Arcebispo Viganò: Um mistério do Vaticano

Foto: L'Osservatore Romano

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25 Junho 2024

O anúncio do julgamento do Arcebispo Carlo Maria Viganò, um crítico feroz do Papa Francisco, chocou muitos no Vaticano.

A reportagem é de Loup Besmond de Senneville, publicada por La Croix International, 24-06-2024. 

O anúncio de um julgamento por atos cismáticos não é uma ocorrência comum no Vaticano. Pelo contrário, o anúncio do julgamento pelo réu, Dom Carlo Maria Viganò, teve o efeito de uma pequena bomba na Santa Sé. Numa atitude inusitada, o arcebispo publicou a carta de convocação para uma audiência do Dicastério para a Doutrina da Fé na rede social X (antigo Twitter).

A razão pela qual o anúncio teve um impacto tão forte foi porque o Arcebispo Viganò tem sido, durante vários anos, um dos mais ferozes críticos do Papa Francisco. Ele não só acusou o papa de “usurpar” a Cátedra de Pedro, mas também atacou o Concílio Vaticano II, que descreveu como um “câncer ideológico”. Cada uma das suas declarações desencadeia regularmente dezenas de artigos, especialmente na imprensa americana, sobre o homem que se tornou uma figura importante de um certo conservadorismo radical americano.

Contudo, o italiano nem sempre foi um adversário feroz do Vaticano. Ele foi um diplomata de longa data, servindo como representante do papa no Conselho da Europa, na Nigéria e nos Estados Unidos. Exerceu também o cargo de Secretário-Geral do Governatorado de 2009 a 2011. Foram cargos estratégicos onde foi muito respeitado, nomeadamente por ter alertado sobre a situação do Cardeal Theodore McCarrick, antiga figura proeminente da Igreja americana, que acabou por ser destituído, em 2019 por abuso sexual de vários jovens.

“Quando era núncio apostólico, trabalhava extremamente bem”, reagiu o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, poucas horas depois do anúncio do julgamento. Embora considere “normal” que o dicastério inicie uma investigação, o cardeal não escondeu o seu apreço por Viganò, descrevendo-o “como um grande trabalhador” e “muito fiel à Santa Sé”.

“Tudo mudou em 2018, quando ele pediu a renúncia do papa”, recordou um membro da Cúria. Outro, que o conhecia há muito tempo, lembrava-se dele como um homem “com convicções”, mas “muito afável”. “Parece que ele foi apanhado em certas redes americanas anti-Francisco”, acredita a mesma fonte. "Com a COVID, ele mergulhou em teorias da conspiração. Hoje, quase ninguém aqui tem contato com ele. Seu comportamento é um mistério", acrescentaram.

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