''Por trás do escândalo, a intensificação do confronto entre CL e Opus Dei''. Entrevista com Ferruccio Pinotti

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15 Fevereiro 2012

Para esclarecer mais as razões profundas que movem o vazamento de notícias dos palácios vaticanos à mídia e o conflito em andamento dentro da cúpula eclesiástica, a Adista entrevistou Ferruccio Pinotti, jornalista investigativo, autor de inúmeros livros de investigação sobre as finanças vaticanas, assim como sobre o Comunhão e Libertação e o IOR [o chamado Banco do Vaticano].

A reportagem é de Valerio Gigante, publicada na pela agência Adista, 18-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O que você pensa sobre o escândalo que estourou depois das revelações feitas pelo canal La7 sobre o caso Viganò?


Parece claro que está em curso um confronto interno ao Vaticano que está chegando a um nível muito elevado e que tem hoje como objetivo principal o secretário de Estado, o cardeal Bertone, e a sua entourage.

Você, portanto, é da ideia de que o episódio não estourou casualmente, mas sim como fruto de uma estratégia interna aos âmbitos eclesiásticos. Um pouco como o caso Boffo de 2009... Além disso (como testemunha a palavra "recebida" estampada na parte superior direita do original mostrada por Gianluigi Nuzzi), a carta de Viganò ao cardeal Bertone saiu da Secretaria de Estado, não do arquivo privado do ex-secretário do Governatorato...

Sim, é uma hipótese muito realista. No Vaticano, há anos, está em andamento uma guerra entre correntes. O conflito, da forma como está se desenvolvendo hoje, me parece um pouco confuso nos resultados e, em todo o caso, muito pouco governável. O vazamento de notícias dada como alimento aos meios de comunicação é testemunha disso. Bertone, na Cúria, sempre teve inimigos. Mas acho que hoje a hostilidade contra ele se agudizou por consequência da operação que o secretário de Estado realizou de forme muito decisiva para a aquisição do [hospital] San Raffaele de Milão.

O projeto de expansão dos interesses vaticanos no âmbito da saúde, por si só, certamente entra em conflito com os históricos interesses nesse setor por parte do Comunhão e Libertação (CL). Mas levar esse projeto justamente para a Lombardia, no coração do poder ciellino [referente ao CL], e ainda mais visando o San Raffaele, um hospital que obtém 450 milhões de euros por ano de reembolso público pelos serviços de saúde prestados, bem, esse talvez foi o risco que Bertone está pagando. E, com efeito, entre os opositores mais acesos da tentativa de escalada de Bertone ao San Raffaele, estava justamente o cardeal Scola, cuja ação se uniu à dos âmbitos próximos à CEI [Conferência dos Bispos da Itália] e a um certo número de expoentes da Cúria que, nos últimos anos, haviam sido postos progressivamente à margem por Bertone.

Bertone foi defendido nestes anos pelo Opus Dei (na cúpula do IOR, senta-se, dentre outros, um dos seus supranumerários, Ettore Gotti Tedeschi), que teria voltado novamente à fracassada operação de aquisição do San Raffaele junto com o empresário Malacalza. Estaria se repropondo, portanto, em um plano intraeclesial, além do econômico-financeiro, o tradicional confronto entre CL e Opus Dei?

Sim, com uma diferença com relação ao passado: o Opus Dei não tem mais aquela atitude de superioridade e de arrogante indiferença que tradicionalmente teve contra o movimento do Pe. Giussani, quando a Obra se ocupava das altas finanças e deixava ao Comunhão e Libertação os contratos e as relações com os governos locais. Uma mudança que eu pude constatar pessoalmente nas declarações que, no encontro de Rimini de 2009, me foram dadas pelo próprio porta-voz do Opus Dei na Itália, Giuseppe Corigliano, muito atento em buscar um diálogo com o CL, ao enfatizar os carismas que tornavam a Obra semelhante ao movimento de Giussani. Certamente, ao mesmo tempo, se notava também um certo constrangimento de Corigliano diante da exibição de grandeza e de poder que caracteriza as kermesse do CL e que não tem nada a ver com o estilo do Opus. Um desconforto que, para além do desapontamento, talvez escondesse também um certo desejo de imitação.

Certamente, hoje, mais do o confronto entre as duas forças, parece haver um choque entre duas fraquezas, se é verdade que o Opus, no fim, não se deu bem na tentativa de reforçar a sua presença no setor da saúde, e o CL não está passando por um período muito feliz do ponto de vista político e judicial...

Se somarmos a isso a crise econômica, provavelmente conseguiremos explicar também a intensidade que o confronto intraeclesial atingiu nos últimos meses e que é difícil de detectar, pelo menos nessas formas, em épocas anteriores vividas pela Igreja Católica pós-conciliar.

Você considera o papa como espectador, apesar do confronto em andamento, ou como parte interessada, por ter nomeado Bertone e ter apoiado a sua ação?

É difícil responder. Historicamente, esse papa teve ótimas relações com o Comunhão e Libertação, do qual sempre admirou o espírito e a ação eclesial. Não por acaso são Memores Domini [membros leigas do CL] que prestam o serviço no apartamento pontifício. Mas o Opus Dei também teve uma relação privilegiada com o papa atual. Alguns chegam a defender que a Obra desempenhou um papel importante na própria eleição de Bento XVI. Portanto, considera que Ratzinger, hoje, prefere mediar entre os diversos interesses em campo. Mas, objetivamente, até pelo nível do que está em jogo e dos atores em campo, a situação lhe escapou das mãos. Em suma, está em andamento na Igreja um projeto disruptivo que, muito dificilmente, o papa ou Bertone poderão levar novamente à unidade.

Mas Bento XVI deu muito poder justamente a essas realidades que, hoje, na Igreja, combatem abertamente a sua própria luta pela hegemonia...


A contradição está justamente aí. Esse papa, hoje, gostaria de levar à ordem justamente lefebvrianos, legionários, neocatecumenais, ciellini, opusdeístas. Mas se trata de estruturas às quais, nos últimos anos, especialmente sob o pontificado de João Paulo II, foi concedida uma autonomia enorme do ponto de vista doutrinário, eclesial e, sobretudo, financeiro.

Hoje, portanto, os impulsos centrífugos, desencadeados pela próprio pontificado wojtyliano (dentro do qual Ratzinger desempenhou um papel nada secundário) parecem muito mais fortes do que os centrípetas, e eu não acredito que o papa conseguirá reconduzir à unidade setores do corpo eclesial que já se tornaram muito influentes, até por causa do enorme poder financeiro acumulado. E que combatem a sua batalha uns contra os outros em projetos muito complexos e diferentes, que vão das estratégias políticas às alianças com os banqueiros e o mundo industrial, das finanças à aquisição de hospitais e universidades, da ocupação dos postos-chave no organograma vaticano às nomeações episcopais.

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