Para ser ouvida, a Igreja precisa mudar de método. Entrevista com Jean-Claude Hollerich, relator do próximo Sínodo

Fonte: Wikimedia Commons

19 Fevereiro 2022

 

Diminuição do número de fiéis, papel da Igreja na sociedade, celibato, sexualidade... Com palavras claras, o cardeal luxemburguês Jean-Claude Hollerich fala sobre o futuro do catolicismo. Para ele, pessoa de confiança do Papa Francisco, não é a mensagem que precisa mudar, mas sim o modo de expressá-la.

 

A reportagem é de Loup Besmond de Senneville, publicada em La Croix, 22-01-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis a entrevista.

 

O senhor foi missionário no Japão, é jesuíta, arcebispo de Luxemburgo, cardeal... Sempre buscou a Deus do mesmo modo?

 

Quando eu cheguei ao Japão como jovem padre, foi um grande choque. Na época, eu era um jovem impregnado do catolicismo popular de Luxemburgo. Com outros jesuítas, cada um proveniente de um ambiente católico diferente, vimos muito cedo que os nossos modelos de catolicismo não correspondiam à expectativa do Japão. Para mim, isso foi uma crise. Eu tive que me abstrair de todas as devoções que até então constituíam as riquezas da minha fé, renunciar às formas que eu amava. Fui confrontado com uma escolha: ou renunciava à minha fé porque não encontrava as formas que eu conhecia, ou iniciava uma jornada interior. Eu escolhi a segunda opção. Antes que pudesse proclamá-la, eu tive que me tornar um buscador de Deus. Eu dizia insistentemente: “Deus, onde estás? Onde estás na cultura tradicional e na cultura do Japão pós-moderno?”. De volta à Europa depois de 10 anos, eu tive que recomeçar. Achei que encontraria ali o catolicismo que eu havia deixado na minha juventude. Mas aquele mundo não existia mais... Hoje, nesta Europa secularizada, tenho que fazer o mesmo exercício: buscar a Deus.

 

A Europa hoje voltou a ser uma terra de missão?

 

Sim. Há muito tempo. O Luxemburgo da minha juventude se assemelhava um pouco à Irlanda, com grandes procissões, uma forte piedade popular... Quando eu era pequeno, todas as crianças iam à igreja. Meus pais não iam, mas me mandavam, porque era normal fazer isso. Lembro que na escola uma criança da minha turma não tinha feito a primeira comunhão, e foi um escândalo. Agora, o que provoca escândalo, em vez disso, é que uma criança a faça. Mas, refletindo, dou-me conta de que aquele passado não era tão glorioso. Evidentemente, eu não percebia isso quando era criança, mas percebo hoje que, já naquela época, havia muitas fissuras e muita hipocrisia naquela sociedade. No fundo, as pessoas não acreditavam mais do que acreditam hoje, mesmo que fossem à igreja. Elas tinham uma espécie de prática dominical cultural, mas sem que isso se inspirasse na morte e ressurreição de Cristo.

 

Na sua opinião, essa prática cultural do catolicismo acabou?

 

Ainda não totalmente. Isso varia de acordo com as regiões do mundo. Mas estou convencido de que a Covid vai acelerar esse processo. Em Luxemburgo, temos um terço de praticantes a menos. Tenho certeza de que não vão voltar. Entre eles, encontram-se pessoas de uma certa idade que acharão difícil e cansativo retomar a prática religiosa, deslocar-se para ir à igreja. Mas há também aqueles católicos para os quais a missa dominical se resumia a um rito importante, que assegurava uma estabilidade na sua vida. Para muitos, dizer-se católico ainda é uma espécie de hábito ligado a uma moral geral. Segundo eles, isso contribui para dar uma certa solidez à sociedade, para ser “bons cristãos”, mas sem definir verdadeiramente o que isso significa. Mas essa época tem que acabar. Agora, temos que construir uma Igreja sobre a fé. Já sabemos que somos e seremos uma minoria. Não devemos nem nos surpreender nem lamentar. Tenho a doce certeza de que o Senhor está presente na Europa atual.

 

Não tem dúvidas sobre isso?

 

Não, nenhuma. Essa não é mais uma questão que me obceca. Quando eu era mais jovem, eu tinha medo de não o encontrar, eu era meio que obcecado por esse temor. Eu tinha que o descobrir ou afundaria. Agora estou muito mais tranquilo.

