Caxias do Sul é a capital mundial do gauchismo farroupilhista, com 86 CTG’s no município... Pode?...

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17 Novembro 2012

"Como é que pode, um único município, por sinal também capital do italianismo estadual, abrigar 86 CTG’s em seu seio e pelo fato mesmo, levar o título de capital mundial do gauchismo farroupilhista, simplesmente avassalador, a cada ano mais badalado por todos os grandes meios de comunicação social?", pergunta Antonio Cechin, irmão marista e miltante dos movimentos sociais, autor do livro Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010.

Eis o artigo.

Estamos em plena semana do ENARTE. Trata-se do concurso anual do MTG para a escolha do mais brilhante conjunto artístico de danças gauchescas do Rio Grande do Sul, que sempre se realiza na em Santa Cruz do Sul, cidade que, por sua vez, é a capital nacional do fumo.

Conforme noticiário de hoje, 15 de novembro, feriado da proclamação da republica, estão participando nada menos do que cinco CTGs da cidade de Caxias do Sul, na capital do fumo, concorrendo em nome dos 86 Centros de Tradições caxienses, na etapa final da escolha do vencedor no ENARTE-2012.

Como é que pode, um único município, por sinal também capital do italianismo estadual, abrigar 86 CTG’s em seu seio e pelo fato mesmo, levar o título de capital mundial do gauchismo farroupilhista, simplesmente avassalador, a cada ano mais badalado por todos os grandes meios de comunicação social?...

Temos no estado do Rio Grande do Sul outras cidades de populações originárias da Europa, como de alemães, poloneses, lusos, açorianos, etc. Não há notícia de que em seus respectivos municípios se aninhem em igual quantidade e nem mesmo próximos ao número atingido por Caxias. Convenhamos que Caxias exagerou na dose, inimaginável para qualquer exercício de adivinhação. Os nossos italianinhos ultrapassaram toda medida.

Dizem que difícil não é dar respostas aos fenômenos. O difícil mesmo é sempre fazer a pergunta certa. Então...

Qual seria a causa ou a razão de tal surto de CTG’s na italianíssima Caxias? Na catolicíssima Caxias? Na industrializadíssima Caxias? Na colonialíssima Caxias? Na capital das Festas da Uva? Na capital das vocações sacerdotais, de religiosas e religiosos deste nosso abençoado Rio Grande?

Habituados a ver e ouvir noticiários nas rádios e nas televisões, existem algumas coisas que a gente vê acontecendo como diferentes em cidades diferentes. Por exemplo: Nas cidades em que a maioria da população é alemã, nas festas da comunidade nos exibem no terreno religiosa, além da igreja católica, mesmo algum templo protestante, danças típicas alemãs com as indefectíveis bandinhas tocando valsas e marchinhas características, tipo barril de chope e quejandas. Até nos carnavais, as músicas continuam sendo sempre de similares cidades ou comunidades alemãs de além-oceano, com vestes exatamente iguais às de lá. Jamais vemos alemães dançando ao som de sambas. São sempre irrigadas a muito chope  e cerveja, até mesmo, não raro, animadas de algum coral.

Festas em ambientes de cidades de origem italiana, sempre são mostradas através de missas católicas. Jamais cultos de qualquer outra religião que não a católica. Corais também aparecem recordando antiquíssimas canções que, lá na Itália, ninguém hoje conhece mais porque, são as mesmas do tempo das emigrações dos pobres que, para sair da pobreza e da miséria fizeram a América. Tais como “mazzolin di Fiori”. “Mérica, Mérica, Mérica!” Até mesmo alguma dança deixa de aparecer, somente homens sentados em redor de uma mesinha, jogando “mora”, uma  brincadeira com os dedos.

Ultimamente, intrigados com o fenômeno de Caxias, damos trato à imaginação em busca de alguma explicação possível. Nenhuma das conjeturadas nos satisfaz e então, damos mais alguns pitacos, meras suposições do que explicação propriamente dita. No máximo alguma hipótese enquanto não surge algum especialista em pesquisa de caráter científico em final de mestrado universitário.

