"O Cântico das Criaturas nos ajuda a defender a vida". Entrevista com Stefano Mancuso

Foto: Milícia da Imaculada

10 Janeiro 2026

Uma jornada poética e científica pelas maravilhas da natureza. Ou melhor: a receita da vida. É o que emerge de Il cântico della terra (O Cântico da Terra, Editori Laterza, €18), o novo livro de Stefano Mancuso – diretor do Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal da Universidade de Florença – inspirado no Cântico das Criaturas de São Francisco. Cada estrofe do texto poético inspira Mancuso a descrever como o Irmão Sol, Vento, Fogo e a Irmã Lua, Água e nossa Mãe Terra tornam possível a existência da vida e protegem seu destino.

A entrevista é de Giorgio Vincenzi, publicada no caderno ExtraTerrestre, do jornal ll Manifesto, 08-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Passaram-se pouco mais de 800 anos desde que São Francisco compôs o "Cântico das Criaturas". O que o torna ainda atual hoje?

É muito mais atual hoje do que quando foi escrito, no sentido de que, ao ler o Cântico das Criaturas, percebemos que cada um dos fatores considerados por São Francisco em seu louvor é fundamental para a existência da vida. Não apenas é fundamental, como também aparece na sequência correta: o primeiro é o Sol, que é o fator mais importante de todos, o motor, a fonte de energia do nosso sistema. Depois vem a Lua. Se não tivéssemos esse satélite, sozinho, desse tamanho e a essa distância da Terra, a vida não poderia existir. Ela estabiliza a obliquidade da Terra, algo que pareceria totalmente marginal, mas que é, na verdade, fundamental para garantir a evolução da vida. Além disso, provoca as marés no núcleo metálico do planeta que geram um campo eletromagnético (o chamado geodínamo) que nos protege dos raios cósmicos. Francisco não apenas compreendeu a importância de todos os fatores que permitem a vida, como também os listou na sequência correta — sol, lua, vento, água, fogo e terra — descrevendo-os em termos que ressaltam sua importância.

Atual, mas não devidamente considerado.

Somos perfeitamente capazes de modificar o comportamento de quatro dos parâmetros fundamentais — ar, água, fogo e terra — e o fazemos mesmo sem termos a mínima ideia das consequências de nossos atos. É incrivelmente perigoso. Quando falo no livro sobre o irmão vento, ou seja, o ar, lembro-me do perigo causado pelo buraco na camada de ozônio.

Para a grande maioria das pessoas, certamente pareceu algo desagradável, mas poucos entenderam na época que, se a camada de ozônio realmente tivesse desparecido — como teria acontecido se não tivéssemos feito alguma intervenção para resolver o problema —, a nossa vida teria estado em grave perigo, pois não teríamos mais uma barreira contra os raios ultravioleta. Quantas pessoas conseguem entender tudo isso? Muito poucas, infelizmente.

A capacidade de modificar esses fatores fundamentais está nas mãos de qualquer um: um fabricante, uma empresa ou uma multinacional química pode alterar irreversivelmente os parâmetros que regulam a vida. E é isso que estamos fazendo com o aquecimento global. Estamos mudando a composição da atmosfera, e isso terá consequências não apenas para a nossa espécie, mas para toda a vida no planeta. No livro, explico que a melhor coisa a fazer em relação a esses parâmetros fundamentais seria pendurar um aviso neles: não mexer! É insensato mexer com fatores cujo funcionamento não compreendemos e que são a base da própria possibilidade da existência da vida.

Livro de Stefano Mancuso. (Foto: Editori Laterza/Reprodução)

Foi um texto profético.

Sim, realmente profético. Parece que São Francisco foi capaz de, de alguma forma, de dar uma olhada no protocolo do laboratório e nos dizer como criar vida, como preservá-la, como fazê-la funcionar. Portanto, é profético em sua capacidade de intuir, de compreender, por que a vida precisa de todos esses fatores.

É como uma mensagem em uma garrafa que Francisco nos envia do passado; mas, ao contrário das mensagens comuns em garrafas enviadas por náufragos pedindo socorro, essa é uma mensagem enviada por um homem de 800 anos atrás para nos salvar: "Cuidado, esses fatores são realmente delicados, eles regulam a vida: não mexam neles, não se metam com eles."

Em vez disso, a humanidade perdeu a noção dos limites e não tolera o fato de que sua vida possa depender da natureza. Por exemplo, recusa-se a abandonar os combustíveis fósseis, que estão entre as causas das mudanças climáticas. Como isso é possível?