 

É a sabedoria da idade?

 

Não sei se existe uma sabedoria da idade (risos). Eu ficaria feliz se ela existisse! Mas, no fundo, sempre fazemos as mesmas tolices e esbarramos sempre no mesmo muro. Pelo menos, sabemos que o muro está lá e que vai doer. Também já sei que não sou nada mais do que um instrumento do Senhor. Existem muitos outros. Essa consciência me leva a ter sempre um pouco de desconfiança em relação a todos aqueles que dizem ter a receita certa para anunciar Deus.

 

Não existe uma receita mágica?

 

Não, há apenas a humildade do Evangelho.

 

E, quando era mais jovem, o senhor acreditava em receitas mágicas?

 

Sim, claro, eu acreditava. Mas é um pecado da juventude. Evidencia o entusiasmo dos jovens...

 

A mensagem do cristianismo continua sendo pertinente hoje?

 

Sim, porque o ser humano não mudou depois de 2.000 anos. Está sempre em busca da felicidade e não a encontra. Está sempre sedento de infinito e se depara com seus próprios limites. Comete injustiças que têm graves consequências para outras pessoas, o que nós chamamos de pecado. Mas agora vivemos em uma cultura que tende a reprimir o que é humano. Essa cultura do consumismo promete satisfazer os desejos do ser humano, mas não consegue. No entanto, nos momentos de crise, de choque, as pessoas se dão conta de que muitíssimas questões dormem no fundo dos seus corações. A mensagem do Evangelho é de um frescor excepcional para responder a essa busca de sentido e de felicidade. A mensagem é sempre pertinente, mas os mensageiros às vezes aparecem em uma veste de tempos passados, e esse não é o melhor serviço prestado à própria mensagem... Por esse motivo, devemos nos adaptar. Não para mudar a mensagem, evidentemente, mas para que ela possa ser compreendida, mesmo que sejamos nós que a anunciamos. O mundo está sempre em busca, mas não vem mais ao nosso encontro para procurar, e isso dói. Devemos apresentar a mensagem do Evangelho de modo que as pessoas possam se orientar para Cristo.

 

Precisamente por isso, o Papa Francisco lançou em outubro passado um Sínodo sobre a sinodalidade, do qual o senhor é uma referência geral. O senhor afirmou recentemente que não sabe o que vai escrever no relatório...

 

Eu devo ser aquele que deve escutar. Se eu fizer muitas propostas, isso desencorajará as pessoas que têm outro ponto de vista. Então, são as pessoas que devem “encher” a minha cabeça e as páginas. O Sínodo é isso. Ele deve ser aberto. Como diz o papa, o “mestre de obras” é o Espírito Santo. Portanto, nós devemos lhe dar espaço. Se esse método é importante é porque hoje não podemos mais nos contentar em dar ordens de cima para baixo. Em todas as sociedades, na política, nas empresas, o que importa agora é fazer rede. Essa mudança na tomada de decisões anda de mãos dadas com uma verdadeira mudança de civilização que devemos enfrentar. E a Igreja, como sempre fez ao longo da história, deve se adaptar a ela. A diferença é que, desta vez, a mudança de civilização tem uma força inédita. Temos uma teologia que ninguém mais compreenderá daqui a 20 ou 30 anos. Essa civilização passará. É por isso que precisamos de uma nova linguagem que deve se fundamentar no Evangelho. E toda a Igreja deve participar no desenvolvimento dessa nova linguagem: esse é o sentido do Sínodo.

 

Como presidente da Comece [Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia], o senhor participou no início de outubro de uma reunião com os partidos europeus de direita e de centro-direita em Roma. Ao sair, o cardeal Parolin encorajou a não considerar o cristianismo como um supermercado no qual apenas alguns valores podem ser escolhidos. É uma tentação presente nos políticos?

