"Presidente e irmão Evo Morales, deve haver coerência entre o que dizemos e o que fazemos"

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01 Outubro 2011

"O conflito do TIPNIS nunca deveria ter existido. A integração rodoviária é necessária, mas não através do TIPNIS. Com certeza será mais caro construir uma estrada que não atravesse o parque, mas tentar economizar 200 ou 300 milhões de dólares sem levar em conta os custos socioambientais é ir contra os princípios do bem-viver". O comentário é de Pablo Solón, ex-embaixador boliviano na ONU, em carta dirigida ao presidente Evo Morales.

Eis a carta. A tradução é do Cepat.

Desde 2006, a Bolívia mostrou liderança ao mundo nos desafios mais cruciais de nosso tempo. Obtivemos a aprovação do Direito Humano à Água e Saneamento nas Nações Unidas, e promovemos uma visão de sociedade baseada no Viver Bem, em vez do consumismo.

No entanto, deve haver coerência entre o que dizemos e o que fazemos. Ninguém pode falar em defesa da Mãe Terra e, ao mesmo tempo promover a construção de uma estrada que fere a Mãe Terra, não respeita os direitos indígenas e viola de maneira "imperdoável" os direitos humanos.

Como país estimulador do Dia Internacional da Mãe Terra temos uma grande responsabilidade de dar o exemplo em todo o mundo. Não podemos repetir as receitas do "desenvolvimentismo" fracassado que tem levado relação da humanidade com a Mãe Terra para um ponto de ruptura.

É incompreensível que promovamos uma Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Povos Indígenas para o ano de 2014 se não somos vanguarda na implementação da "consulta prévia, livre e informada" dos povos indígenas dentro de nosso próprio país.

A Oitava Marcha Indígena tem declarações incoerentes e incorretas em relação a questões como os hidrocarbonetos e a venda de créditos de carbono das florestas (conhecido como REDD). Mas, sua preocupação com a construção da estrada é justa.

Milhares de delegados dos cinco continentes que participaram da Primeira Conferência Mundial dos Povos sobre Mudança do Clima e dos direitos da Mãe Terra estão profundamente decepcionados com a posição do governo da Bolívia.

O conflito do TIPNIS nunca deveria ter existido. A integração rodoviária é necessária, mas não através do TIPNIS. Com certeza será mais caro construir uma estrada que não atravesse o parque, mas tentar economizar 200 ou 300 milhões de dólares sem levar em conta os custos socioambientais é ir contra os princípios do bem-viver.

Para terminar, o fato de que a direita queira instrumentalizar o que aconteceu para voltar ao passado, exige que sejamos mais consequentes do que nunca na defesa dos direitos humanos, dos direitos dos povos indígenas e dos direitos da Mãe Terra. 

Ainda é possível resolver essa crise se se suspende em definitivo a construção da estrada através do TIPNIS, levando à justiça os responsáveis pela repressão à marcha indígena, e iniciando um amplo processo participativo de debate nacional para definir uma nova agenda de ações no âmbito do viver bem.

Pablo Solón

 

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