticas do Congresso, associações de classe, imprensa e as ONGs] precisam tomar consciência da existência do 'viés de otimismo' e da 'deturpação estratégica' [que envolve obras e eventos de tal dimensão]. Cada vez que um planejador público apresentar um projeto de alto custo, é preciso questionar as estimativas de custos e benefícios que são apresentadas", alertam. Outra lição fundamental a ser aprendida pelos brasileiros, insistem, é de que é fundamental elencar os investimentos por ordem de prioridade. Não é possível fazer tudo ao mesmo tempo, ainda mais com a restrição fiscal e a baixa capacidade de planejamento e execução do setor público.

"O governo, ainda que conte com a participação da iniciativa privada, não consegue, ao mesmo tempo, construir estádios, ampliar metrôs, redesenhar corredores de ônibus, ampliar o saneamento básico, construir hospitais ou aperfeiçoar a educação. É imperioso ter uma lista de prioridades", afirmam os consultores do Senado.

Há atualmente no Brasil um projeto de engenharia que tem toda pinta de, assim como os estádios da Copa, ser um caso clássico de baixa prioridade associada à superestimativa de retorno econômico-social. É o trem-bala, que ligará o Rio a São Paulo. O projeto não é prioritário porque será um meio de transporte de luxo, com passagens caras, destinado a transportar pessoas de renda alta entre Rio e São Paulo", afirmam os pesquisadores.

Mendes e Guimarães detalham, no estudo sobre custo dos estádios, que mesmo antes do início das obras do trem-bala, a estimativa de custo já pulou de R$ 18 bilhões para R$ 35,6 bilhões - a preços de 2008, segundo autoridades. Esse valor corrigido pelo INCC salta a R$ 50 bilhões. "Essa é a estimativa oficial, provavelmente subestimada que apontam indícios de viés de otimismo e deturpação estratégica nesse projeto cuja execução é calculada hoje em 42 Maracanãs!"

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