 

Sim, é claro. A direita toma os símbolos cristãos, mostra terços e crucifixos, mas nem sempre em relação com o mistério de Cristo. Fazem isso em relação à nossa cultura europeia do passado. Querem fazer referência a uma cultura para conservá-la. É um mau uso da religião. Na esquerda, eu também conheço políticos e políticas que se dizem cristãos convictos, que lutam contra as mudanças climáticas, mas votam no Parlamento Europeu para que o aborto seja um direito fundamental e para que a liberdade de consciência dos médicos seja limitada. Isso também é confundir a religião com um supermercado. É possível ser democrata-cristão, socialista, ecologista... e ao mesmo tempo ser cristão. Essa diversidade de formações políticas, além disso, é algo bom para a sociedade. Mas os responsáveis políticos tendem a encerrar as suas preferências religiosas no âmbito privado. Nesse caso, não é mais uma religião, mas uma convicção pessoal. A religião requer um espaço público para se expressar.

 

Mas assim não é mais difícil para os cristãos se engajarem na política?

 

Em primeiro lugar, é verdade que há menos cristãos. Além disso, é verdade que eles estão cada vez menos engajados na política. É possível ver isso depois de cada eleição. Além disso, é evidente que a mensagem dos bispos não chega mais à sociedade. Vocês experimentam isso na França há vários anos. Essa experiência é a consequência da nossa minoridade. Para fazermos com que se compreenda aquilo que queremos, devemos iniciar um longo diálogo com aqueles que não são mais cristãos ou que o são apenas marginalmente. Se temos certas posições, não é porque somos conservadores, mas porque pensamos que a vida e a pessoa humana devem estar no centro. Para poder dizer isso, eu acho que devemos estabelecer diálogos e amizades com os tomadores de decisão e os responsáveis políticos que pensam diferente. Mesmo que não sejam cristãos, nós compartilhamos com eles uma preocupação honesta de colaborar para o bem da sociedade. Se não queremos viver em uma sociedade fragmentada, precisamos ser capazes de escutar o pensamento de uns e de outros.

 

Isso significa que a Igreja deve renunciar a defender as suas ideias?

 

Não, não se trata disso. É preciso tentar compreender o outro, para estabelecer pontes com a sociedade. Para falar da antropologia cristã, devemos nos basear na experiência humana do nosso interlocutor. Mesmo que a antropologia cristã seja maravilhosa, logo ela não será mais compreendida, se não mudarmos o método. E de que adiantaria tomarmos a palavra se não somos ouvidos? Falamos para nós mesmos, para nos assegurar de que estamos do lado certo? Para tranquilizar os nossos próprios fiéis? Ou falamos para sermos entendidos?

 

Quais são as condições para sermos ouvidos?

 

Em primeiro lugar, a humildade. Acho que, mesmo que não seja necessariamente consciente disso, a Igreja passa a imagem de uma instituição que sabe tudo melhor do que os outros. Portanto, ela precisa de uma grande humildade, sem a qual não pode entrar em um diálogo. Isso também significa que precisamos mostrar que queremos aprender com os outros. Um exemplo: sou absolutamente contrário ao aborto. E, como cristão, não posso ter uma posição diferente. Mas também compreendo que há uma preocupação com a dignidade das mulheres, e que o discurso que tínhamos no passado para nos opormos à lei do aborto não é mais audível hoje. Nesse ponto, que outra medida podemos tomar para defender a vida? Quando um discurso não se sustenta mais, não devemos nos obstinar, mas procurar outros caminhos.

 

Na França, muitos acreditam que a Igreja perdeu uma grande parte da sua credibilidade devido aos crimes sexuais cometidos em seu interior. Como o senhor encara essa crise?

 

Em primeiro lugar, quero dizer que esses abusos são um escândalo. E, quando vemos os dados do relatório Sauvé, fica claro que não se trata de um erro de alguns. Há uma falha sistêmica em algum lugar, que deve ser detectada. Não devemos ter medo das feridas que isso pode nos infligir, que, aliás, não são absolutamente nada em comparação com as das vítimas. Consequentemente, devemos demonstrar uma enorme honestidade e estar prontos para receber ataques. Algumas semanas atrás, eu estive em Portugal e estava celebrando a missa. Havia ali um menino que estava servindo a missa e me olhava como se eu fosse o bom Deus. Eu percebia que ele via em mim um representante de Deus, o que, aliás, eu era na liturgia.

