A importância de viver em um mundo apaixonado. Artigo de Julia Kristeva

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27 Abril 2012

O amor pode ser um dos antídotos mais radicais, por ser mais íntimo, ao mal radical que é a automatização dos humanos.

Publicamos aqui a nova introdução da filósofa, linguista e psicanalista búlgaro-francesa Julia Kristeva ao seu livro Storie d'amore [Histórias de amor], republicado nesta semana na Itália. O texto foi publicado no jornal La Repubblica, 25-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Escrevi Storie d'amore em uma etapa da minha vida em que o amor se retraía de mim. Qual amor? O golpe do "Grande Amor", mito salvífico, paixão consoladora e irrisória ilusão, carga humoral e elétrica, ou raio do destino. Um amor que tivera o seu tempo. Não era, porém, um deserto que me esperava: nessas ruínas, com a ajuda da psicanálise, surgiu um outro amor, diferente do Amor, digno de interesse, em perene edificação e que continua a durar. Construível e desconstruível através de mim, fora de mim, esse amor é obra da liberdade, é a minha revolta, de renascimento em renascimento.

Amor-experiência: amor exploração do que eu fui, que me altera e que eu altero, que me exalta, que me esmaga, que eu abandono, que me abandona, que me recria, que me transfere para ti, para ele. Fanática presença de um outro ao meu lado e em mim, extremidade incorpórea, que se dá através de mim continuamente e em toda parte.

Palavra que não é nada do que eu sou, mas que me recompõe e te recompõe, mal-entendido e interação que me surpreendem, me despossuem, me abismam e me fazem avançar, louca evidência. Uma espécie de sociedade que nem me perde nem me trai, nem me desilude nem me preenche, que não faz nada mais do que me exceder, fora do tempo, fora do espaço, estrangeira a mim mesma, extática. Antes de ti, depois de ti, em todo instante, eu te alcanço e te perco, sou tu e fujo de ti: tu, o amado amante; livres em amor.

Amor-história: amor que se declina em poemas, sons e imagens, contos e aventuras, e se confunde com a história da liberdade, cujo umbigo está aqui, na Europa. Transportes ou desilusões? Que importa. É a infinita transcendência da experiência interior que eu escuto nestas páginas, em tendência contrária à chamas midiáticas, às depressões niilistas, às orgias pornográficas e aos feitiços esotéricos que nos afastam da razão.

E a descoberta freudiana do inconsciente e da transferência me revela a sua verdade lógica: eu a sigo em uma inclusão externa (a menos que seja uma exclusão interna), na história do Ocidente grego, judaico e cristão, que, em busca do Outro, construiu aquele culto do "Eu sou" que sabe se superar e que se chama propriamente de capacidade de amar, aquele fabuloso mal de amor.

Universalmente humana, potencialmente acessível a todos os seres falantes, essa obra da liberdade que eu descubro no amor recebeu, de fato, a sua forma mais refinada, a sua realização mais diversificada na tradição europeia: através da religião, da filosofia, da arte e da literatura. Apoiando-me em minha prática da psicanálise, segui todos os seus reflexos entre os inúmeros aventureiros e intérpretes que me precederam, antes de adquirir – agora eu posso confessá-lo – aquele sentimento de orgulho finalmente livre de todo sentimento de culpa que já sinto com relação ao gênio europeu.

Mas é a incapacidade de amar, aquém e além da ausência de amor, que arrasta o analisante e o analista para o fundo. E é essa mesma incapacidade que ameaça a globalização hiperconectada, quando esta última se ilude de poder formatar indivíduos aparentementes cooperantes entre si e pela força de chats, de SMS e de outros tuítes semelhantes, suprimindo a experiência interior em que nasce e morre aquele extremo fanatismo em que o eu e o tu se recriam em amor.

Nada garante que o mundo por vir pode continuar sendo um mundo apaixonado. Se essas histórias de amor tivessem que ter um fim, este revelaria o mal radical que é a automatização dos humanos. O princípio de precaução circunscreve desde já a liberdade – que não poderia existir sem riscos –, a necessidade de segurança reforça os fechamentos identitários, e certos jorros nauseabundos totalitários invadem o espírito em tempos como estes, de dívida e de austeridade endêmicas.

Porém, eu aposto que o amor, vivido a partir da diversidade das suas histórias aqui reunidas, pode ser um dos antídotos mais radicais, por ser mais íntimo.

De modo insólito, Immanuel Kant, na sua Crítica da Razão Pura, entrevê, em um lampejo, a possibilidade de um "corpus mysticum dos seres racionais que existem..." (...). Nós sabemos hoje que a metáfora kantiana da união consigo mesmo e com todos os outros não pode ser entendida só no sentido – comprometido e em profunda crise nos nossos dias – da "solidariedade", isto é, da "fraternidade".

A conclamada universalidade dos direitos humanos nem sempre levou a nossa aldeia global a uma ética exemplar, e a transparência midiática da era pós-moderna acentua mais cruelmente do que nunca a persistência da barbárie. Sendo a liberdade sinônimo de desejo, como posso entrar profundamente em "união" com os meus desejos e com os de todos os outros, senão exilando-me daquele "eu" que eu apaixonadamente explorei, para transmutar as minhas pulsões e os meus próprios desejos através da escuta da liberdade de todos os outros, do Todo Outro?

Esse pacto, que tem sob o seu império o homem e a mulher em busca de ética, não se reduz apenas às leis morais. Ele as transforma em amor absoluto.

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