As famílias italianas para este estado emigradas da Itália, vem, em sua grande maioria das regiões montanhosas do norte rural da Itália, particularmente da Província do Vêneto cuja capital, a cidade de Veneza, nestes dias sofre da maior enchente de toda a sua história.

As famílias italianas são famosas pela figura da "mama", a paradigmática grande Mãe Italiana. Famílias como dizem as pessoas que consultamos, extremamente moralistas. Por exemplo, essas famílias de meados do século XIX para cá emigradas, não admitiam bailes. Ir a um baile era quase como cometer um pecado mortal.

Então, imaginem-se jovens e moças da roça interiorana nos começos da colonização, sem o divertimento dos bailes e depois, com os aumento da população que aliás, aconteceu muito rapidamente porque família italiana era sempre muito numerosa a fim de sempre mais braços necessários para a lavoura já que empregados possíveis, no interior rural era inimaginável.

Os jovens e moças agora como novos urbanos, não tendo onde se divertir, não lhe parece a você leitor que, em face da presença de um CTG chegado a Caxias no arrastão de meia dúzia de famílias de gaúchos da fronteira, vindos em busca de trabalho em parreirais, ou em indústrias que começavam a ser implantadas,  se tenham sentido atraídas pelo sapateado barulhento das chulas dos pampeiros de botas, bombachas e chapéus tapeados?...

Outro pitaco:

Nos anos da grande guerra europeia de 1939 a 1945 travada pelos países ditos aliados contra os países que formavam a frente denominada eixo, constituído da Alemanha nazista, da Itália fascista e do Japão imperialista, houve o famoso fenômeno integralista-quintacolunista. Na época, sob a presidência da ditadura Vargas, gente foi presa só por falar alemão ou italiano. Quem sabe, em Caxias os de origem italiana passaram às pressas a esquecer o italiano e a aprender a falar o português-brasileiro e a adotar mais depressa a cultura e o pseudo-tradicionalismo gauchesco,  inventado desde a estaca zero a partir de 1948, por um grupelho de estudantes do colégio secundário Júlio de Castilhos, saudosos dos latifúndios de que provinham e onde não existiam escolas de segundo grau e muito menos universidades em que se formar, fato que os obrigava a ir em busca dos centros urbanos mais desenvolvidos. De qualquer maneira os colonos provindos da Europa que aqui chegaram trazendo apenas a própria cultura e a religião de suas comunidades europeias de origem,  foram obrigados pela ditadura Vargas a mudar os nomes das cidades que construíram ao jeito que a cultura de nascença lhes havia ensinado. Dezenas de nomes tiveram de ser trocados como Nova Trento, Nova Roma, Nova Vicenza, Nova Milano, Nova Veneza etc. Vistos com maus olhos pelos únicos que passaram a se considerar brasileiros e pelas autoridades locais que os tachavam de quinta-colunistas pelo simples fato de falarem as línguas próprias do países do eixo, de repente acuados, talvez se tenham lançado às pressas a aparentarem a tal cultura local, gauchesca, disseminada principalmente através dos CTG’s..

Como sabemos todos, o verdadeiro tradicionalismo de raiz é o do povo guarani, do povo negro e o popular de gente pobre vinda das Ilhas Açores, pertencentes a Portugal. Basta referir que o símbolo por excelência do gauchismo é o chimarrão, roubado que foi dos índios guaranis missioneiros de Sepé Tiaraju e dos 1500 companheiros mártires do Caiboaté, então já de fé cristã de quarta geração.

Aliás, leciona na Universidade de Caxias, um professor baiano cuja tese de graduação nessa mesma universidade, foi a base de um livro intitulado “Deus morto no Pampa”. Ele desenvolve sua tese a partir de uma pesquisa científica da cultura gauchesca, baseada em Simões Lopes Neto, escritor considerado pelos cientistas gaúchos autênticos,  como o criador do tipo gaúcho por excelência que é aquele pobre andarilho dos campos, cruza de pobre peão com índio e negro, alegre e folgazão, saltando de estância em estância, sempre biscateando algum emprego a fim de poder sobreviver.

