Neruda foi assassinado pela ditadura de Pinochet?

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Por: Cesar Sanson | 08 Dezembro 2011

O atestado de óbito de Pablo Neruda indica que ele morreu de câncer de próstata em 23 de setembro de 1973, 12 dias após o golpe militar que derrubou Salvador Allende. É o que diz a história oficial. Mas não é a versão que defende Manuel del Carmen Araya Osorio, chileno, taxista de 65 anos, e que foi motorista pessoal do poeta durante os seus últimos meses de vida. Este homem sustenta que o Prêmio Nobel de Literatura foi assassinado pela ditadura de Augusto Pinochet.


A reportagem é de Rocío Montes Rojas e publicado pelo El País, 04-12-2011. A tradução é do Cepat.


"Após o 11 de setembro, o poeta iria para o exílio no México junto com a sua esposa Matilde. O plano era derrubar o tirano a partir do exterior. Pensava em pedir ajuda ao mundo para tirar Pinochet do poder. Mas, antes de tomar o avião e aproveitando-se que estava internado em uma clínica, lhe aplicaram uma injeção letal no estômago ", diz Araya.

O seu testemunho veio a público pela revista mexicana Proceso, em maio passado. Após a publicação, o Partido Comunista do Chile, em que Neruda militava, entrou com uma ação para esclarecer as causas da sua morte. A justiça aceitou o pedido.  O juiz Mario Carroza, que liderou investigações importantes sobre os direitos humanos no Chile, abriu um processo faz cinco meses. O processo já tem dois volumes e 500 páginas e destaca "a existência de elementos em que se percebe evidências de verdade na história de Araya".  Estuda-se a possibilidade de exumação do corpo para se esclarecer o caso.

Estamos em novembro, é uma manhã de sábado de primavera em San Antonio, um porto grande e pouco moderno a 109 km ao oeste de Santiago. O motorista de Neruda vive nesta cidade costeira com a mãe de 80 anos. A mãe teme pela segurança do seu filho depois que ele denunciou o assassinato, a entrevista, então, é realizada na casa de um amigo pescador da família. Uma pintura de Allende está pendurada na parede. "Ele é meu Deus", disse a dona da casa. Araya, vestido de forma simples e impecável, lembra claramente os fatos: "Não passa um dia que eu não me lembre do que aconteceu há quase quatro décadas".

Filho de um humilde casamento camponês que teve 13 filhos, conta que se transformou secretário pessoal do poeta aos 26 anos: "O Partido Comunista, onde eu militava desde muito jovem me designou em novembro de 1972 à missão de cuidar de Neruda. Ele tinha acabado de voltar para o Chile após renunciar a Embaixada da França por causa de sua doença." O jovem foi para a casa do poeta e de sua mulher na Ilha Negra, uma pitoresca localidade costeira perto de Santiago. Nesta casa, hoje convertida em museu, também vivia a irmã de Neruda e três outros empregados.

Naqueles meses ele se tornou o homem de confiança do escritor: comprava os jornais e lhe servia o café da manhã, andavam juntos pelos mercados e lojas de antiguidades e o levava para onde fosse preciso em um carro Citroën.

Araya diz que o câncer jamais impediu Neruda de levar uma vida normal: "Pesava cerca de cem quilos. Recebia e visitava os seus amigos intelectuais e políticos. E nunca parou de escrever. Isso não teria sido possível se estivésse muito doente". Na verdade, o poeta terminou as suas memórias Confesso que vivi no dia 14 de setembro de 1973, nove dias antes de sua morte. "Escrevo estas rápidas linhas de minha memória a apenas três dias de fatos inqualificáveis que levaram à morte o meu grande companheiro, o presidente Allende", disse ele em seu texto final. Escreveu isso apesar da presença de militares que, depois do golpe de Estado, ocuparam a sua casa. Neruda era amigo e um dos férreos apoiadores do governo Allende.

De acordo com a ação ajuizada em maio passado pelo Partido Comunista chileno, a princípio se fez circular a versão de que o poeta estava sériamente doente por razões de segurança. "Para tentar protegê-lo", disse a carta, "se tornou público que a sua saúde era mais frágil do que a real".