Abusar de tais crianças é um verdadeiro crime. É uma culpa muito mais grave do que a de um professor ou de um treinador esportivo que comete esses atos. O fato de que isso tenha sido tolerado para proteger a Igreja é muito ruim. Nós fechamos os olhos! É quase irreparável. Agora, eu respondo à sua pergunta. Alguns perderam a confiança. Para reconquistá-la, quando possível, é preciso ter uma grande humildade. Quando se acompanha uma comunidade ou uma pessoa, é preciso ter sempre em mente o princípio do respeito absoluto por quem é acompanhado. Eu não posso dispor de uma pessoa. Parece-me evidente que essas questões estarão na cabeça e no coração de todos durante o processo do Sínodo. Devemos fazer mudanças.

 

Se há uma culpa sistêmica, na sua opinião, são necessárias mudanças sistêmicas?

 

Sim. Evidentemente, na minha diocese, como em muitas outras, temos uma “carta” de boa conduta que deve ser assinada por todos, padres e leigos que trabalham para a Igreja. Antes da ordenação, também submetemos os seminaristas a oito sessões psicológicas destinadas a detectar a pedofilia. Fazemos tudo o que podemos, mas não é o suficiente. Precisamos de uma Igreja estruturada de tal maneira que essas coisas não sejam mais possíveis.

 

Ou seja...

 

Se déssemos mais voz às mulheres e aos jovens, essas coisas teriam sido descobertas muito antes. É preciso parar de agir como se as mulheres fossem um grupo marginal na Igreja. Elas não estão na periferia da Igreja, estão no centro. E, se não dermos a palavra a quem está no centro da Igreja, teremos um grande problema. Não quero ser mais preciso: essa questão certamente será levantada no Sínodo em diferentes culturas, em diferentes contextos. Mas as mulheres foram ignoradas demais. É preciso ouvi-las, assim como o restante do povo de Deus. Os bispos devem ser como pastores que estão à escuta do seu povo. Isso não significa que eles devam dizer simplesmente: “Sim, eu ouvi, mas isso não me interessa”. Eles devem estar no meio do rebanho.

 

Que outras mudanças precisam ser feitas?

 

A formação do clero deve mudar. Ela não deve se centrar unicamente na liturgia, embora eu entenda que os seminaristas lhe atribuem uma grande importância. É preciso que os leigos e as mulheres possam dar a sua opinião na formação dos padres. Formar padres é um dever da Igreja inteira, e, portanto, é preciso que a Igreja inteira acompanhe essa etapa, com homens e mulheres casados e celibatários.

Uma segunda coisa é que devemos mudar o nosso modo de considerar a sexualidade. Até hoje temos uma visão bastante reprimida da sexualidade. Evidentemente, não se trata de dizer às pessoas que elas podem fazer qualquer coisa ou de abolir a moral, mas acho que devemos dizer que a sexualidade é um dom de Deus. Nós sabemos disso, mas o dizemos? Não tenho certeza disso.

Alguns atribuem a multiplicação dos abusos à revolução sexual. Eu penso exatamente o contrário: na minha opinião, os casos mais horríveis ocorreram antes dos anos 1970. Nesse âmbito, é preciso que os padres também possam falar sobre a sua sexualidade e que possam ser ouvidos se tiverem dificuldades em viver o celibato. Eles devem poder falar sobre isso livremente, sem medo de serem repreendidos pelo seu bispo.

Quanto aos padres homossexuais, eles são muitos, e seria bom que pudessem falar disso com o seu bispo, sem que ele os condene.

No que concerne ao celibato, na vida sacerdotal, perguntemo-nos francamente se um padre deve necessariamente ser celibatário. Eu tenho uma opinião muito elevada sobre o celibato, mas ele é indispensável? Na minha diocese, eu tenho diáconos casados que exercem o seu diaconato de forma maravilhosa, que fazem homilias que tocam as pessoas muito mais profundamente do que nós que somos celibatários. Por que não ter também padres casados? E, mesmo que um padre não possa mais viver essa solidão, é preciso compreendê-lo, e não o condenar. Agora eu já estou velho, isso diz menos respeito a mim...

 

O senhor sentiu essa dificuldade de viver essa solidão?

 

Sim, certamente. Em certos momentos da minha vida, isso foi muito claro. E também é evidente que todo padre se apaixona de vez em quando. Então, a questão é saber compreender como ele se comporta nesse caso. Acima de tudo, é preciso ter a honestidade de admitir isso a si mesmo e depois agir de tal modo que seja possível viver o próprio sacerdócio.

 

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