João da Cruz, Teresa de Lisieux, Madre Teresa: eles conheceram uma “noite da fé”

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20 Abril 2021

 

Essas grandes figuras místicas foram confrontadas com o sentimento da perda de Deus e caminharam na escuridão para encontrá-Lo.

A reportagem é de Sixtine Chartier, publicada por La Vie, 29-03-2021. A tradução é de André Langer.

 

João da Cruz (1542-1591)

João da Cruz | Wikimedia Commons

“Oh! noite que me guiaste, / Oh! noite mais amável que a alvorada! / Oh! noite que juntaste / Amado com amada, / Amada já no Amado transformada!” Nos caóticos caminhos da “noite da fé”, João da Cruz é um guia precioso e imprescindível. Este grande poeta do Século de Ouro espanhol, amigo de Teresa d'Ávila, foi atraído por ela em sua reforma da família carmelita. Seus poemas e escritos espirituais visam traçar o caminho que leva a alma à santidade. Ao longo do caminho, a experiência da noite, marcada pelo sentimento da ausência de Deus, é uma purificação necessária para alcançar a união perfeita com Deus.

 

Teresa de Lisieux (1873-1897)

Teresa de Lisieux | Wikimedia Commons

“Nos dias tão alegres do tempo pascal, Jesus fez-me compreender que há verdadeiramente almas que não têm fé (...). Ele permitiu que a minha alma fosse invadida pelas mais densas trevas e que o pensamento do céu tão doce para mim não fosse senão um assunto de luta e de tormento... Essa provação não duraria alguns dias, algumas semanas; ela deveria se extinguir apenas na hora marcada pelo bom Senhor e... aquela hora ainda não chegou...” No final de sua vida, a carmelita enfrentou uma escuridão que não purifica, como aquela de João da Cruz, mas “devastadora”, explica François Marxer em Au peril de la nuit. Femmes mystiques du XXe siècle (Cerf) (No perigo da noite. Mulheres místicas do século XX). Ela não perde a fé, “mas eis a crença (...) como que dissipada”, deixando espaço para sua única vontade de acreditar. “Para ela, o irrefutável é o desejo”. “Um querer crer que rapidamente se descobre não ser outra coisa que um querer amar”. Teresa escreveu: “Só me resta o amor”.

 

Silvano do Monte Athos (1866-1938)

Silvano Athos | Foto: Wikimedia Commons

A vida do starets Silvano é como uma luta constante. Sua retirada do mundo, no mosteiro russo de São Pantaleão no Monte Athos, aos 26 anos, após várias aventuras, não é sinônimo de apaziguamento. “Eu te procuro com lágrimas e, de novo, estou te perdendo (...). Choro como uma criança que perdeu a mãe”, lamenta. Certa noite, ele pede a Cristo que o ilumine sobre o que fazer e recebe a seguinte resposta: “Mantenha a tua mente no inferno e não te desesperes”. “A partir daquele momento comecei a fazer isso e minha alma encontrou paz em Deus”, disse. “Como Teresa de Lisieux, Silvano ‘sentou-se à mesa do vazio’, sem, no entanto, poder esquecer a paz e a doçura de Deus”, explica Olivier Clément, teólogo ortodoxo, em artigo publicado na revista Buisson Ardent, em 2000. Um despojamento derradeiro, que deixa a iniciativa do encontro somente a Deus.

 

Madre Teresa (1910-1997)

Madre Teresa | Reprodução - La Vie

Estupor geral. Em 2007, o público descobriu o outro rosto da Madre Teresa, figura mundial da dedicação evangélica aos pobres: o da dúvida ao longo de 50 anos. Com a publicação de seus escritos íntimos, Viens, sois ma lumière (Lethielleux) [Venha, seja minha luz], 10 anos após sua morte, o que havia acontecido durante o seu processo de beatificação até 2003, é revelado em plena luz do dia. Suas palavras são fortes: “As almas não me atraem de forma alguma; o céu não significa nada: para mim, parece um lugar deserto”. E sua dor é lancinante, porque ela tem “ainda esse desejo torturante de Deus”: “Deus me falta, me falta, escreveu ela. É quando tenho a sensação de que ele não me quer, que ele não está aqui”. É difícil encontrar significado na dor crua de Madre Teresa. François Marxer nos adverte: nenhum final feliz, nenhum “deslumbramento que teria rasgado a noite obstinada, mas o salto da alma que supera a lamentável queixa”. “À medida que envelheço, escreve ela, minha admiração por Sua humildade cresce mais e mais e eu O amo, não pelo que Ele dá, mas pelo que Ele é: o Pão da Vida, do Faminto”.

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