Os grandes estancieiros, segundo esse professor baiano caxiense, mataram nosso Paraíso Terrestre que foi a TERRA SEM  MALES do Povo guarani com as Missões dos Sete Povos e seu mais belo florão São Sepé Tiaraju e os 1500 companheiros mártires, na esteira dos 3 santos Missionários Jesuítas Roque, Afonso e João. Os agronegociantes de ontem são os mesmos de hoje, figadais inimigos atuais dos gaúchos a pé, especialmente os membros do Movimento popular dos Sem Terra (MST). Substituíram  nosso Tradicionalismo de Raiz por um farroupilhismo barato, onde os CTG’s cumprem o papel de substitutivo saudoso do paraíso perdido das Missões Jesuíticas. Nunca nenhum CTG de que se tenha consciência se prestou para uma militância qualquer em favor do povo. 

Um último pitaco interpretativo do gauchismo avassalador que, em Caxias se tornou superlativo:

Quem sabe o surto exagerado de CTGs em Caxias, no nosso estado, no Brasil e se espraiando pelo mundo inteiro, a culpada por excelência tenha sido a ditadura militar de 1964. Eis aqui uma matéria a ser investigada pela atual Comissão da Verdade às voltas com os crimes da ditadura:

O “Manifesto contra o falso Tradicionalismo Gaúcho” do Professor Tau Golin, nos coloca ao par do que significou a influência que teve a ditadura sobre os desvios causados sobre o nosso Tradicionalismo de raiz. Vejamos os principais:

“O falso Tradicionalismo de caráter farroupilha se transformou em força institucional e “popular”, em cultura oficial, através dos prepostos da Ditadura Militar no Rio Grande do Sul.

a) Na verdade, em 1964, o Tradicionalismo foi incluído no projeto cultural da Ditadura Militar, pois o “Folclore”, como fenômeno que não pensa o presente, serviu de alternativa estatal à contundência do movimento nacional-popular, que colocou o povo e seus problemas reais no centro das preocupações culturais e políticas.

b)
O Tradicionalismo usurpou, assim mesmo, o lugar do Folclore, e se beneficiou do decreto do general Humberto Castelo Branco, de 1965, que criou o Dia Nacional do Folclore, e suas políticas sucedâneas. A difusão de espaços tradicionalistas no Estado e as multiplicações dos galpões crioulos nos quartéis do Exército e da Brigada Militar são fenômenos dessa aliança.

c) A lei que instituiu a “Semana Farroupilha” é de dezembro de 1964, determinando que os festejos e comemorações fossem realizados através da fusão estatal e civil, pela organização de secretarias governamentais (Cultura, Desportos, Turismo, Educação, etc.) e de particulares (CTGs, mídia, comércio, etc.).

d) Durante a Ditadura Militar, o Tradicionalismo foi praticamente a única “representação” com origem na sociedade civil que fez desfiles juntamente com as forças da repressão.

e) Enquanto as demais esferas da cultura eram perseguidas, seus representantes censurados, presos, torturados e mortos, o Tradicionalismo engrossou os piquetes da ditadura – seus serviçais pilchados animaram as solenidades oficiais, chulearam pelos gabinetes e se responsabilizaram pelas churrasqueadas do poder. Esse processo de oficialização dos tradicionalistas resultou na “federalização” autoritária, com um centro dominador (ao estilo do positivismo), com a fundação do Movimento Tradicionalista Gaúcho, em 1967. Autoritário, ao estilo do espírito de caserna dos donos do poder, nasceu como órgão de coordenação e representação. Enquanto o general Médici, de Bagé, era o patrão da Ditadura e responsável, juntamente com seu grupo, pelos trágicos anos de chumbo que enlutaram o Brasil na tortura, na execução, na submissão à censura, na expulsão de milhares de brasileiros para o exílio, os tradicionalistas bailavam pelos salões do poder. Paradoxalmente, enquanto muitos freqüentadores de CTGs eram perseguidos ou impedidos de transitarem suas idéias políticas no âmbito de suas entidades, o Tradicionalismo oficialista atrelou o movimento ao poder, pervertendo o sentimento de milhares de pessoas que nele ingressaram motivados por autênticos sentimentos lúdicos de pertencimento e identidade fraterna.

