Teólogos do século XX. Os três que estão no pódio

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Por: André | 18 Dezembro 2011

São eles: Cullmann, Pannenberg, Zizioulas. Os dois primeiros são protestantes, o terceiro ortodoxo. E, no entanto, são dos que estão mais próximos da visão de Bento XVI. Autor da classificação: um prestigioso teólogo, também ele não católico.

A reportagem é de Sandro Magister e está publicada no sítio italiano Chiesa, 16-12-2011. A tradução é do Cepat.

Aproxima-se o Natal. E com o Menino no presépio se renova a inaudita notícia do Filho unigênito de Deus que se fez homem.

É o que proclama o Credo. É o que os concílios ecumênicos dos primeiros séculos, desde Niceia até Calcedônia, fixaram no dogma.

Mas é também o que hoje, fora e dentro da Igreja, esta sendo mais contestado, ofuscado ou esquecido.

Bento XVI, sobretudo com seu livro sobre Jesus, quis precisamente defender o Jesus verdadeiro Deus e verdadeiro homem de todas as tentações que querem limitá-lo apenas a um ou a outro, isto é, separando o Jesus da história do Cristo da fé.

Na imensa produção teológica do último século, quais personalidades deram as respostas mais geniais a este problema capital?

Este ano, na Itália, foi publicado um livro sobre a teologia do século XX escrito por um teólogo protestante, o valdense Fulvio Ferrario, que assombra não apenas pela rara clareza e riqueza na exposição e pela eficácia narrativa, mas também pela importância dada a alguns teólogos que são, entre os não católicos, justamente os que estão mais próximos da visão e da sensibilidade do atual pontífice, também teólogo.

* * *

O primeiro é Oscar Cullmann (1902-1999), nascido em Estrasburgo, que viveu na Basileia e que foi hóspede em Roma, durante os anos do Concílio Vaticano II, da mesma faculdade teológica valdense na qual Ferrario ensina.

Ferrario o inclui “como um dos teólogos protestantes mais apreciados no campo católico”. Embora menos famoso que Barth, Bultmann e Bonhoeffer, Cullmann deixou uma marca sólida e duradoura.

Foi ele quem cunhou a fórmula – que passou a ser de uso universal – do “já e ainda não” para expressar a dialética entre a salvação já realizada por Cristo e a espera da realização final.

E foi ele, sobretudo, quem insistiu em cada uma de suas obras – desde Cristo e o tempo até A cristologia do Novo Testamento – na continuidade entre o Jesus da história e o Cristo da fé. Cullmann era, sobretudo, um grande exegeta das Sagradas Escrituras, mas sempre conjugou a busca filológica e historiográfica com a reflexão teológica. E “na busca deste difícil equilíbrio – escreve Ferrario – ele constitui um modelo, em uma época na qual as dificuldades de comunicação entre as duas disciplinas atinge níveis perigosos”.

* * *

O segundo grande teólogo posto em primeiro plano por Ferrario é o alemão Wolfhart Pannenberg, luterano, 83 anos.

Nele a união entre teologia e filosofia é muito estreita. O Cristo crucificado e ressuscitado é o acontecimento central – acessível também a partir da ciência histórica – que permite assegurar o sentido da história universal do homem e do mundo. A revelação de Deus é história; e a perda deste horizonte é a raiz da crise da cultura contemporânea. “É bastante fácil observar – escreve Ferrario – as convergências objetivas desta colocação com muitas teses do magistério católico romano”.

Não apenas. Também na doutrina dos sacramentos e dos ministérios ordenados as reflexões do protestante Pannenberg nos aproximam das católicas. Ferrario destaca que “este considera não apenas possível, mas com certas condições inclusive desejável, que o protestantismo reconheça a importância do chamado ‘ministério petrino’, isto é, do papado”.

