Vatileaks: ''Transparência necessária''. Entrevista com Antonio Spadaro

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24 Fevereiro 2012

Para o padre Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica, dos jesuítas italianos, um dos problemas por trás do chamado "Vatileaks" é que "a tradição comunicativa vaticana vive em outra lógica, mais ligada às mediações e à mensagem espiritual, e não a respostas cortadas com um machado".

A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada no jornal La Repubblica, 23-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Há quem diga que, com o episódio do "Vatileaks", buscou-se o escândalo. Mas a história da Igreja viveu um passado de crises por causa das intrigas na Cúria. O Vaticano causa mais escândalo do que outros impérios e reinos?


A verdadeira pergunta é: o que é "noticiável"? A questão, quando falamos do Vaticano, é de sobrepor categorias políticas a uma realidade complexa e que responde a lógicas diferentes. O risco midiático de toda essa operação é que publicar uma notícia sobre a Santa Sé acabe significando simplesmente tornar públicas cartas retiradas de uma gaveta, ou vasculhar a correspondência privada de um bispo ou de um cardeal.

O senhor quer dizer que, nesse caso, notícia é sinônimo de escândalo?

Eu me pergunto por que, obviamente. O Vaticano fascina porque é percebido de fora como um lugar misterioso. Muitas vezes, foi o lugar ideal de romances e de filmes. A sua relação com o sagrado, as suas divisas provocam fortemente o imaginário. A isso, eu acrescentaria um outro elemento.

Qual?

Ele é o menor território soberano do mundo, mas a sua influência de caráter espiritual não tem fronteiras, e a sua diplomacia tem um destaque peculiar. Precisamente por isso, se não se estuda a sua natureza complexa, cometem-se erros. Talvez seja preciso voltar à lição dos grandes vaticanistas do passado recente, em nada suaves nos seus julgamentos, mas especialistas e capazes de se concentrar não sobre o que causa escândalo, mas sim sobre o que faz notícia.

Os alvos são determinados ambientes vaticanos, como a Secretaria de Estado, na pessoa do cardeal Tarcisio Bertone. Ou outros personagens influentes, indicados como papáveis; veja-se o arcebispo de Milão, o cardeal Angelo Scola. Segundo o senhor, foi dada a largada para a batalha pelos equilíbrios no Conclave?

Eu acho que não. Veja, quando você fala de equilíbrios, refere-se ao balanço de opiniões. O Colégio Cardinalício é tão amplo e internacional que mostra como a Igreja não é, de fato, um monolito. A equação entre diferenças e lutas internas ligadas à ideia de um Conclave é enganosa. Se, no caso do Vaticano, "notícia" corre o risco de ser confundida com "escândalo", também é verdade que "diferenças" são reduzidas a "lutas". Assim, quem paga a conta é a devida consideração pelo debate de ideias.

E, em perspectiva, qual cenário pode-se prefigurar: um abrandamento das tensões ou uma escalada das polêmicas?

Estamos vivenciando uma atenção obsessiva pelas informações. Eu não sei se a escalada irá durar ainda. O compromisso com a transparência será fundamental. Em tempos em que a credibilidade se baseia muito na pressão midiática, o que corre o risco de ficar na sombra é a obra de renovação realizada com "humilde firmeza" por Bento XVI, que requer tempos longos, muitas mediações, especialmente dentro da própria Igreja, e não está isenta de maus entendidos e de riscos, mas capaz de dar frutos duradouros.

O senhor não acredita que pode ter havido um defeito de comunicação da parte eclesiástica?

Eu vejo dois problemas que geram desconforto. O primeiro: quem escreve sobre o Vaticano hoje muitas vezes não tem formação específica. O segundo é que a comunicação atual, em alguns casos, vive de contraposições claras, de brancos e pretos. A tradição comunicativa vaticana vive, ao invés, em uma outra lógica, mais ligada às mediações e à mensagem espiritual, e não a respostas cortadas com um machado. Muito está sendo feito para adequá-la às exigências de hoje sem, porém, desmantelar o seu estilo e o seu significado.

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