f) Através da relação de intimidade com a ditadura, o MTG conseguiu “criar” órgãos estatais de invenção, difusão e educação tradicionalista, ao mesmo tempo em que entregou, ou reservou diversos cargos “públicos”, para seus ideólogos, sob os títulos de “folclorista”, “assessor cultural”, etc.

g) O auge do processo de colaboração entre a Ditadura e o MTG foi a instituição do IGTF – Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, em 1974, consagrando uma ação que vinha em operação desde 1954. A missão era aparentemente nobre: pesquisar e difundir o folclore e a tradição. Mas do papel para a realidade existe grande diferença. Havia um interesse perverso e não revelado. A constituição do quadro de pessoal, ao contrário da inclusão de antropólogos, historiadores da cultura, pessoas habilitadas para a tarefa (que deveriam ser selecionadas por concurso público), o critério preponderante para assumir os cargos era, antes de tudo, a condição de tradicionalista. Assim, um órgão de pesquisa, mantido pelo dinheiro público, transformou-se em mais uma mangueira do MTG. Com o passar dos anos, os governos que tentaram arejar o IGTF, indicando dirigentes menos dogmáticos, invariavelmente, entraram em tensão com o MTG.

h)
Essa rede de usurpação do público pelo Tradicionalismo, por fim, atingiu a força de uma imanência incontrolável. Em 1985, já na redemocratização, o MTG conseguiu que a Assembléia Legislativa instituísse o Dia do Gaúcho, adotando como tipo ideal o “modelo” tradicionalista.

i) Em 1988, com uma manipulação jamais vista na vida republicana, o MTG se mobilizou pela aprovação da lei estadual que estabeleceu a “obrigatoriedade do Ensino de Folclore”; na regulamentação, a lei determinou que o IGTF exercesse a função de “suporte técnico”, sem capacitá-lo pedagogicamente. De fato, passou a ocorrer uma relação direta entre as escolas e os CTGs. Dessa maneira, o Tradicionalismo entrou no sistema educacional, transgredindo a natureza da escola republicana como lugar de estudo e saber, e não de culto e reprodução de manuais. Hoje, os alunos são adestrados pela pedagogia de aculturação e cultuação tradicionalista.

j) Por fim, em 1989, a roupa tradicionalista recebeu o nome de “pilcha gaúcha”, e foi convertida em traje oficial do RS, conforme determinação do MTG.

Concluindo:

Por que não nos miramos no Povo Negro que não mede esforços no resgate de sua história, no Brasil e aqui no Rio Grande, de sua religião afro-brasileira, de sua cultura, a exemplo da ação realizada ontem na catedral de Porto Alegre celebrando o martírio de seus heróis lutadores por liberdade na guerra farroupilha que foi entre grandes latifundiários rio-grandenses e grandes latifundiários federalistas, sem ideal de espécie alguma?... O povo rio-grandense nada teve a ver com essa guerra motivada apenas por exigência de busca por mais recursos financeiros e até por quererem se separar do Brasil, criando uma outra república, a de Piratini.

Por que não nos miramos no povo guarani das Missões dos Sete Povos que cultivam até hoje, sem solução de continuidade, a sua própria cultura guarani com sua busca incansável da Terra Sem Males de que gozavam como missioneiros, contra o logro em que virou nosso Rio Grande hoje, depois da chacina do Caiboaté, em terra de todos os males, sob o regime capitalista que nos oprime há mais de quinhentos anos?...

Oxalá as nossas universidades estaduais, arregacem as mangas e se ponham a fazer pesquisas a fim de resgatarmos nossos autênticos heróis do passado e  proporcionar a nossos jovens modelos dignos de imitação e não vilões escravocratas, matadores de índios, de negros e de militantes de movimentos populares como é o caso da brava gente do MST.

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