Com a eleição do Papa Francisco, o centro de gravidade do catolicismo mudou

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18 Março 2013

A Europa não é mais o centro da Igreja. João Paulo II vinha do Oriente, o Papa Francisco vem do Sul. O centro de gravidade do mundo católico se deslocou. O seu horizonte se ampliou, se mundializou.

A reportagem é de Henri Tincq, publicada no sítio Slate.fr, 15-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um horizonte que não é mais, para o novo papa, o das guerras europeias que haviam marcado tão dolorosamente tantas pessoas como o polonês Karol Wojtyla e o alemão Joseph Ratzinger. Um horizonte em parte distante do Concílio Vaticano II (1962-1965) – do qual Jorge Mario Bergoglio, jovem demais, não participou – e das disputas europeias entre progressistas e conservadores que se seguiram.

João Paulo II, em 1978, vinha daqueles países do Leste Europeu, de cultura eslava e de regime comunista, prisioneiro por trás da Cortina de Ferro, daquela "Igreja do silêncio" ao mesmo tempo compadecida e criticada no Ocidente pelo seu conservadorismo. O papa polonês deu-lhes uma nova voz, mostrou caminhos de libertação que levariam à queda do Muro de Berlim.

Visão trágica da história

Bento XVI, em 2005, ao contrário, vinha daquela Baviera ultracatólica, onde os campanários esculpem um catolicismo da Contrarreforma, onde a liturgia, os ornamentos e os cânticos se fundamentam na paisagem rural, na vida familiar, nas festas, na cultura e na música. Toda a sua teologia permaneceria marcada por esse gosto pela tradição.

O alemão Joseph Ratzinger como o polonês Karol Wojtyla foram muito cedo sugados pelos totalitarismos – o nazismo, o comunismo – que alimentariam neles uma visão trágica da história, que unia ao mesmo tempo ausência de sentido, morte de Deus e aniquilação do ser humano. Em Auschwitz e no gulag.

O papado que, por quatro séculos e meio, havia sido uma espécie de campo de caça dos italianos e que, nestes últimos 35 anos (1978-2013), confiara as suas chaves a outros dois papas europeus, está vivendo uma inversão geográfica que expressa uma surpreendente adaptação à modernidade e à mudança do mundo por parte dos cardeais eleitores do conclave. E também expressa a espetacular mudança das relações de forças dentro de uma Igreja que mudou de hemisfério.

Religião popular, emotiva, devocional, ativa

O Papa Francisco vem daquela América Latina em que vive a metade da população católica do mundo – 500 milhões de fiéis – e que conta com os países mais católicos do mundo: 150 milhões no Brasil, 92 milhões no México, 38 milhões na Argentina etc.

Ele vem de um continente católico em todos os seus aspectos: a sua história (a da colonização espanhola e portuguesa), as suas referências culturais, as suas instituições educativas e sociais, o lugar ocupado pela Igreja no debate político. Francisco fala espanhol que é a primeira língua do catolicismo mundial.

A religião lá é popular, emotiva, devocional, ativa. As tensões nascidas em torno da teologia da libertação entre os anos 1960 e 1980 eram sinônimos de uma vontade de compromisso social, com todas as suas contradições.

A Igreja de onde vem o novo papa continua ligada a todos os debates da sociedade civil em países que sofreram regimes de ditadura militar sangrenta, experiências marxistas, guerrilhas e que ainda sofrem todas as contradições ligadas a um neoliberalismo selvagem, a um aumento exagerado das desigualdades, à violência das cidades, a experiências populistas.

Ela serviu como modelo, em particular nessa Europa do cristianismo exausto e envelhecido, por causa do dinamismo das suas comunidades, da sua criatividade teológica, do seu compromisso com as lutas sociais, testemunhadas no Brasil por um Dom Hélder Câmara, então bispo de Recife, ou por um Paulo Arns, então arcebispo de São Paulo.

Ela gozava, tempos atrás, de um "quase monopólio" religioso. Mas já se encontra diante de uma grave hemorragia, sendo fortemente ameaçada pela explosão das Igrejas evangélicas e pentecostais. No Brasil, a Igreja perdeu um quarto dos seus fiéis em 25 anos. Na Argentina, em 20 anos, quatro milhões a abandonaram para ir engrossar as fileiras das "seitas" evangélicas.

Divisão em torno de duas linhas

Duas orientações caracterizam hoje os católicos latino-americanos. Há uma linha neoconservadora com o vento em popa, representada por movimentos conservadores – Opus Dei, Legionários de Cristo, Comunhão e Libertação, dos quais o papa é próximo –, por uma nova geração de bispos ligados à ortodoxia romana, por pregadores da Renovação Carismática, como o célebre padre brasileiro Marcelo Rossi, que, no estilo pentecostal, lota os estádios no Brasil.

Para eles, seria a politização da Igreja dos anos 1960 e 1990 a responsável pela erosão numérica das suas tropas. A Igreja dos tempos heroicos certamente havia conseguido tocar as forças de oposição, as classes médias e intelectuais, mas havia negligenciado as necessidades espirituais das populações pobres. Isso teria favorecido grupos evangélicos, mais prontos a formar "pastores", a ocupar as favelas das cidades com as suas redes de ajuda mútua, a prometer benefícios imediatos em termos de saúde, de luta contra o álcool e a droga.

Uma segunda linha "neoprofética" resiste e permanece fiel às orientações de ontem: opção preferencial pelos pobres, confiança nas "comunidades de base" e na "Igreja popular". As neoteologias da libertação e os militantes engajados, padres e leigos, herdeiros das lutas de antigamente, não se desesperam com o papel de vanguarda que os católicos ainda são chamados a desempenhar nas lutas ecológicas, nas lutas em favor das populações indígenas, das mulheres, dos marginalizados das economias liberais.

Pela sua história, o seu estilo de vida e os seus compromissos, o novo papa, Jorge Mario Bergoglio, reúne essas duas tendências do catolicismo latino-americano, finalmente projetado na cúpula da Igreja.

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