O superior geral dos jesuítas e a Nova Evangelização

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20 Outubro 2012

Publicamos aqui a íntegra da intervenção do Padre Geral da Companhia de Jesus, Adolfo Nicolás, no Sínodo dos Bispos para a Nova Evangelização, que ocorre no Vaticano. Uma densa reflexão sobre os erros e as consequências de uma certa abordagem "missionária" e sobre a necessidade, para uma nova evangelização realmente eficaz, de voltar aos fundamentos do primeiro anúncio.

A reportagem é do sítio da revista dos jesuítas italianos, Popoli, 19-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Vindo de uma ordem missionária, sinto a obrigação de refletir sobre a nossa história. Dificilmente podemos pensar em uma Nova Evangelização a menos que estejamos certos de que aprendemos com a Primeira Evangelização, tanto com os nossos acertos, assim como com as insuficiências que sofremos no desejo de comunicar o Evangelho.

Venho de uma Tradição em que fomos estimulados e formados no propósito de encontrar a Deus em todas as coisas, em todos os acontecimentos e situações. Santo Inácio tomou essa ideia, sem dúvida, do Novo Testamento, onde, por exemplo, São Paulo, em seu famoso discurso no Areópago, cita um dos poetas gregos dizendo: "Nele (isto é, em Deus) vivemos, nos movemos e somos (Atos 17, 27-28). Deus está presente e ativo em cada comunidade humana, mesmo se não somos capazes de notar como ou a profundidade da sua presença.

Pois bem, temo que nós, missionários, não buscamos a Deus em todas as coisas com suficiente profundidade, e por isso não contribuímos com a vida da Igreja com as descobertas que tivemos que fazer. Não estou culpando, de forma alguma, aos missionários em geral. Falo somente a partir da minha própria tradição, da minha própria experiência e do meu próprios grupo missionário. Estou certo de que muitos missionários, inclusive outros jesuítas, fizeram-no muito melhor do que eu.

Certamente, tentamos ser positivos em nossa visão sobre outras culturas e tradições. Mas temo que o que vimos foram, em sua maioria, sinais de Fé e Santidade ocidentais (inclusive o Instrumentum Laboris, falando dos frutos da Fé, assinala, nos números 122-128, alguns sinais, excelentes em si mesmos e facilmente reconhecíveis pelas Igrejas do Ocidente). Não entramos com suficiente profundidade nas culturas em que o Evangelho foi proclamado de modo a ver essa parte do Reino de Deus que já estava lá, enraizada e ativa nos corações e nas relações das pessoas. Não tivemos muita vontade de encontrar o "fator surpresa" na obra do Espírito Santo, que fazer a semente crescer mesmo quanto o semeador está dormindo, ou o missionário, ausente.

Estou convencido de que isso pode ser aplicado à Missio ad Gentes assim como à Nova Evangelização no mundo moderno. Até onde eu saiba, cada geração se queixa da seguinte e considera que algo da sabedoria do passado se perdeu. No entanto, o Espírito de Deus não esteve ocioso, mas sim trabalhando nos corações das pessoas e nas percepções dos sábios. Cabe a nós escutar com mais atenção e com uma imensa humildade para reconhecer a voz de Deus onde não esperamos que possa ser escutada.

Lembro-me que, nos meus anos de seminarista, impressionou-me muito um estudo sobre a Revelação no Concílio de Trento, que foi publicado pelos então professores Karl Rahner e Joseph Ratzinger. Segundo eles, quando o Concílio de Trento falava das "Escrituras", ele se referia ao Antigo Testamento, enquanto que, quando falava do Evangelho, considerava que o Evangelho estava presentes em dois lugares: nos escritos do Novo Testamento e – aqui estava a surpresa – nos corações dos fiéis.

Por não prestar atenção suficiente a como Deus se manifesta e esteve trabalhando nos povos que encontramos, perdemos pistas, intuições e descobertas importantes. Por isso, agora é o momento de aprender com essa história, com as carências da Primeira Evangelização, e tem que ser antes de passar para a Nova. Muitas coisas boas passaram, que vamos querer manter, desenvolver e celebrar. Ao mesmo tempo, somos conscientes de todos os erros cometidos, sobretudo quando não se escutou totalmente as pessoas, quando julgamos com enorme superficialidade os méritos de culturas e tradições ricas e antigas, ao impor formas de culto que, no melhor dos casos, não expressam as relações e a sensibilidade das pessoas quando se voltavam a Deus em oração e louvor.

A plenitude de Cristo precisa da contribuição de todos os povos e todas as culturas. Há muitas lições que podemos aprender com o passado e que podem ser de grande ajuda para a Nova Evangelização. Permitam-me somente mencionar, brevemente, algumas delas antes de terminar:

1) a importância das "maneiras de humildade" para comunicar o Evangelho;

2) a necessidade de afirmar "a verdade acerca da nossa limitada e imperfeita humanidade" em tudo o que dizemos e proclamamos, sem traços de Triunfalismo;

3) a simplicidade da mensagem que tentamos comunicar, sem complicações ou racionalizações excessivas que a tornem opaca e incompreensível;

4) generosidade ao reconhecer a obra de Deus na vida e na história dos povos, acompanhada de sincera admiração, alegria e esperança cada vez em que encontremos em outros bondade e dedicação;

5) que a mensagem mais crível é a que procede da nossa vida, tomada totalmente e guiada pelo Evangelho de de Jesus Cristo;

6) que o Perdão e a Reconciliação são os atalhos mais úteis para o coração do Evangelho;

7) que a mensagem da Cruz é melhor comunicada através da morte (de si mesmo e de seus objetivos limitados) do missionário.

Obrigado pela sua atenção.

Pe. Adolfo Nicolás Pachon, S.I.
Prepósito Geral da Companhia de Jesus

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