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12 Março 2012

Fala-se de "Vaticano III" e até mesmo de "Jerusalém II". Mas, se a meta é até mesmo ir além, será preciso, contudo, passar pelo Concílio Vaticano II.

A análise é do padre e jornalista italiano Vittorio Cristelli, publicada na revista Vita Trentina, da diocese de Trento, na Itália, 11-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

É típico dos aniversários introduzir a discussão sobre o que representou o evento que se celebra e destacar os aspectos ignorados ou ainda não realizados. O ano de 2012 cai exatamente a 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II e deveria ser, portanto, um ano em que esse Concílio é revisitado. Já se anunciam estudos maciços nesse sentido, principalmente na área latino-americana da Teologia da Libertação.

Estas são as novidades fundamentais desencadeadas e ainda não plenamente realizadas do Concílio: de uma Igreja centralista a uma Igreja corresponsável e sinodal, respeitosa pelas Igrejas locais; de uma Igreja identificada com a hierarquia a uma Igreja "povo de Deus", com diversos carismas; de uma Igreja triunfalista que se autoglorifica a uma Igreja que caminha na história; de uma Igreja dominadora mãe e mestra a uma Igreja a serviço de todos e particularmente dos pobres; de uma Igreja comprometida com o poder a uma Igreja solidária com os mais fracos; de uma Igreja arca da salvação a uma Igreja sacramento de salvação, em diálogo com as outras Igrejas e as outras religiões da humanidade.

À parte do fenômeno cismático dos da lefebvrianos, nascidos e persistentes na rejeição total do Concílio, é preciso dizer que houve e ainda há resistências na vida concreta das visões de Igreja que surgiram do Concílio. A mais evidente, a da valorização dos leigos, aos quais o Concílio deu a licença de maturidade e reconheceu a tarefa específica de protagonistas ao tratar as coisas temporais (leia-se: economia, administração, política), considerando-as como lugares da sua santificação.

Atrasos e resistências mais de uma vez registrados e denunciados. Se o Papa João XXIII, inventor do Concílio, falava de "primavera da Igreja", o grande teólogo Karl Rahner, em 1982, 20º aniversário do Concílio, intitulava um discurso crítico seu de "O inverno da Igreja". Mas ouçam o que dizia o cardeal Franz König aos leigos da sua aquidiocese de Viena, em pleno Concílio:

"Quando tiverem algo a dizer a respeito da Igreja, não esperem pelo bispo. Não esperem uma palavra de Roma. Falem quando acharem que devem fazê-lo; pressionem quando devem fazê-lo. Todas as vezes que tiverem oportunidade, informem o mundo e os católicos. Além disso, digam também tudo o que o povo e os fiéis esperam da Igreja. Desse modo, esse processo que nasceu na esperança não cairá na desilusão, mas terá uma realização magnífica".

Mas há também um "além" do Concílio, provocado e desejado hoje pela mudança radical que se verificou no mundo. A globalização, com as migrações associadas, trouxe para dentro das próprias comunidades eclesiais todo o mundo e, com ele, todas as religiões. É assim, por exemplo, que hoje não se trata mais só da relação com as outras Igrejas cristãs e o consequente ecumenismo, mas da relação com todas as religiões, aquilo que com uma palavra que tenta se afirmar se chama de macroecumenismo.

Motivo pelo qual não basta nem mesmo o olhar sobre a Igreja. Paulo VI, com a intuição que lhe era própria, já havia previsto essa passagem. Se, durante o Concílio, ele sintetizava as problemáticas na pergunta "Igreja, o que dizes de ti mesma?", alguns anos depois, em uma Semana Social francesa, ele fazia uma outra pergunta: "Igreja, o que dizes de Deus?". E Karl Rahner também tinha chegado a isso, já que pôde escrever: "O futuro não interpelará a Igreja sobre a estrutura litúrgica mais precisa e mais bonita, nem sobre as doutrinas teológicas mais polêmicas que distinguem a doutrina cristã da dos cristãos não católicos, e nem sobre o regime da Cúria Romana. Pedirá que a Igreja testemunhe a proximidade do mistério inefável que chamamos de Deus".

Tem-se falado várias vezes, aqui e acolá, de um novo Concílio. Ele também é invocado pelo teólogo latino-americano Victor Codina, acrescentando provocativamente que ele não seja chamado de "Vaticano III", mas sim de "Jerusalém II". Mas preciso dizer uma coisa: se a meta é até mesmo ir além, será preciso, contudo, passar pelo Concílio Vaticano II.

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