Suicídio em Notre-Dame: o delírio final da direita pagã

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24 Mai 2013

O gesto de Dominique Venner certamente foi espetacular e chocante. Mas, muito provavelmente, também inútil, como acontece quando se age de modo extremo para defender valores extremos.

A opinião é da filósofa italiana Michela Marzano, professora da Universidade de Paris V - René Descartes. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 22-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Serão necessários novos gestos, espetaculares e simbólicos, para sacudir as consciências anestesiadas e despertar a memória das nossas origens". Foi com essas palavras que Dominique Venner, historiador francês de extrema direita, anunciou no seu blog o suicídio dessa terça-feira. Depois de ter se dirigido à catedral de Notre-Dame, Venner disparou um tiro de pistola na boca na frente do altar.

Um gesto extremo e chocante. Cujo valor simbólico, no entanto, é extremamente ambíguo, especialmente quando se pensa que os destinatários da mensagem subversiva deviam ser os militantes católicos que se posicionaram nesses últimos meses contra a lei sobre o casamento gay.

Além disso, de católico, o historiador e ensaísta francês tinha muito pouco. Sem dúvida, radical e extremista ele era. Mas não em nome de Deus ou da fé.

O seu extremismo tinha raízes ateais e se alimentava daquele ódio pelos "outros", que nesses últimos tempos, na França, se conjuga frequentemente e com gosto com a homofobia e o racismo. Venner era principalmente conhecido como expoente de ponta daquela "direita pagã", que reivindica não tanto as origens cristãs do Ocidente, mas sim as greco-romanas, inscrevendo-se explicitamente na linha de pensamento de autores como Drieu La Rochelle e Henry de Montherlant.

É por isso que, para Dominique Venner, os protestos contra a possibilidade de que os casais homossexuais tenham acesso ao casamento representavam, no fundo, apenas um pretexto para lembrar aos seus concidadãos o verdadeiro problema da contemporaneidade, ou seja, a perda das tradições. Aquelas tradições da "France éternelle", das quais se deveria tirar a poeira até mesmo utilizando a violência, porque, para aqueles que lamentam o passado, é sempre melhor morrer como heróis do que sucumbir à decadência contemporânea.

Conhecido pelas suas posições radicais, Venner dirigia desde 2002 a Nouvelle Revue d'Histoire, reivindicando de modo virulento a defesa do nacionalismo. A França, segundo esse intelectual, tinha o dever moral de não capitular diante do enorme poder do Islã, mesmo às custas de utilizar a violência. Acima de tudo, aquela forma de violência que é a rejeição: rejeição da alteridade e do multiculturalismo; rejeição das diferenças e dos estrangeiros; rejeição da homossexualidade e da decadência.

A violência das ações, em segundo lugar, porque, mais cedo ou mais tarde, chega um momento em que as palavras devem ser autentificadas pelos fatos. Como não ver, então, nas grandes manifestações contra o casamento gay, um chamariz para lembrar a todos a necessidade da defesa do entre-nous, de uma identidade monolítica que não aceita compromissos com a alteridade? Como não fazer aliança com aqueles católicos de direita, apesar da rejeição pessoal da religião católica?

O gesto de Venner certamente foi espetacular e chocante. Mas, muito provavelmente, também inútil, como acontece quando se age de modo extremo para defender valores extremos. Nenhum católico deveria poder compartilhar um gesto como esse, não só pela violência extrema e destrutiva do suicídio em um lugar público, mas também pela escolha particular do lugar onde cometê-lo. Que sentido pode ter o fato de disparar um tiro de pistola na boca na frente do Altar de Notre-Dame senão o de provocar de modo ultrajante aqueles que consideram a Igreja como a casa de Deus?

Certamente, quando se absolutizam os próprios valores, corre-se o risco, depois, de perder de vista o fato de que os valores estão sempre a serviço do humano. Quando se pensa que a defesa das tradições implica a rejeição de qualquer outra cultura, então se corre o risco de perder o próprio sentido das tradições.

Mas, para se dar conta disso, talvez deveríamos ser capazes de aceitar o diálogo e a diferença, abrir-se à alteridade que alimenta o espírito crítico – que, além disso, é o próprio coração do catolicismo – e não pôr-se do lado daqueles que heroicizam a violência como o único meio para defender as próprias ideias.

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