Invasão russa na Ucrânia alimenta a crise climática

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04 Abril 2022

 

A guerra na Ucrânia não apenas obscureceu, na mídia e na consciência de todos, a iminência da crise climática e ambiental. De fato, está acelerando a sua explosão precisamente com a escolha de prolongar ao máximo a duração dessa guerra.

 

A opinião é do sociólogo e escritor italiano Guido Viale, em artigo publicado no jornal Il Manifesto, 01-04-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

A guerra na Ucrânia aproximou todos do holocausto nuclear, do fim do mundo. Ela nos faz imaginá-lo: tanto para quem o leva a sério, considerando-o um risco cada vez mais iminente, quanto para quem o desafia, certo de que a sua monstruosidade é suficiente, senão para afastar o seu fantasma, certamente para impedi-lo; quanto ainda para os inconscientes – e eles são a maioria – que não o levam em consideração porque olham para o dedo (a guerra individual) e não para a lua (a sua possível projeção sobre o planeta inteiro).

 

Mas essa guerra também está nos aproximando muito do holocausto climático, o ponto sem retorno que os cientistas da ONU (o IPCC) fixaram para daqui a não muito mais do que oito anos, se não intervirmos maciçamente para afastá-lo. E se o holocausto nuclear é uma possibilidade, o climático é uma certeza científica.

 

Mas quantos sabem disso? E quantos, estando informados, acreditam nisso? E quantos acham que podem evitá-lo porque a tecnologia – aquela que nos arrastou até este ponto – nos protegerá da sua ocorrência?

 

A guerra nos aproxima do ponto final climático não apenas pelo CO2 gerado pelas máquinas de morte – bombas, aviões, tanques – debaixo dos quais ficaram esmagados tanto os soldados russos quanto a população e os combatentes ucranianos. Mas também por tudo aquilo que esta guerra – muito mais do que todas as anteriores – colocou novamente em movimento: em benefício de todos aqueles que sempre se opuseram à luta contra a crise climática e que hoje ditam leis nos governos, nas finanças, nas empresas, nas mídias.

 

O problema número um parece ser obter o gás que continuamos comprando da Rússia, financiando a sua guerra de agressão; porque, sem ele, a economia mundial (e não só a italiana ou a alemã) corre o risco de entrar em colapso devido a um efeito dominó intrínseco à globalização. Mas não há apenas o gás. Há também, para substituí-lo, pelo menos em parte, o carvão e o petróleo, com as suas emissões.

 

Depois, há a necessidade de compensar as importações de alimentos da Ucrânia e da Rússia (quase todas destinadas à criação de animais) com um aumento da produção interna. Portanto, abram caminho para os transgênicos, aos fitofármacos e aos fertilizantes sintéticos, ao envenenamento do solo e das águas para espremer uma Terra cada vez mais sufocada e fazê-la cuspir aquilo que é cada vez menos capaz de fornecer na condição de cativeiro a que a condenamos: todos processos que multiplicam as emissões de gases de efeito estufa e impossibilitam a sua reabsorção no solo.

 

Quanto às populações das nações mais pobres, que já recorrem a esses meios com poucas limitações e não têm como reagir ao bloqueio das exportações russas e ucranianas, ou ao aumento dos seus preços, a fome as espera. Morrerão aos milhões.

 

Depois, sobretudo, abram caminho para as armas e para a produção de armas. Abram caminho para o “rearmamento” da Ucrânia, da Otan, da Itália. Como se estivessem desarmadas. Trata-se de produtos “descartáveis”, que consomem recursos, energia, horas de trabalho e vidas humanas, que produzem quantidades imensuráveis de gases de efeito estufa, e que são concebidos para serem “descartados” no menor tempo possível: ou em guerras que eles mesmos alimentam, tornando necessário substituí-los; ou em depósitos, perigosos e poluentes, a serem perdidos; ou vendendo-os a alguma ditadura dos países mais pobres. Mas sempre para dar lugar a produtos tecnologicamente mais atualizados. Isso sem falar nas armas químicas e biológicas, pensadas – e produzidas – para envenenar povos e territórios para sempre.

 

E, com as armas, abram caminho para o espírito bélico alimentado por todas as mídias do Ocidente (como da Rússia) e pelo seu comandante em chefe: o presidente dos Estados Unidos e verdadeiro chefe da Otan, seguindo os seus antecessores, que queriam decidir quem devia comandar no Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Iêmen e, por isso, transformaram metade do mundo em terras sem governo e sem lei.

 

A guerra na Ucrânia, portanto, não apenas obscureceu, na mídia e na consciência de todos, a iminência da crise climática e ambiental. De fato, está acelerando a sua explosão precisamente com a escolha de prolongar ao máximo a duração dessa guerra, fornecendo novamente armas às tropas combatentes da Ucrânia, que não se sabe muito bem quem são (apenas a Otan e – talvez – Zelensky sabem disso), antes mesmo de procurar – e construir – uma tentativa de mediação aceitável: uma proposta e um promotor confiável que se faça portador dela, que possa ser aceitável, ainda que não satisfatório, para ambas as partes envolvidas (que são muito mais do que duas); com alguma renúncia para cada uma delas.

 

Aqueles que optaram por apoiar, senão até compartilhar, as políticas do governo, da União Europeia e da Otan deveriam levar isso em conta: estão sepultando, além dos cadáveres produzidos por um inútil prolongamento da guerra, também a luta contra a crise climática.

 

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