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21 Junho 2013

Confessar que Jesus é o Messias de Deus nos arrasta por um caminho que não é como os outros: um caminho que nos leva a perder a nossa vida para salvá-la.

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras 12º Domingo do Tempo Comum. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
1ª leitura: Zacarias 12,10-11; 13,1
2ª leitura: Gálatas 3,26-2
Evangelho: Lucas 9,18-24


O silêncio a propósito do Messias

A passagem do evangelho que lemos neste domingo situa-se entre o episódio da multiplicação dos pães, que prefigura a última Ceia, e a Transfiguração, quando Jesus discute com Moisés e Elias a respeito do “êxodo que deve cumprir, em direção a Jerusalém”. De fato, no versículo 51 do mesmo capítulo, veremos que Ele “dirigiu-se resolutamente para Jerusalém” onde será crucificado. Significa que nossa leitura, contendo o primeiro anúncio da Paixão, está situada num momento em que o Evangelho de Lucas realiza uma mudança radical. Antes desta última viagem, Jesus informa aos discípulos sobre o que O espera e, também, sobre o que os espera. Uma vez mais, se põe a questão: “Quem sou eu?” A resposta de Pedro é ambígua: de fato, o Messias é considerado “filho de Davi”, o herdeiro de sua realeza e de sua glória. Davi é célebre por seus feitos de guerra e por ter estabelecido o povo eleito em Jerusalém. Para a maioria dos discípulos de Jesus, o Messias libertaria Jerusalém da dominação romana. Tanto assim que, após a Ressurreição, os apóstolos lhe perguntam: “Por acaso será agora que vais restabelecer o Reino de Israel?” (Atos 1,6). Um mal-entendido a respeito do Reino e do Messias. Cometemos também erro semelhante quando esperamos que Deus nos livre de terremotos, epidemias e guerras. Tudo isso nos foi entregue em nossas mãos: a nós cabe prevenir e remediar. O Cristo veio nos reunir e caminha conosco, no que de pior nos possa acontecer. E irá fazer-nos sair disto, para que entremos numa vida e num universo que sequer somos capazes de imaginar. Jesus não quis que ficassem repetindo ser Ele o Messias, por causa da confusão geral a respeito do sentido desta palavra e da missão deste “Messias”. E também, a respeito de sua identidade profunda: este filho de Davi deverá ser reconhecido como o Filho de Deus.

Deus conosco até o fim

Filho de Davi, Filho de Deus, quando Jesus, no evangelho, usa a expressão “Filho do homem” é de si mesmo que está falando. O Cristo se inseriu na linhagem humana. Deus e a humanidade se fazem assim apenas um. Fruto da humanidade, homem por excelência, Ele é ao mesmo tempo expressão perfeita de Deus, “a imagem do Deus invisível”, como diz Paulo (Colossenses 1,15). Podemos dizer que, por Cristo e em Cristo, Deus desposa o destino do homem até o fim. E este “fim” é a rejeição para fora da humanidade, de que tantas mulheres e homens padecem. Em alguns casos, é como se diz: foi sem querer ou, no mínimo, foi dado algum pretexto para esta exclusão. No caso do Cristo, a coisa vai mais longe: foi sem qualquer razão que foi “suprimido”. Com Ele, foi o justo completo, o justo pela justiça de Deus, que sofreu a sorte do injusto. Cumpriu-se assim a soberana injustiça, o excesso insuperável do que chamamos “pecado” e que equivale à destruição, em nós e nos outros, da imagem, do “ícone” de Deus. Esta culminância do pecado veio de encontro à culminância do amor. Odiado sem razão, foi sem razão que o Cristo amou a ponto de dar o que queriam tirar-lhe: a própria vida. Este gesto, de lhe tirarem a vida, será desarmado, de qualquer modo; pois não há necessidade de se apoderar do que é dado. Em Gênesis 3, o ser humano busca apoderar-se do “ser como Deus”, quando isto mesmo já lhe fora dado por Deus, ao criá-lo “à sua imagem e semelhança” (Gênesis 1). Jesus anuncia então aos discípulos que irá ao encontro do homem, até mesmo em sua última agonia. Aonde possamos ir, até na pior decadência, Cristo permanece o Emanuel, Deus conosco.

Viver é dar a vida

Já deveríamos ter entendido que não há necessidade de metáforas sacrificiais e vitimatórias para se entrar na compreensão da Páscoa do Cristo. “Entrar”, simplesmente, pois nunca chegaremos ao fim deste mistério. O amor absoluto nos ultrapassa, porque nossos amores diversos jamais irão até lá. Jesus nos convida, no entanto, a nos reunirmos com Ele no dom da vida: “Se alguém me quer seguir... tome sua cruz cada dia e siga-me.” “Cada dia”, diz Jesus. Esta precisão nos faz compreender que não se trata forçosamente de oferecer-nos a uma morte violenta: ninguém pode ser morto “cada dia”! Mas podemos cada dia viver para os outros, consagrar a nossa inteligência e as nossas forças para fazê-los existir e até mesmo, simplesmente, facilitar-lhes a existência. Temos certa repugnância em admitir isto, que consideramos serem apenas palavras piedosas e bem pensantes. É, no entanto, quando nos esquecemos de nós mesmos para fazer com que os outros vivam, só aí começamos a existir. O Pai torna-se pai, torna-se ele mesmo, apenas pela geração de outro: de seu Filho. Jesus nos diz que guardar a própria vida para si, viver em torno de si mesmo equivale a um suicídio. Sair de si mesmo para ir rumo aos outros é uma libertação. Temos repetido que somente existimos por meio das relações. Tudo depende da qualidade de nosso modo de nos religar. O cume da relação, a relação por excelência é o amor. Não dediquemos nosso tempo a nos examinar para sabermos se de fato há amor em nossas vidas: isto, uma vez mais, equivaleria a nos fecharmos em nós mesmos. Pensemos, sobretudo, nos outros. É isto “perder a sua vida pelo Cristo”. E temos já, aqui, a Ressurreição.