É possível porque são questões extremamente complexas, como a própria vida, ou mesmo o clima. Para compreendê-las, é preciso educação. É preciso entender que o dióxido de carbono produzido pelos nossos processos vai para a atmosfera e impede o resfriamento do planeta, o que causa as mudanças climáticas. Vivemos em um mundo onde as pessoas realmente capazes de entender — não por serem especialistas, mas por terem uma educação adequada para a compreensão desse problema —são apenas uma pequena minoria.

A vasta maioria da população humana não possui as ferramentas para compreender o problema e, obviamente, não consegue entender como o uso de um carro movido a combustível fóssil pode ter consequências na vida das gerações futuras ou de populações do outro lado do mundo. É algo tão vago que, quando você fala sobre isso, o efeito é o oposto, pois as pessoas perguntam: "você está inventado tudo isso, não é?" e assim por diante.

Vejamos, por exemplo, a questão da inteligência artificial. Estamos praticamente abdicando da capacidade de compreender problemas complexos, deixando-os nas mãos de máquinas, de inteligências artificiais. O problema fundamental — aliado ao fato de vivermos em uma época em que existe essa falsa ideia de que tudo pode ser explicado em 140 caracteres — é que pensamos que tudo pode ser simplificado ao extremo. Não é verdade. Há coisas tão complexas que não podem ser simplificadas.

Uma espécie em média se extingue após 5 milhões de anos. O ser humano, Sapiens, existe há cerca de 300 mil anos. No ritmo atual de impacto sobre o meio ambiente, nos extinguiremos muito mais cedo. Pela lógica, se acompanhássemos a mesma média das outras espécies, não as melhores, ainda teríamos 4,7 milhões de anos pela frente, o que é um tempo inimaginável.

Somos uma espécie incrivelmente jovem, criança, mas já com a capacidade de mudar o destino do planeta. Quando se coloca a capacidade de mudar o destino de um planeta nas mãos de uma criança, desastres quase sempre acontecem, a menos que ela seja incrivelmente sábia e amadureça rapidamente. Espero que esse seja o nosso futuro!

Voltando ao seu livro, em certo ponto se chega aos "que perdoam". Quem são eles?

Os que perdoam são aqueles que ajudam, que cooperam, as comunidades. São aqueles, como diz São Francisco, que nos ajudam a superar sofrimentos e tribulações. Dediquei um capítulo especificamente às comunidades porque essa ideia de que a cooperação é uma força motriz da vida — algo óbvio para Francisco — não é nada óbvia para nós, que continuamos a acreditar que a força motriz da evolução é a competição.

Pensamos que sobrevivem os mais fortes, os mais inteligentes, os mais astutos. Isso não é verdade. Sobrevivem as espécies que cooperam, aquelas que são capazes de criar comunidades solidárias, coesas. As plantas criam comunidades incrivelmente sólidas, nas quais cada indivíduo tem tudo o que precisa. Alguém poderia perguntar: mas por que as plantas fazem isso? Talvez porque sejam boas, porque têm uma ética? Não, de forma alguma. Elas fazem isso porque é a melhor e mais eficaz maneira de sobreviver.

Pensamos que sobrevivem os mais fortes, os mais inteligentes, os mais astutos. Isso não é verdade. Sobrevivem as espécies que cooperam, aquelas que são capazes de criar comunidades solidárias, coesas – Stefano Mancuso

Portanto, a cooperação é o motor da vida.

O motor da vida, não importa como a analisamos ou qual espécie estudemos, é a cooperação. Nós a vemos nos microrganismos, nas plantas, em todos os lugares, exceto naquela visão estúpida, equivocada e distorcida de uma parte da humanidade que acredita que a competição é o verdadeiro insumo da vida.

Para concluir, gostaria de lhe perguntar sobre um evento específico, do qual você participou diversas vezes, para a divulgação científica, tecnológica e humanista, realizado todos os anos no Chile (este ano de 12 a 17 de janeiro), intitulado "Congreso Futuro". Do que se trata?

Na minha opinião, é uma das conferências mais importantes do mundo. É extraordinário que exista um país, o Chile, onde o Senado debate como será o futuro. Parece estranho, mas deveria ser função dos políticos poder imaginar o futuro. Na realidade, não o faz porque seu horizonte se resume às próximas eleições e, portanto, a seis meses, um ou dois anos. O Chile organiza essa conferência incrível, para a qual convida os pensadores mais brilhantes do mundo em diversas áreas — da ciência às artes, da narrativa à música — que compartilham sua visão de futuro.

Naquele evento, ouvi visões do mundo que virá que, no momento, nem sequer conseguimos imaginar.

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