O mesmo acontece no campo da teologia moral: “A orientação geral do pensamento de Pannenberg e sua confiança nas possibilidades teóricas de uma ética filosófica de derivação aristotélica o levam a olhar com marcada suspeita muitas orientações no campo moral das sociedades secularizadas; por exemplo, em matéria de sexualidade. Em algumas ocasiões expressa publicamente seu próprio desacordo em relação às posições das Igrejas evangélicas alemãs, que lhe parecem muito ‘permissivas’”.

Mas isso não impede que Ferrario conclua o perfil de Pannenberg – isto é, o mais “ratzingeriano” dos grandes teólogos protestantes vivos – com esta grande apreciação: “No contexto pós-moderno, o pensamento de Pannenberg mantém um anacronismo que fascina e estimula. O apelo ao rigor e ao alcance universal da razão crítica, a insistência sobre uma visão da fé como ‘grande narração’, inclusive histórico-universal, constitui uma provocação frente à retórica de uma teologia que desejaria limitar-se à autobiografia do teólogo. Pannenberg tem em comum com os clássicos da reflexão teológica a ideia de um pensamento intrépido, que não aceita parar antes de ter encontrado a realidade de Deus. E é esta audácia do conceito que faz dele, para além de qualquer crítica, um mestre”.

* * *

A terceira personalidade destacada por Ferrario no capítulo dedicado à teologia das igrejas ortodoxas é Ioannis Zizioulas, metropolitano de Pérgamo.

Zizioulas é o bispo-teólogo mais competente do patriarcado ecumênico de Constantinopla e é amigo de Joseph Ratzinger há muito tempo. “Ele desenvolve – escreve Ferrario – a ideia da Igreja como comunidade que brota da eucaristia. E como tal ela é, não no sentido teórico, mas altamente realístico, corpo terreno do Ressuscitado e participação na vida trinitária”.

Não nos deve maravilhar que “a eclesiologia eucarística de Ioannis de Pérgamo seja muito utilizada e apreciada em âmbito ecumênico. Ela está, de fato, muito vinculada orgânica e elegantemente ao conjunto da visão teológica e permite uma compreensão da Igreja em chave sobretudo místico-sacramental, frente à deriva jurídica da qual, às vezes, os próprios católicos romanos evidenciam, quando menos, alguns limites”. Uma compreensão da Igreja à qual, reconhece Ferrario, “a mentalidade protestante reage contra de maneira ambivalente”.

* * *

Na página final de sua fascinante viagem pela teologia do século XX, Ferrario cita o discurso de Bento XVI em Regensburg, com sua reivindicação de um espaço público para a teologia nas modernas universidades do saber.

E conclui da seguinte maneira: “Nosso olhar sobre a história da teologia do século XX deveria ter mostrado que a teologia foi ‘pública’ justamente quando foi eclesial: isto é, quando deu expressão intelectualmente crítica à tentativa da comunidade cristã de anunciar o evangelho no mundo”.

“Os métodos exegéticos, históricos, filológicos empregados pela teologia serão os mesmos das ciências religiosas ou das teorias do cristianismo que já agora a acompanham e com as quais o pensamento eclesial é chamado a dialogar de maneira serena.”

“Mas diferente é o dever que a teologia cristã se obstina em considerar que lhe é assinalado por seu Senhor: o de contribuir, mediante a reflexão, para o ministério da Igreja, isto é, para a pregação da morte e da ressurreição de Jesus Cristo, na espera de sua vinda”.

E com esta límpida frase do mais competente teólogo protestante italiano, muitos falsos teólogos que hoje ocupam a cena – para “humanizar” Jesus em vez de pregá-lo verdadeiro Deus e verdadeiro homem –, estão servidos.

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O livro: Fulvio Ferrario, “La teologia del Novecento”, Carocci, Roma, 2012, p. 304.

O autor é professor de dogmática e disciplinas afins na Faculdade valdense de Teologia de Roma e professor convidado do Instituto de Estudos Ecumênicos São Bernardino de Veneza. Dirige a revista teológica da Faculdade Valdense “Protestanismo”.

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