O cristianismo civil de Helmut Schmidt

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Agosto 2011

Em seu novo livro, o ex-chanceler alemão Helmut Schmidt (foto), cristão luterano, chama novamente à memória dos europeus do século XXI um dos pontos fundamentais da história do século XX: a relação entre paz, democracia e o papel das religiões.

A opinião é de Massimo Faggioli, doutor em história da religião e professor de história do cristianismo no departamento de teologia da University of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado no jornal Europa, 04-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O massacre de Oslo do dia 22 de julho desencadeou, em ambos os lados do Atlântico, um debate sobre as possíveis semelhanças entre o terrorismo fundamentalista islâmico e uma cultura europeia de extrema direita que remonta à cultura da Cruzada e da reconquista contra o multiculturalismo e, em particular, contra a presença muçulmana na Europa contemporânea.

Uma reflexão sobre a "responsabilidade" da retórica pública das religiões deu lugar a uma paráfrase fácil do ditado de Croce sobre o assassino de Oslo: "Não podemos defini-lo como cristão".

Exatamente alguns meses antes, Helmut Schmidt, 92 anos, chanceler social-democrático da República Federal da Alemanha entre 1974 e 1982, havia publicado A religião responsável: perigos para a paz na era da globalização (Religion in der Verantwortung: Gefährdungen des Friedens im Zeitalter der Globalisierung, Berlim, 2011, 252 páginas).

Nessa série de artigos, Schmidt (ainda hoje um dos políticos mais influentes da Alemanha e, entre os ex, seguramente o mais presente na cena atual), cristão luterano que confessa pôr raramente os pés na igreja, chama novamente à memória dos europeus do século XXI um dos pontos fundamentais da história do século XX: a relação entre paz, democracia e o papel das religiões.

Schmidt era chanceler no ano da Conferência de Helskinki de 1975, em que as Igrejas católica e protestantes de um lado e de outro da Cortina de Ferro contribuíram para lançar as bases daquele discurso sobre os "direitos humanos" que a União Soviética e os seus satélites também não puderam recusar.

Esse momento representou o ponto alto no caminho da conscientização por parte das Igrejas europeus sobre as suas responsabilidades políticas para com o continente e o mundo inteiro: entre os capítulos do livro, "Construir pontes na Europa", "O objetivo é um teto comum ", "Sobre a necessidade do diálogo".

Impressiona notar que essas reflexões brotam em Schmidt a partir da amarga consciência de que a Alemanha cristã que saiu da Segunda Guerra Mundial não aprendeu tudo aquilo que devia aprender acerca dos resultados trágicos da impoliticidade das Igrejas nos anos 1930.

O cristianismo civil de um social-democrata como Schmidt nasceu como reação à Alemanha conformista dos anos 1950: justamente um modelo de "religião civil" à qual muitos, na Igreja hoje, olham com indisfarçável nostalgia.