À época, o presidente do México, Luis Echeverría Álvarez, pediu que o seu embaixador no Chile em 16 de setembro oferecesse asilo ao escritor e a sua esposa. Neruda aceitou a oferta. Manuel Araya afirma que "foi então organizado uma operação para levá-lo de Ilha Negra para Santiago, onde ambos iriam embarcar. Por precaução, Neruda viajou em uma ambulância no dia 19. Ele estava acompanhado de sua esposa. Eu, de perto, os seguia em um Fiat 125. A viagem, que normalmente se realizava em duas horas, foi prolongada para seis. Os soldados nos paravam em busca de armas. Foi humilhante".

Neruda entrou nesse mesmo dia na clínica de Santa Maria na capital chilena. Segundo Araya, isso foi feito para aguardar em paz a partida para o México. Segundo Gonzalo Martínez Corbalá, que foi embaixador mexicano no Chile, a saída do país estava marcada para 22 de setembro. "Paulo aceitou a tal ponto que me deram as suas malas e as de Matilda, e um pacote com o manuscrito de Confesso que Vivi, escrito em tinta verde que usava", disse o ex-diplomata em uma entrevista recente ao jornal La Jornada . No dia prevista, porém, quando ele foi buscá-lo no hospital para levá-lo ao aeroporto, Neruda pediu para adiassem a viagem para o dia 24. Não deu as razões.

Essa conversa, realizada um dia antes da morte de Neruda, tornou-se um fato chave para os querelantes da ação. Argumentam que, se na verdade ele estivésse tão doente, não poderia ter conversado longamente com o mexicano. Martínez Corbalá destacou que Neruda não estava em estado catatônico: "Falava normalmente".  Mas, ao contrário do que disse o motorista, afirmou que o escritor já não conseguia ficar de pé.

Manuel Araya lembra que no dia 23 de setembro, o escritor pediu a ele a Matilde que viajassem para Ilha Negra. O escritor queria que pegassem alguns objetos pessoais que pretendia levar para o México. "Por volta das quatro horas da tarde, enquanto nós guardávamos algumas coisas, recebemos um telefonema. Era Neruda. Ele nos pediu que voltássemos imediatamente para Santiago porque ele se sentia muito mal. Disse que enquanto ele cochilava, um médico havia entrado em seu quarto e lhe aplicou uma injeção. Voltamos imediatamente para a clínica. Encontramos Neruda febril, arroxeado e inchado".

O motorista relata que, nesse instante, um dos médicos pediu para ele que saísse da clínica para comprar um medicamento necessário para o poeta. "Eles disseram que eu não iria encontrar o medicamento no centro e que deveria ir para a periferia da cidade. Embora tenha achado estranho, eu segui as instruções. Estava em jogo a vida de Neruda", diz Araya. No meio do deslocamento, dois carros interceptaram o seu veículo. Um grupo de homens o tirou a força do carro e após ser jogado no chão, o chutaram. Atingiram-no com um tiro abaixo do joelho. "Eu ainda tenho a marca da ferida", disse levantando as calças. Foi então levado para o Estádio Nacional, um dos centros de prisão e tortura instalado pela ditadura.

Segundo o que estabeleceu o juíz Carroza em sua investigação, Araya deixou a clínica por ordem de Matilde Urrutia, e não do médico. O objetivo era comprar água de colônia para fazer fricções sobre as pernas do poeta, que aos  69 anos sofria de gota. O magistrado, no entanto, confirma que Araya foi preso como descreve, naquele dia e naquela hora. Anos mais tarde, a viúva do poeta menciona esse episódio em suas memórias  Minha vida junto a Pablo. "Aproximava-se o final da tarde e o meu motorista não aparecia (...) Ele desapareceu com o nosso carro e, com isso, eu perdi a única pessoa que me acompanhava todas as horas do dia" .

Às 22h30min desse 23 de setembro, o poeta Pablo Neruda morreu na Clínica Santa Maria. A imprensa local informou que foi morto após um choque sofrido depois de uma injeção. Manuel Araya soube da morte do poeta vários dias depois na prisão. Quando o soltaram no final de outubro, pesava 33 quilos.

- Por que demorou 38 anos para denunciar o suposto assassinato?

- Durante todo esse tempo bati em mil portas, e ninguém queria ouvir. Após a volta da democracia, fui muitas vezes ao Partido Comunista do Chile. Mas nunca me fizeram caso. Tudo que eu quero é que o mundo saiba que Neruda foi assassinado.

Matilde Urrutia, que morreu em 1985, se referiu várias vezes a causa da morte do poeta. Em uma entrevista concedida ao diário espanhol Pueblo, publicada em 19 de setembro de 1974, disse: "A única verdade é que o forte impacto da notícia (do golpe) causou-lhe dias depois a paralização do coração. O câncer que sofria estava sob controle e não se esperava esse desenlace tão rápido. Não chegou nem a deixar testamento, porque via a morte ainda muito distante".

Rodolfo Reyes, sobrinho do poeta e representante legal dos herdeiros, disse que apóia as investigações da justiça. O mesmo diz o presidente do Partido Comunista, o deputado Guillermo Teillier: "Pinochet cometeu crimes contra pessoas que poderiam fazer estragos à ditadura no exterior Em 1974, assassinou o general Carlos Prats em Buenos Aires. Em 1976, o ministro das Relações Exteriores Orlando Letelier, em Washington. E o poeta foi um dos grandes nomes da resistência". A Fundação Neruda, no entanto, negou a hipótese do homicídio: "Não há nenhuma evidência ou prova de qualquer natureza que indique que Pablo Neruda tenha falecido por outras razões que não o câncer avançado que o afligia", disse um comunicado divulgado recentemente.

O juiz Mario Carroza, após meses de investigação, determinou judicialmente em julho passado, que o ex-presidente Allende cometeu suicídio no La Moneda. Hoje leva em frente a causa da causa da morte do general Alberto Bachelet, pai da ex-presidente do Chile, que morreu em 1974 depois de ter sido torturado por seus próprios companheiros de armas. Em relação ao caso Neruda, o juiz interrogou várias testemunhas, incluindo o próprio Manuel Araya. Nos próximos dias irão prestar testemunhos o então embaixador do México no Chile e o médico Sergio Draper, que atendeu o escritor na clínica em Santa Maria no dia de sua morte.

Além dos interrogatórios, Carroza e sua equipe têm tentado reconstruir o prontuário médico de Neruda.  O fazem no Chile e na França, onde ele fez o primeiro tratamento de câncer. A clínica onde morreu, no entanto, explicou que não tem mais o prontuário do escritor. De qualquer forma, o juiz tenta ter a maior quantidade possível de antecedentes para que o Serviço Médico Legal determine se há necessidade ou não de exumar o corpo. "Os restos mortais do poeta já estão reduzidos", disse o Carroza. "É preciso ver se em função do tempo, esse procedimento poderá nos ajudar com alguma evidência explícita".


- Existe possibilidades de que nunca se saiba como morreu Neruda?


- Existe.


Aberta outra causa, dessa vez pela morte de Frei

Eduardo Frei Montalva governou o Chile entre 1964 e 1970. Ainda que não tenha sido partidário do governo socialista de Salvador Allende, nos anos oitenta Frei era uma das principais figuras da oposição a Augusto Pinochet. Em janeiro de 1982, quando tinha 71 anos, deu entrada na clínica Santa Maria para se submeter a uma cirurgia digestiva menor. Mas não saiu com vida: no dia 22 faleceu inesperadamente.

Durante muitos anos se acreditou que morreu em função de um choque séptico depois da operação. Em 2009, entretanto, a justiça chilena disse outra coisa: Frei Montalva foi envenenado com talio e bactérias pelos serviços de segurança da ditadura enquanto estava hospitalizado. "Houve uma manobra orquestrada pela eliminar inimigos políticos de forma velada. Não se tinha homícidios, nem desaparecimentos forçados, já que a ideia era que nem as vítimas e nem as famílias se dessem conta de que eram objetos de um ataque", explica o advogado da família Frei, Juan Pablo Hermosilla. Nesse caso já há seis processados. Segundo Hermosilla, a causa poderá ser encerrada nuns seis meses.

No caso Neruda, o juiz Mario Carroza solicitou a clínica Santa Maria os boletins médicos do poeta. A instituição, entretanto, se desculpou, afirmando que os fatos aconteceram em 1973. "Ao que parece o prontuário foi destruído", disse o juiz.

O advogado Eduardo Contreras, representante do Partido Comunista, acredita que "a negativa da clínica levanta uma forte suspeita da cumplicidade ou acobertamento. No mesmo lugar mataram o ex-presidente Frei. Tudo é muito sórdido".

Mas, é possível que, dada as semelhanças, haja conexões entra ambas as mortes? O advogado do caso Frei diz que é preciso ir com cuidado: "Há certas semelhanças entre os casos, mas é preciso ser responsável e não especular até que se verifiquem as verdades judiciais".

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